quarta-feira, 28 de março de 2012

CONTEMPORÂNEA, 9ª sessão (Tomaz Fidalgo)

9ª aula Filosofia Contemporânea.

Distinção entre Sinn e Bedeutung

Sinn - sentido

Bedeutung - denotação, significado, referente.

Bedeutung aparece a partir de Fregue:

Ex.
Figura com três lado
Figura com três ângulos.

Tem sentidos diferentes mas o mesmo referente [Bedeutung] -- não podem ser substituídos porque não se pode substituir "lado" por "ângulo", mas referem o mesmo X.



Investigações filosóficas:
analisar as perspectivas que foram ignoradas por Frege, que estava limitado pela determinação de verdade por determinação do referente -- os enunciados da Alice no País das Maravilhas pode ter sentido, mas não se pode fazer uma correspondência entre eles e a realidade, e por isso não podem ser verdadeiros.


O que é que constitui uma Bedeutung losigkeit (?)-- uma ausência de referente. Como é que o sentido se relaciona com o referente? e com a ausência de referente? Como esgotar todas as possibilidade de relação entre Sinn e Bedeutung?
É aqui que está dada a chave para a distinção entre Verstehen e nicht Verstehen.  Qual é a natureza da nossa relação com o sentido e a referência? Qual é a nossa relação com a compreensão? Qual é a compreensão da própria compreensão? Qual a nossa adesão à compreensão?
Isto está relacionado com o "ser levado por" (gefürt werden), fenómeno de acompanhamento que permite entender e ser levado com as coisas.
Wittgenstein tem em vista a compreensão da "Ahah experience" -- o que é que faz com que eu passe a entender algo? Uma expressão intrínseca do "estar a ser" na compreensão do que me envolve. O estar a ser levado(gefürt werden) corresponde a essa óptica irremediavelmente resolutiva do nosso acesso ao mundo -- a forma complexa como a nossa compreensão do sentido tem a ver com a sequência, desse ser no tempo, do estar a ser levado no tempo. Em causa está a articulação do modo como somos levados pela leitura de um livro, somos levados ao assistir a um filme, como planeamos uma tarde, etc., ou seja, como compreendemos o fluxo do tempo (ex. início do ano lectivo e o final do mesmo ano).


583. Tu falas como se aquilo que se passa neste instante não tivesse um referente. O que é que quer dizer uma sensação profunda? O que é que quer dizer um referente? Poderia uma pessoa ter uma sensação do amor durante um segundo?
O que acontece neste instante tem um referente. A envolvência dá-lhe importância. E a palavras esperança ganha significado no contexto da vida humana. O sorriso só ganha sentido no rosto.


“Tem algum sentido perguntar de onde é que tu sabes que é isso em que crês. E a resposta "eu reconhecê-lo-ei pela introspeção", poder-se-ia dar nalguns casos, mas na maioria dos casos não.”
A determinação do que acontece jetzt corresponde a uma absolutização que cristaliza um momento no tempo. O que a perspectiva teórica faz é neutralizar a instantaneidade de tal forma que o que era naquele momento passa a ser para sempre. Há uma incomensurabilidade entre o momento da crise afectiva e depois as consequências.
 Mas as coisas têm impacto e para terem impacto precisam de zona de aceleração. O que nos deixa num determinado estado é essa sensação -- a determinação desses estados corresponde a formas de agressão, de invasão. Aquilo que estamos a identificar como jetzt pode ser o momento de compreensão de um axioma (a ahah experience), mas esse momento de impacto é datado e ficou para sempre. Fenómenos que se dão a determinada altura, mas que marcam alterações do modo de vida, esquecimentos, novidades na vida, mas que nunca vêm numa estrutura de toca e foge; pelo contrário, o referente vem sempre envolvido em sentido, ao ponto de não haver referente sem sentido, ou sequer de não haver sequer referente. De tal modo que cada impacto marca para o futuro tudo o que se vai viver: tudo o que vivemos faz moça para a frente -- na vida estamos sempre numa situação pós traumática, e nós temos é de nos habituar a essa nova presença em nós. A perspectiva de Wittgenstein é homeopática, como nos estoicos e em Nietzsche -- a filosofia como homeopatia.
Pensar que a nossa relação com o que nos envolve é sem referente: Deus é sem referente, o amor é sem referente... O que está em causa é o carácter sem referencial do sentido da vida que estamos a levar. O que está permanentemente em causa é a pergunta pelo sentido da atmosfera em que estamos envolvidos. Até porque na maioria da vida nós estamos a ir nas horas -- a pergunta é pela natureza deste ir indo nas horas, ou seja, de este ir indo na vida. De tal modo que cada impacto tem uma vivência absolutamente esquizofrénica -- tem uma vivência primordial e depois uma retrospectiva em que tento reconstituir esse primeiro impacto, e vivo nessa recapitulação e na perpetuação de um primeiro impacto que já é diferente.
A ideia de situação e de atmosfera está a tentar descrever o ambiente em que vivemos: vivemos como se estivéssemos envoltos numa bolha de sentido. de tal modo que as determinações fundamentais da vida podem ser todas da minha cabeça: Deus, o amor, a amizade, etc. Ou seja, elas podem estar só na minha cabeça, só fazem sentido na minha cabeça e na minha vida, não têm nenhuma referência. de tal modo que a frase "eu amo-te" lida por pessoas diferentes pode  ter sentidos diferentes (e quase certamente tem), e não tem nenhum referente. O referente está sempre contextualizado num sentido e é a experiência está sempre contextualizado num sentido e só existe porque existe um sentido que permite essa experiência.

