sábado, 10 de março de 2012

Fil Antiga, 3ª sessão, 5 de Março (Rita Couto)


Aula 3 –
05.Março.2012 (2ª) –
Rita Couto
ANIMUS

A compreensão da amplitude do fenómeno da lucidez humana, presente em Tácito, é possível
não apenas pela análise dos recursos estilísticos usados, mas também da extensão desse
mesmo fenómeno.

O Animus abrange por um lado a noção de 1. Anima, pensado como algo que actua
directamente sobre o corpo de cada um e que o habita, sendo responsável pela sua vitalidade
e desse mesmo 2. Corpus.

Múltiplas referências/compreensões de animus (Lewis&Short)1

1 “.n.mus
, i, m. a Graeco-Italic form of ...... = wind (as ego, lego, of..., ....); cf. Sanscr.
an = to breathe, anas = breath, anilas = wind; Goth. uz-ana = exspiro; Erse, anal = breath;
Germ. Unst = a storm (so, sometimes); but Curt. does not extend the connection to.Ω, .... =
to blow; a modification of animus—by making which the Romans took a step in advance of the
Greeks, who used . .... for both these ideas—is anima, which has the physical meaning
of......, so that Cic. was theoretically right, but historically wrong, when he said, ipse animus
ab anim. dictus est, Tusc. 1, 9, 19;after the same analogy we have from .... = to breathe,
blow,.... = breath, life, soul; fromπ... = to breathe, π..... = air, breath, life, in class.
Greek, and = spirit, a spiritual being, in Hellenistic Greek; from spiro = to breathe, blow, spiritus
= breath, breeze, energy, high spirit, andpoet. and post-Aug. = soul, mind; the Engl. ghost =
Germ. Geist may be comp. with Germ. giessen and..., to pour, and for this interchange of the
ideas of gases and liquids, cf. Sol. 22: insula adspiratur freto Gallico, is flowed upon, washed, by
the Gallic Strait;the Sanscr. .tman = breath, soul, with which comp. ..... = breath; Germ.
Odem = breath, and Athem = breath, soul, with which group Curt. connects ..., ....; the
Heb. = breath, life, soul; and = breath, wind, life, spirit, soul or mind.

I. In a general sense, the rational soul in man (in opp. to the body,corpus, and to the physical
life,anima), . ....: (…)II.
In a more restricted sense, the mind as thinking, feeling, willing,the intellect, the sensibility,
and the will, acc. to the almost universally received division of the mental powers since the
time of Kant (Diog. Laert. 8, 30, says that Pythagoras divided . .... into ....., .. ......,
and . .....; and that man had . .... and . .....in common with other animals, but he
alone had .. ....... Here ..... and . ..... must denote the understanding and the
sensibility, and .. ......, the reason. Plutarch de Placit. 4, 21, says that the Stoics called the
supreme faculty of the mind (.. ............. .....) . ........, reason.Cic. sometimes
speaks of a twofold division; as, Est animus in partes tributus duas, quarum altera rationis est
particeps, altera expers (i. e. .. .......... and .. ......of Plato; cf. Tert. Anim. 16), i. e. the
reason or intellect and the sensibility, Tusc. 2, 21, 47; so id. Off. 1, 28, 101; 1, 36, 132; id. Tusc
4, 5, 10; and again of a threefold; as, Plato triplicem finxit animum, cujus principatum, id est
rationem in capite sicut in arce posuit, et duas partes (the two other parts) ei parere voluit,
iram et cupiditatem, quas locis disclusit; iram in pectore, cupiditatem subter praecordia
locavit, i. e. the reason or intellect, and the sensibility here resolved into desire and aversion, id.
ib. 1, 10, 20; so id. Ac. 2, 39, 124. The will, . ........, voluntas,arbitrium, seems to have been
sometimes merged in the sensibility, . ....., animus,animi, sensus, and sometimes identified
with the intellect orreason, . ...., . ........, mens,ratio).”
In, “A Latin Dictionary. Founded on Andrews' edition of Freund's Latin dictionary. revised, enlarged, and in great
part rewritten by. Charlton T. Lewis, Ph.D. and. Charles Short, LL.D. Oxford. Clarendon Press. 1879.”
<http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=animus&fromdoc=Perseus%3Atext%3A1999.04.0059>

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A) Sopro
.
A ideia de psiqué: sopro vital, algo que refresca ou aquece;
.
Psiqué vs thumós – entidade transpessoal (excede ideia de geração); ou como sopro
vital/espírito;
.
Entidade peculiar de cada um (feito; carácter; alma).

