sábado, 10 de março de 2012

Fil. Antiga, 4ª sessão, 7 de Março (Rita Couto)


Aula 4 – 
07.Março.2012 (4ª) – 
SPIRITUS 

Acepções de SPIRITUS 

Spiritus como Pneuma (Tò agiov pveuma) -Cruzamento com o pensamento semita, também 
configurado nos gregos e latinos mas cuja raíz se diluiu, dando lugar a uma interpretação 
metafísica/transcendente na actualidade. 

Habitação do corpo – Diferente na maneira de dizer o que acontece. Concepção destruída na 
modernidade. Cristianismo como recuperação do pensamento arcaico. 

Raíz etimológica: Spiro – sopro; não visa um acontecimento de ar, mas de sopro; 

Ideia de Auras (hauch – 
sopro) 

Compreensão de que na respiração havia uma comunhão com a totalidade da vida. Os 
gregos pensavam que os elementos (ar, agúa, terra, fogo) eram modificações de um 
acontecimento fluvial (Fédon de Platão). 

O acesso à realidade não é restrito ao contacto táctil, mas há um contacto que 
extrapola o contacto visual (não o ocular, como seria levar um murro no olho). 
Contacto táctil, como descrito por Aristóteles, é idêntico ao contacto com a verdade (a 

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verdade toca). Ideia básica de que todos os órgãos eram tácteis e que o próprio tacto 
tem um campo de expansão para além de si. 

Compreensão de que esta atmosfera espiritual não resulta de indução. Há antes uma 
experiência de ser tudo ao mesmo tempo. Sentidos correspondem a uma 
pormenorização, que pressupõe o acontecimento maciço do espírito que é a ponte de 
contacto. É a própria abertura e o acesso, cuja forma é descrita como pulsação, 
respiração – acontecimentos rítmicos que permitem o ciclo vital. 

O humano não sabe o que é o vento em si. No pensamento antigo nem se discutia a 
questão, mas eram interpretados como um mesmo acontecimento, da mesma 
natureza. Se pensarmos na ira, na cólera, descritas por vezes como um “saltar a 
tampa”, a compreensão desse acontecimento está determinada pela interpretação 
desses conteúdos como próprios e exclusivos do humano, visto dentro de um espaço 
estrutural hermético. 

LEWIS & SHORT 


2 An exhalation, smell, odor: spiritus unguenti suavis, Lucr. 3, 222: foedi odoris, Cels. 5, 26, 
31 fin.: florum,Gell. 9, 4, 10: sulfuris, Pall. Aug. 9, 1; cf. Hor. C. 3, 11, 19.— 

Apresentado como exalação ou odor em Horácio; 
A fragrância é dada por uma exalação e pela presença de uma qualidade secundária, 
mas presente na evocação dos deuses (exemplo – incenso) 

3 (…) animantium vita tenetur, cibo, potione, spiritu, id. ib. 2, 54, 134: si spiritum ducit, 

vivit, id. Inv. 1, 46, 86 
O ar que é respirado 
“A vida dos entes dotados de alma” 

C. Sentido transferido 
Sentido dinâmico -Ao falarmos da ideia de respiração perde-se a ideia de espírito. 
Trata-se de um movimento dialéctico, implicando uma inspiração e um a expiração. 
Forma de compreensão de acontecimentos contíguos (respiração, a pulsação), que 
espantava os antigos, de absorver e expelir conteúdos essenciais à manutenção da 
vida. 

1. 
Sufoco 
2. 
Espírito divino como inspiração (enthousiasmós): Ter presença de espírito ou ter 
espírito, tido como uma configuração completamente distinta da anatomia. 
Podemos estar apenas “de corpo presente”, estando alerta ou fugidos, 
distantes, ausentes. haec fieri non possent, nisi ea uno divino et continuato 
spiritu continerentur,by a divine inspiration, Cic. N. D. 2, 7, 19; 3, 11, 28; 
inspiração divina na poesia 
3. 
Espírito da vida (o mesmo fenómeno da psique grego – Sopro vital) -Como 
Homero descreve a morte dos combatentes: expiram pela última vez. Latinos 
descreviam assim a morte, como se o espírito se espalhasse, se derramasse 
como um líquido, pela última vez como um prazo que expira. Múltiplas 
roupagens na vida até à última apresentação. eum spiritum, quem naturae 
debeat, patriae reddere, Cic. Phil. 10, 10, 20; ideia de um espírito que abonda o 
humano e regressa para onde veio, para a sua pátria; 
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II. 
Arrogância/Orgulho – 
alguém inchou, tem o ego insuflado: uma forma de 
acontecimento que identifica um estado psíquico. 
Ovídio, 15ª Metamorfose (Pítagoras): ocupação do corpo; impulsos irascíveis como 
formas de ocupação, de assalto; Horácio; avidus (i. e. .. 
.π.........., the 
desiring, coveting soul) ; [é o apetite que nos tem] 

b. Transf. 
2. Fantasma/ Geist -algo que se agita ou é agitado. 
LEITURA E INTERPRETAÇÃO -ANAIS DE TÁCITO 

II.43 

Contexto: Germânico consegue obter a vitória em partes da Germânia e consegue vencer a 
rebelião dos soldados. Tibério julga que este tem intenções imperiais (apesar de ser filho 
adoptado, não é filho de sangue, e Druso é seu filho de sangue.) Germânico não quer abdicar 
do poder. Tibério esgota a sua popularidade e procura desgastar a fama de Germano. Piso 
assassina Germano para ficar com poder na Ásia menor. Descrição da maneira de ser de Piso. 

spiritus sed praeter paternos 
uxoris quoque Plancinae nobilitate et opibus accendebatur 

Espírito do pai que era irascível; 
Espírito, como maneira de ser, herdado do pai: ingenium violentum; ignarum 
obsequio; 

Boa ou má influência (ideia fluvial) 
Espírito configura a nossa relação com o outro, havendo ou não pessoas disponíveis; 
Família como entidade transcendente, que não se esgota na contemporaneidade dos 


membros que a compõe, incluindo antepassados, formando relações de descendência 
Contaminação de um sopro por outro sopro, pela convivência que influencia 
(confluência/apartamento de águas). 

