segunda-feira, 24 de outubro de 2011

PhD: Definições. Protocolo da 3ª sessão, 22/10/11. Sophista


  1. Platão, Sophista, 218b5-c5: Análise do referente, denotação de um nome. A necessidade de transitar para uma análise “lógica”. A análise lógica lida com a própria coisa. 
218b5-c5: “νῦν γὰρ δὴ σύ τε κἀγὼ τούτου πέρι τοὔνομα μόνον ἔχομεν κοινῇ, τὸ δὲ ἔργον ἐφ’ ᾧ καλοῦμεν ἑκάτερος τάχ’ ἂν ἰδίᾳ παρ’ ἡμῖν αὐτοῖς ἔχοιμεν· δεῖ δὲ ἀεὶ παντὸς πέρι τὸ πρᾶγμα αὐτὸ μᾶλλον διὰ λόγων ἢ τοὔνομα μόνον συνωμολογῆσθαι χωρὶς λόγου. (Ora sucede, com efeito, que tu e eu, em comum, κοινῇ, acerca disso apenas dispomos do nome, mas a respeito da ‘função’, ἔργον, em vista da qual, ἐφ’ ᾧ, cada um de nós chama a coisa da mesma maneira temos apenas um representação pessoal e privada. É portanto sempre necessário a respeito de tudo que nos ponhamos de acordo a respeito da própria coisa em si, τὸ πρᾶγμα αὐτό, mais através de explicações do seu sentido, διὰ λόγων, do que apenas através do nome separado, χωρίς, da explicação)”.
O passo aponta para dois níveis de compreensão do que algo é. Um, é saber como se chama. Outro, é saber o que é. Ser uma coisa não é ter um nome. O que algo é é-o a ser, é-o sendo.  Alguém ser denominado ‘sofista‘ não implica saber-se como é, qual a sua maneira de ser, nem o que faz. Os exemplos apresentados são do domínio técnico, natural, animal, por serem mais facilmente compreendidos. Mas podemos perceber a diferença em todas as coisas. 
“A calçada” pode ser o nome que se dá a um tipo de pavimento, o trabalho do calceteiro, o ajustamento de uma pedra a outra, partindo aqui e ali, por forma a que encaixem umas nas outras, todas assentem na terra, no espaço entre as paredes dos prédios e a estrada. Mas “a calçada” é um caminho para pedestres. Ser caminho para pedestres implica uma interpretação altamente sofisticada do que é 'ser uma calçada'. Se eu saltar da estrada a pé juntos para a calçada, nem por isso ela me leva para onde quero ir. Eu tenho de andar, tenho de me manter nela, ainda que aos ziguezagues: ir numa direcção e orientado por uma meta, etc., etc.. 
A função da calçada e a minha compreensão dela passa pela compreensão da sua utilidade, da sua manutenção, do modo como sei fazer uso dela. O mesmo se passa com o nome ‘pedra da calçada’. Uma coisa é eu perceber que se trata de uma pedra de calcário e basalto. Outra coisa é perceber que posso tirar partido do sistema de 'diaclases' do calcário para, com o auxílio de um martelo, fazer pequenos ajustes na forma da pedra. Ou seja, não há uma mina de calcário com pedras de forma cúbica do tamanho que queremos como as que vemos calcetar os nossos passeios. Mas mesmo que houvesse, a ‘pedra’ é pedra ‘da’ calçada. Não é única, existe com outras com as quais se encontra numa disposição de mosáico, é para ser pisada, é para ser caminhada. 'O ser pedra da calçada' é dado pelo ser pedra ‘da’ calçada, por ser revestimento do pavimento, por ser passeio, para andar, caminhar, passear, ir por lá…de onde… aonde…. A função não está na pedra. A função não é compreendida pelo seu nome, mas na “pedridade” da pedra, no modo de ser não apenas pedra, mas pedra da calçada, no “pedrar”, no “pedrando”, sit uenia uerbi. 
Cada coisa tem assim a presença de um ἔργον, uma acção ou actividade que pode ser accionada e desaccionada, “ligada e desligada”, “posta em (e fora de) funcionamento, provisória ou definitivamente. O ἐφ’ ᾧ, o “em vista de…”, o “a respeito de…”, o “com a referência ao qual…” exprime o sentido peculiar da presença de uma coisa, o que ela apresenta ou presenteia, o que dá de si, mesmo que não esteja à mostra. Nós conhecemos uma data de coisas pela rama. De muitas, nem os nomes. Conhecer uma coisa, compreender uma situação, perceber exactamente o que alguém nos está a dizer significa 'ter passado por ela', 'ter lidado com ela', 'tê-la visto', 'ter lá estado com ela e no meio dela', 'tê-la feito'. 