B) Âmbito (in)circunscrito
.
Ambiguidade entre um acontecimento individual e concreto e o espírito do tempo
(annales).
.
Independentemente do âmbito da circunscrição há a compreensão de que o humano
habita numa esfera desta natureza.

C) Mens/ mentis:
.
A compreensão de mente na antiguidade latina não se circunscreve a um limite
interior, mas é tida como algo que se relaciona com estímulos exteriores, que entram
ou sai no e do corpo humano.
.
Pensava-se numa entidade transcendente – identificação de uma mente comum a
todos.
.
A tentativa de “entrar na cabeça dos outros” corresponde a uma descrição hidráulica,
metereológica, de conteúdos objectivos e compartimentados, acidentais e que se
alteram, devido a haver uma abertura a este fenómeno.

D) Fenómeno individual/transversal
.
Na descrição da Germania por Tácito compreende-se que a maneira de ser de cada
povo espelha as características do local geográfico habitado (comparação com mapa
mental).
.
Mente como única entidade vista a partir de várias perspectivas.
.
Tac. G. 29:“quem nobisanimum, quas mentes imprecentur,” – há uma forma de nos
relacionarmos com as nossas mentes, como se lidássemos com outras pessoas – visa
não só a própria pessoa.“Imprectur” – estados susceptíveis de alteração)
.
“andsometimes pleon. without suchdistinction: in primis reginaquietum Accipit in Teuc
rosanimum mentemque benignam,” a quiet mind and kindly heart, Verg. A. 1, 304

E) Fluxo
.
Importa compreender a ideia de complexo de relações entre estados, aparentemente
contraditórios, que se vão sucedendo num mesmo espaço. Por exemplo, a
possibilidade de num momento sentir dor e noutro dar conta como o “espírito se
engrandeceu” ou diminuiu.
.
Existência de metáforas que tomam a ideia de mente confundida com a ideia de
coração: ter a cabeça ou o coração frio/quente (idêntico ao pensamento semita).
Animus pensado como alterador térmico, que influencia o modo como nos
relacionamos uns com os outros e com nós próprios.
.
Animus como algo que se eclipsa e que regressa: ser humano visto como marioneta
insuflável que se enche ou esvazia do animus (ideia de “apanhar ar”).
.
Dar uma nova força/movimento rápido/ sentido do discurso

F) Relação animus/corpus
.
Afectação do corpo no animus, sendo ele próprio também animus, actuante e
experienciado.
.
Relação com aumento/perda de vitalidade ao longo do dia, da semana, etc.

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.
Compreensão de que o corpo dá indicações –
corpo como limite da vida e como o

âmbito da nossa perspectiva.
.
Corpo com entidade possível de ser usada, mas confiscável.
.
Ideia de agravamento do animus pelo corpus e vice versa.
.
Fixação da perspectiva que descreve os vários animus, de cada um, como se fossem

partículas do sopro divino, distribuído em lotes temporais, correspondentes à
extensão da duração vida. Cedência do ânimo pelos deuses (Cícero).
.
Animus corpóreo/ Corpo animado

D) Susceptibilidade face à interpretação

.
Nem animus ou anima correspondem a pontos fixos: na antiguidade é pensado como
algo que excede os limites do corpo (ver para além do próprio corpo ou corpo visto
como além de si mesmo) –
questão da perspectiva, opacidade/ transparência,
horizonte de interpretação;

.
Dimensão dinâmica e transcendente do animus, que se altera e renova
continuamente;

.
Uma identidade/personificação do animus de todos os animi, cuja proveniência deriva
de uma repetição metereológica que extravasa cada entidade e as entidades enquanto
um todo.

LEITURA E INTERPRETAÇÃO -ANAIS DE TÁCITO

Contexto: Rebelião das legiões situadas na Germania. Tibério envia o filho Druso com uma
missiva, com objectivo aparentemente de prometer resposta às revindicações; por outro lado,
as tropas dão conta de que Tibério procura ganhar tempo, face a uma multidão à beira do
tumulto.