89. Nós estamos aqui com estas reflexões no lugar em que o problema se põe, em que medida o lógica é sublime? Porquanto pareceria que lhe inere uma profundidade específica, uma Bedeutung geral. Ela subjazeria no fundo de todas as ciências, porquanto a consideração lógica considera a essência das coisas, ela pretende ver as coisas sobre o seu fundamento, e ela não deve preocupar-se com o ser assim ou assado do facto. Ela jorra não de um interesse pelo facto, nem pela necessidade de captar conexões causais, mas de compreender num esforço o fundamento/essência de tudo o que é conforme com a experiência

Wittgenstein: Nós não queremos aprender nada de novo, queremos apenas compreender qualquer coisa que já está aberta à frente dos nossos olhos.
(cita agostinho e a famosa frase do tempo -- "Quid est ergo tempus? Si nemo ex me quaeret,scio; si quaerenti explicare velim,nescio;fidenter tamen dico, scire me.")

As coisas surgem-nos na sua superfície, não apenas por vermos os lados que estão à vista (que se perdem se virmos de outro sítio), mas o que está em causa é a forma complexa da relação entre Grund e surgimento.
Uma coisa não é nunca um acontecimento isolado. A forma como referimos as coisas não tem uma forma de sentido que reduz as coisas à sua apresentação -- há uma metamorfose da minha relação com o referente -- entre mim  e as coisas há um sentido (= o espaço que está entre mim e o referente é o espaço lógico) -- e esse referente é posto por mim. Qual é a natureza da minha relação com o sentido que altera a minha relação com o referente consoante eu estou numa aula de geometria ou na vida quotidiana? O que está a articular a sala de aula? Ex. Viver numa cidade fantasma; ou o quarto da infância -- o meu quarto da infância não é o mesmo que outra pessoa ocupa agora, mesmo que esteja no "mesmo" espaço. Em última análise há uma impermeabilização do sentido da minha vida para outra pessoa qualquer, porque o sentido da vida das pessoas que determinam o sentido é diferente de uns para outros -- há tantas cidades de Lisboa quantos habitantes de Lisboa.
A importância do sentido é tal que para compreender uma coisa eu tenho sempre de contextualizá-la. Não consigo perceber uma coisa fora do contexto. Funciona por Zoom -- qual é a natureza mínima da unidade de conteúdo do contexto? O quarto está organizado no contexto da casa, e a casa do prédio, e o prédio da rua e a rua da cidade.
Do mesmo modo, o que dá contexto à nossa vida é a expectativa e a sequência. O que dá nexo e dá a conexão do sentido não é a sequência de momentos, mas o facto de o a priori ser a sequência -- nós estamos a ser levados sequencialmente a priori. A compreensão é possível, o sentido é possível por a vivência em sequência ser a priori;  não é o sentido que dá a sequência, mas a sequência que permite o sentido. Mas este a priori implica que a vida só se pode dar num contexto de sentido -- há uma petição de sentido intrínseca á vida, que é constituída pela nossa vivência a priori no tempo. A própria vida é dada na expectativa. De tal modo que o único acontecimento não anulável é o da lucidez -- posso não compreender o sentido, mas a vida é sempre dada pelo acontecimento de lucidez (a ψυχῆ é a vida). De tal modo que o que dá sentido e contexto é a sequência das horas ou seja, o que impõe a necessidade de sentido é a temporalidade. Assim, a vida é a totalidade do tempo e por isso a totalidade das coisas . O Problema é que o tempo não é visto. E é o fenómeno do estar a ser levado que permite pôr fora de mim o sentido -- faz parecer que é a vida que dá e que tira o sentido.

90. É como se nós tivéssemos de ver transparentemente as aparições. Mas a investigação não se dirige às aparições, mas às possibilidade das aparições. Ou seja, a articulação do seu sentido, a sua condição de possibilidade. Uma pessoa é uma aparição, e essa aparição pode alterar-se completamente (se eu me apaixonar a aparição da rapariga muda completamente).
Besinnen ; Besinnung. Tem Sinn na raiz -- significa qualquer coisa como dar sentido. Pode ser traduzido por meditatio -- uma forma de cuidado que faz um determinado pensamento (ex. da expressão "cuido que sim"). Na enunciação da aparição é o sentido que constitui as próprias coisas -- parece que estamos perante as próprias coisas quando estamos perante o espaço lógico (um espaço lógico que não tem nada a ver com a ideia de lógica do circulo de Viena) e que visa a estrutura antiga da oratio obliqua -- nós estamos sempre a citar-nos quando falamos. O facto de eu estar a falar pressupõe que sou eu que falo.
O ponto que importa focar prende-se com a ideia fundamental de que o sentido tem a sua origem no carácter absolutamente singular de cada um de nós. Nós executamos o sentido da própria vida. O que fazemos, fazemos por o ter compreendido. todos os infinitivos estão montados no irmos das horas que constitui a nossa vida -- a conexão é efectivamente o a priori, e não se trata de encontrar o nexo entre o agora e depois, mas na compreensão que o agora é já uma abstracção, o agora não existe a não ser como abstracção de uma sequência.

Uma agenda só faz sentido porque é nossa vida que está a em jogo -- o sentido é o a priori, a sequência é o a priori. É isto que agostinho refere de forma brilhante nas confissões.
Ao reduzir a Bedeutung ao próprio sentido, ou melhor, a possibilidade de neutralizar ao referente e a significação, e de a significação permite anular os contrastes entre sonho e realidade -- é o mesmo problema do Theeteto ( oposição entre ὑπαρ e ὄναρ)Se o fenómeno de sentido é totalitário, então o acontecimento de sentido é privado e dado num meinen (visar) e tem contornos absolutamente onírico.

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