quarta-feira, 21 de março de 2012

Contemporânea, 7ª sessão (Tomaz Fidalgo)


Numa análise do Tractatus podem-se encontrar mais de 100 vezes Ich.
Quais as hipóteses interpretativas que permitem um carácter objectivo?

1ª- com verbo o presente do indicativo
2ª Na passiva, lassen, acontece, deixar o mundo acontecer. Há um agente exrínseco a mim.
3ª o mundo que Witt descreve é inabitável pelo ser humano.

2.0121 -- Quando posso pensar o objecto de mim para mim numa conexão de estados de coisas, então eu não sou capaz de o pensar fora da possibilidade desta conexão.
É utilizada a estrutura: Ich kann denken / Ich kann nicht denken


2.0123 -- Se eu conheço umobjecto então eu tomo conhecimento da sua possibilidade de aparecer em estados de coisas. Sublinhar a natureza das acções que Witt emprega mas não tematiza. O Ich que está a ser tido em conta consegue tomar conhecimento e pensar

2.01231 -- Muss ich kennen --tenho de conhecer as qualidades externas, mas também tenho de conhecer todas as qualidades internas. Não significa que a cadeira está visada no conjunto da sala de aula, mas por todas as forma de eu visar é pensado de todas as formas que eu a posso visar, mantendo o referente. E sou eu o agente que visa a cadeira. As qualidades internas não são apenas as pernas e etc, mas as características que marcam a forma como se visa a cadeira: sentar-se na cadeira, levantar-se da cadeira, estar vaga...

2.013 Cada coisa existe como que num espaço de estados de coisas possíveis. nexos possíveis de contextos semânticos em que a cadeira aparece: o conjunto de enunciados que envolve a cadeira, esses enunciados na voz activa e passiva, como os humanos se podem relacionar com as cadeiras. Eu consigo pensar este espaço vazio, mas posso pensar o estado de coisas (utiliza o Ich kann denken). Nós podemos pensar a sala de aula vazia, sem cadeiras nem mesas, mas mesmo nesse caso ela é suscpetível de ser pensada como sala de aula.
AS forma de ocorrência do Eu pensam sempre um konnen, relação entre possibilidade e faculdade -- o que pode ser oferecido e a forma de eu (ich) actuar sobre isso. Ex. "Kann ich mir leer denken." Ser capaz de, poder. A minha relação com cadeiras corresponde a um conhecimento de uma possibilidade de intervenção e o reconhecimento de uma característica objectiva da cadeira que é os ser susceptível de eu me sentar.

02331 Kann ich es nicht hervorheben -- Não consigo salientar uma coisa. Ex. Quando tenho fome passo a ver os letreiros que mostram comida, mas às 9 da manhã eu não vejo esses mesmos anúncios, apesar de eles estarem lá. A forma peculiar da coisas se salientarem corresponde a qualquer coisa como as coisas virem até nós, elas saem de onde estão e vêem até à vista. O barulho das obras pode ser insuportável, mas o mesmo volume pode ser completamente ignorado se eu estiver concentrado. O mundo está a ser descrito como forma de coisas, estados de coisas, planos de coisas que se destacam de uma totalidade "em bruto" do mundo. Podemos desenhar nas nuvens, podemos plastificar o mundo. O mundo pode soltar-se daquilo em que se encontra habitualmente e destacar-se. Ele tenta uma descrição da forma como  o mundo nos acontece: qualquer conteúdo que se esteja a visar é vivido de forma completamente diferente, mesmo que exista um regra de tradução.

3.12 O sinal proposicional -- Ich nenne "eu chamo" a esse sinal, sinal proposicional

3.221 Eu apenas posso falar deles, não consigo expressá-los (Ich kann nur von ihnen sprechen, sie aussprechen kann ich nicht). O mundo em que o eu de witt habita tem expressar, falar etc.

3.318 Eu compreendo (ich fasse...auf)

4.021 Ich kenne -- eu sei, eu conheço, tenho notícia de um quadrod a realidade quando eu compreendo (ich verstehe) uma proposição

4.063 -

4.122 -Eu introduzo estas expressões (Ich führe.. ein)

4.24  --Eu interpreto (ich deute)

4.241 -- so drücke ich dies aus, indem ich zwischen beide das Zeichen »=« setze..

4.243 -- É impossível que eu não saiba, é impossível que eu não as consiga traduzir.