II.70 
Contexto: Envenenamento de Germano. 

Si effundendus spiritus sub oculis inimicorum foret 

Escutou conspiração contra o próprio, percebeu com ira e não menos com medo; 
Ideia de partida, exitus, abandono do espírito. 
Effundendus: vida pensada como acontecimento fluvial, que se espalha; 


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XIII.16 


Contexto: Nero e Agripina (filha de Germânico). Agripina tem intenções imperiais e procura 
matar Britânico. Nero envenena Britânico provocando uma aparente crise de epilepsia. 

quod ita cunctos eius artus pervasit ut vox pariter et spiritus raperentur. 

Veneno espalha-se por todo o seu corpo, de tal forma que a presença do espírito é 

“raptada” 

at Agrippinae is pavor, ea consternatio mentis, quamvis vultu premeretur, emicuit ut perinde 
ignaram fuisse <atque> Octaviam sororem Britannici constiterit: quippe sibi supremum 
auxilium ereptum et parricidii exemplum intellegebat. 

Dá conta que pode ser posta fora de jogo por Nero; mostra face de horror 

IV.12 

Agrippinae quoque proximi inliciebantur pravis sermonibus tumidos[1] spiritus perstimulare. 

Também o espírito de Agripina era estimulado a “encher” através de conversas 
privadas com os seus próximos. 
Carácter orgulhoso espicaçado ao ponto de inchar ainda mais – metáfora física, para 

um acontecimento psicológico. 
Ceterum laudante filium pro rostris Tiberio senatus populusque habitum ac voces dolentum 
simulatione magis quam libens induebat 
Habitum (pose/maneira de ser) revestido/armado de uma posição “simulatio” 

quod principium favoris et mater Agrippina spem male tegens perniciem adceleravere. 

.Descrição do modo como se provoca o outro -o caracácter do outro. 
igitur contumaciam eius insectari, vetus Augustae odium, recentem Liviae conscientiam 
exagitare, ut superbam fecunditate, subnixam popularibus studiis inhiare dominationi apud 
Caesarem arguerent. 
Insectari/inhiare/exagitare/perstimulare: Formas de compreensão de que o espírito se 
trata de um acontecimento concreto intrínseco, com consequências extrínsecas. 

IV.52 

non eiusdem ait mactare divo Augusto victimas et posteros eius insectari. non in effigies mutas 
divinum spiritum transfusum: se imaginem veram, caelesti sanguine ortam 

Acusativo – resultado da acção, objecto da acção 
Ideia de relação entre o espírito e uma noção de sopro ou líquido/ pressão 
atmosférica, etc. 

XIII.21 

Contexto: Conspiração de Agripina, apoiada por Burru e Séneca. Estado em que ficam os 
acusadores depois de Agripina ter falado. 

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commotis qui aderant ultroque spiritus eius mitigantibus, conloquium filii exposcit, ubi nihil 

pro innocentia, quasi diffideret, nec de beneficiis, quasi exprobraret, disseruit, sed ultionem in 
delatores et praemia amicis obtinuit. 

Não argumenta pela sua inocência, nem fala dos benefícios que o filho recebeu dela 
para que não fosse acusada, mas obtém a vingança contra os delatores e o prémio 
para os seus amigos. 

XV.57-11 

dit cervicem et corporis pondere conisa tenuem iam spiritum expressit, clariore exemplo 
libertina mulier in tanta necessitate alienos ac prope ignotos protegendo, cum 

“Comprime o sopro já ténue. 
Suicídio/morte pensada como uma compressão do sopro para fora. 


XV.64 

Contexto: Poupada a morte à mulher de Séneca, Paulina por Nero para que não aumentasse o 
ódio à sua crueldade. Morte de Séneca. 

esset multum vitalis spiritus egestum 

Modo como espírito estava enfraquecido, reflectindo-se numa palidez, uma 
modificação da apresentação física, da aparência de um humano, resultado do eclipse 
da alma. 

XVI.24 
Contexto: Morte de Trasea, denunciado como agente da conspiração contra Nero. Proibido de 
vir ao senado fazer a sua defesa. Escreve carta a Nero. 

quod ubi non evenit vultumque et spiritus et libertatem insontis ultro extimuit, vocari patres 
iubet. 

Temia ver/enfrentar um vulto/espírito 

XVI.26 
Contexto. ( ) Pretende defender Trasea. 

cohibuit spiritus eius Thrasea ne vana et reo non profutura, intercessori exitiosa inciperet. 

XVI.34 
Via-se na cara dele que tinha estado a investigar coisas sérias 

de natura animae et dissociatione spiritus corporis que inquirebat 

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Investigação acerca da natureza da alma e da natureza da relação entre espírito e 
corpo 

Corpus/spiritus como entidades simultâneas e é a dissociação, (dissolvência – 
termo 
jurídico) que se trata do momento final. 

Alma/pneuma 

Diferença spiritus/anima – 
relação com verbos.1. Spiritus com entidade supra 
individual que flui continuamente; 2. Animus – 
relacionado com fluidez, maneira de 
ser. Spiritus descrito quando se espalha, ou inspira, como algo mais radical que o 
Animus. 

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