“stabat Drusus silentium manu poscens. illi quoties oculos admultitudinem rettulerant, vocibus
truculentis strepere, rursum viso Caesare trepidare”

.
São os olhos que provocam barulho; semblante de Druso que os faz tremer;

“murmur incertum, atrox clamor et repentequies; diversis animorum motibus pavebant
terrebantque. tandem interrupto tumultu litteras patrisrecitat”

.
Murmúrio que descreve um fenómeno acústico, mas que não se reduz a isso –
qualificado, incerto quanto às suas consequências.
.
Descrição de natureza acústica, que se relaciona com uma psicologia de massas,
exteriorizada.
.
Animo tido não como um acontecimento hermético, fechado sobre cada um, mas
antes transversal, possível de ser transmitido.

.
Descrição pelas emoções que vão em diversos sentidos dos animi –
horror/medo. As
expressões murmúrio/barulho/silêncio são manifestações acústicas compreendidas
como alterações dos animus. Animus susceptível de se alterar.

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“Nec minor Germanis animus”

.
Descrição da maneira de ser dos germânicos, relacionada com a coragem;
.
Animus possível de ser grande/pequeno, de se expandir/retrair.
.
Associação do animus a um todo, mas delimitado.


II.80

Contexto: Uma descrição de Piso, grande inimigo de Germânico, filho de Tibério, irmão de
Druso. Exército sem ânimo.

“sed non animus, non spes, ne tela quidem nisi agrestiaa ut subitum in usum properata”

.
Descrição do animus como a forma de uma relação, dadas as circunstâncias de um
combate, que permite a identificação do que está dado no presente, através da
medição das forças. Existe uma compreensão colectiva da possibilidade de sucesso –
haver ou não coragem em relação com possibilidade de haver ou não perspectiva de
sucesso/futuro.

III.3

Contexto: Funeral de Germânico(?). Procura-se descrever o motivo de Augusta (mãe de
Tibério) estar ausente, através da observação dos fenómenos. Relação do animus com o luto e
com o semblante.

.
A ausência no funeral ou pelo medo de mostrar sentimentos em público ou “para não
se deixarem ler pelos olhos dos outros no seu rosto, perscrutando a sua falsidade” –
ideia de que a mãe/filho são os causadores da destruição de Germânico.

.
Susceptibilidade do animus ser lido, através das manifestações fisionómicas.

“victus luctu animus magnitudinem mali perferre visu non toleravit”

.
Possibilidade do animus ser vencido, subjugado, exposto ao luto.
.
Ideia de uma manipulação do animus, como algo que é o sujeito agente da passiva.


“facilius crediderim Tiberio et Augusta, quidomo non excedebant, cohibitam,ut par maeror et
matris exemplo avia quoque et patruus atti neri viderentur.”

.
Para “parecer” – interpretação da fisionomia do poder, mas também da possibilidade
da mudança do animus por um agente da passiva, ou pela presença/ausência de
alguém.

.
Compreensão de que o animus é sempre o motivo de uma tomada de atitude ou
acção.

III.54
atqui ne corporis quidem morbos veteres etdiu auctos nisi per dura et asperacoerceas:
corruptus simul et corruptor, aeger et flagrans animus haud levioribus remediis restinguendus
est quam libidinibus ardescit.

.
“Tal como não se consegue conter doenças antigas e há muito tempo senão por
medidas duras, do mesmo modo que um animus corrompido e corruptor, ardente em

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febre, não pode ser contido por remédios mais leves do que os desejos com que está

abrasado”

.
Compreensão das estruturas do animus/corpus como susceptíveis de alteração e de
cura/corrupção;
.
Animus descrito como tão real quanto o corpo, passível de corromper e de ser
corrumpido;

tot a maioribus repertae leges, tot quasdivus Augustus tulit, illae oblivione, hae, quod flagitio
siusest, contemptu abolitaesecuriorem luxum fecere

.
Relação do animus/luxus como a do corpus/doença
.
Tensão entre desejo/ proibição


at si prohibita impune transcenderis, nequemetus ultra neque pudor est. (…)
hanc, patres
conscripti, curam sustinet princeps; haec omissa funditus rem publicam trahet. reliquis intra
animum medendum est: nos pudor,pauperes necessitas, divites satiasin melius mutet.

.
A ausência de limites, impostos pelas leis conduz a inexistência de contenção através
do medo/vergonha. Risco de destruição da coisa pública, devido à exposição aos
fenómenos do animus.

.
Vergonha como método de cura, como limite, que altera o animus.

Corpus illi laborum tolerans, animus audax

.
“animus audax”, descrito como criminoso, desejo de ascensão;
.
Descrição do animus de Sejano como aquilo que permite compreender todas as suas
acções, como a fonte/motivo/causa da vergonha fingida;



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