4.461 -- Kann

4.51

5.02 -- Ich erkenne e wenn ich mich nicht irre.

...(estas ocorrências estão todas no hand out da 7ºa sessão)


A partir de 5.5571 entra a parte complicada de analisar. Até aqui fez-se uma saturação das ocorrêcias do ich com os verbos utilizados. Todos estes verbos pedem predicativo do sujeito (conhecer, nomear, falar de, expressar). Ou seja, oq eu está a ser descrito é um mundo sem ponto de vista. É importante fazer a análise de quais são os predicativos de sujeito que estão a ser utilizados. O único eu vejo que ocorre é um eu vejo a partir de um ângulo. A utopia do olho: o olho não está em lado nenhum -- análise que permite a eliminação do ângulo, anulação da perspectiva. É elidido porque se descreve um eu que é não quer nada comigo: acções linguísticas de consituição não de referente, mas de sentido. Se aplicássemos apenas os infinitivos destes verbos modais aos complementos directos da nossa vida percebemos que isto torna impossível fazer alguma coisa deles.

Este conjunto de notas dá a chave para perceber em que medida o solipsismo é uma verdade- O que o solipsismo visa é absolutamente correcto, mas não permite que seja dito, apenas mostra-se. Não conseguimos dizer o solipsismo, ele mostra-se.  O facto de o mundo ser o meu mundo monstra-se (não sou eu que vejo, isso mostra-se). Este solipsismo mostra-se, não sou eu que o consigo ver -- o solipsismo é tão mundano como o próprio mundo, e o mundo é o solispsismo.

5.621 O mundo e a vida são um. É por isso que solipsismo não é uma invenção cartesiana -- é o que acontece quando estamos à espera da mãe e ela não vem. Nós convivemos desde sempre com essas manifestações complexas de solispsismo porque o mundo e a vida são um.

5.63 - Ich bin meine Welt (der Mikrokosmos).

Os verbos são sempre de acções de expressão de si -- e nas formas mais desviadas são sinónimos de dizer o mesmo. O mundo é visado sempre por mim a ser. O que está a ser levado a cabo no Tractatus é a anulação do princípio de individuação. Um ponto de vista que vem de lado nenhum e descreve o que se destaca, o que aparece.

5.631 -- Ex. do livro.

5.632 -- limite do mundo -- isolamento do sujeito, como limite. Em vez de seguir a linha do idealismo alemão, tenta uma neutralização do  carácter estrito dos limites do meu mundo, eu ganho um referente sem sentido, mas que pode ser substituído por qualquer outro. Na perspectiva da radicalização da linguagem há uma possibilidade de instantiação, a minha mãe é completamente individual, mas pode ser substituido por um qualquer que fala de mãe, no entanto o sentido e conteúdo da prposição está a ser esvaziado!corresponde a um mundo esvaziado, esventrado, sem possibilidade por isso de ser habitado, porque mata qualquer tipo de carácter pessoal.

5.633 -- onde raio no mundo está um sujeito metafísico? exemplo do olho. Não se vê o olho a ver, nem há nada no campo de visão que permita perceber que o campo de visão é visto por um olho.



Agora, importa considerar qual é a descrição do comportamento do mundo. Como é que o mundo se comporta? Porque toda a análise vem no sentido de esvaziar o ponto de vista e permitir evitar o relativismo.
Agora há que compreender como é que o mundo aparece a um eu muito low profile.

Aparece ao equivalente à voz passiva sintética (Ex. Vendem-se casas)
Ex. es lässt sich -- As casas são vendidas por alguém, elas não se vendem, mas são vendidas.
No alemão tem o aspecto de por-se a jeito para ser agido pelo agente da passiva. Witt não enuncia nenhum agente da passiva -- (sendo esta a única forma de ser coerente com o que está a dizer).

2.0201 Cada enunciado deixa-se desmembrar... O sujeito é cada enunciado, mas não pode ser de todo determinado quem é o sujeito -- é uma personificação de qualquer coisa como um enunciado. Não é dito quem é o agente da passiva.

3.314 -- Toda a variável deixa-se captar...não se sabe quem capta, mas é ela que se deixa captar.

4.002 -- Mesma coisa.

4.116 -- Mesma coisa: não há agente a pensar isto, não há agente a expressar.

(Continuação dos exemplos desta estrutura passiva. Estas passagens estão no hand out)

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