Tal não quer dizer que, para sabermos de qualquer coisa, para nos tornarmos entendidos numa dada matéria, percebermos de um assunto, conhecermos alguém, algo ou uma situação:— tenhamos de fazer a experiência disso. Quer, antes, dizer que compreendemos uma coisa, quando compreendemos o sentido que faz dessa coisa ser a coisa que é, de que é feita, se existe em estado natural ou se é o resultado de uma arte e ofício, qual a sua função, a sua utilidade, ou apenas como é.
Podemos obviamente saber exactamente o que uma coisa é, ‘estarmos carecas de a saber’, ‘termos o nome mesmo debaixo da língua’, e não conseguir nomeá-la, chamá-la pelo seu nome. Nem sempre conseguimos “chamar os bois pelos nomes” ou "pôr os pontos nos ii.”
Assim, tudo o que pode ser nomeado apresenta-se, precisamente por ser nomeado, como uma coisa absolvida das outras, recortada das outras, como se fosse um 'absoluto'. ‘Pedras de calcário’ são, contudo, diferentes de ‘pedras da calçada’. ‘Pez natural’ é diferente de ‘alcatrão’. ‘Terra’ é diferente de ‘terra batida’. Não apenas tudo é em contexto. Tudo revela a presença de um sentido que excede a compreensão natural do que uma coisa é e do seu nome. O nome pode revelar a essência de uma coisa, mas implica passar pela estilização do λόγος. 
  1. 219b4-5: A determinação da τέχνη em geral como ποιεῖν. Decisivo não apenas para compreender o sentido do ser que faz de uma determinada coisa a coisa específica que ela é, ao seu modo de ser determinado. Permite compreender também a forma da produção do próprio sentido como produção da coisa portadora desse sentido. Permite articulá-lo. Permite, por assim dizer, ressuscitar o sentido de uma coisa e, assim, a coisa com esse sentido. (Cf.: 221c7-b2).
219b4-5: “Πᾶν ὅπερ ἂν μὴ πρότερόν τις ὂν ὕστερον εἰς οὐσίαν ἄγῃ, τὸν μὲν ἄγοντα ποιεῖν, τὸ δὲ ἀγόμενον ποιεῖσθαί πού φαμεν.” (Assim: pela acção de uma perícia o perito numa determinada área faz que algo que de todo em todo não existia primeiramente traga ao ser o algo determinado que é, o que traz ao ser é o elemento activo, produtor, o que faz, o que é trazido ao ser é o elemento que passa por esse processo, é produzido, é feito). A tradução é com perífrase. 


Assim, pavimentar, calcetar, alcatroar, implicam uma compreensão do ser calcário e pez natural de tal forma que, por acção do perito, têm sentidos completamente diferentes ora quando existem em bruto, no estado natural, ora quando são articulados pela compreensão do seu sentido. Assim, também o λόγος e a “lógica” (neste sentido abrangente) corresponde à possibilidade de, não apenas nomear-se, catalogar-se, coisas, mas também nomes, nomes das coisas, nomes de nomes, e assim de compreender o sentido. 


Explicar é arrancar o inexplicável à sua condição e torná-lo explicável e no limite explicado. Compreender é arrancar o incompreensível do estado em que está e torná-lo compreensível e no limite compreendido. Quem compreende explica o sentido do que compreende. Quem não explica não compreendeu, de todo. Quem faz, sabe. Quem não sabe, não faz. Explicar o sentido é uma forma de fazer: de transformar o que não é representado em algo que se apresenta, é representado, cujo sentido se compreende. Compreender é ser. Não compreender é deixar sem ser.
Podemos alargar o âmbito: uma hora é o nome que se dá ao período de tempo que contém 60 minutos. Um minuto contém 60 segundos. Um dia tem 24 horas. Passar 'uma hora' é diferente de passar 'por uma hora'. Passar um dia é diferente de passar por um dia. É-o de raiz de pessoa para pessoa. Se descrevermos o nosso dia aqui e na Austrália temos a mesma duração e conteúdos diferentes. Mesmo para pessoas numa mesma casa, há conteúdos de pensamento diferentes. Mesmo que tenham o mesmo conteúdo têm maneiras diferentes de os entenderem. Mesmo que tenham a mesma maneira de entender: uma hora é na vida de uma pessoa a obliteração desse tempo passado que nunca se repete. Cada pessoa é o princípio de individuação que dá sentido ou não à hora que vive e ao tempo por que passa. 
É assim que um nome comum tem um sentido absolutamente privado. Quanto mais subjectivo, fundado na subjectividade deste princípio de individuação, do todo da vida que contextualiza e “pavimenta” tanto mais objectiva é a explicação e a compreensão das coisas.
Conclusões prévias: 
Há um antes e depois. A princípio, não há. Depois, sim.
  1. Cronologia irreversível: γένεσις/οὐσία. 
  2. Metáforas do movimento e da mudança: Trazer, fazer ir, empurrar, puxar: agir como fazer, produzir. 
  3. A estrutura do princípio da mudança: ἀρχὴ κινήσεως.
  4. Voz passiva: Trazido, feito ir, empurrado, puxado: agido como feito, produzido. 
  5. O reconhecimento de uma potência, possibilidade ou capacidade que pode ser accionada uma só vez, durante um período ínfimo de tempo, pelo agente mais insignificante que houver: ΔΥΝΑΜΙΣ, 219b9. Veremos que a potência do calcário é dado por uma compreensão. É a compreensão do ser calcário, um ser por cuja presença específica o calcário é calcário, que está na base do poder ser pedra da calçada. O que calceta não é um nome ‘pedra da calçada’, mas uma coisa que tem esse nome e é explicada por uma possibilidade. O calcário apenas não é uma pedra da calçada inerte. É o que é pela seu ser, é a ‘matéria’ específica, com mais de 30% de CaCO3.
  1. Tal como o problema é posto no Sophista: 240c1-5: A referência à estrutura complexa do λόγος. A συμπλοκή. A ἐπάλλαξις: O cruzamento dos contrários e dos opostos.
253d1 Ao distinguirmos os géneros, Τὸ κατὰ γένη διαιρεῖσθαι, identificamos que o que é, τὸ ὄν, é o idêntico e o outro, τό τε ταὐτὸν καὶ θάτερον, é κίνησις e στάσις ou ἀκινησία, movimento ou mudança e repouso ou inalteração. 
253b8: em causa está identificar em que saber temos forçosamente de participar (μετ’ ἐπιστήμης τινὸς ἀναγκαῖον) para compreender como é que os géneros supremos estão em relação uns com os outros, melhor, qual é a natureza da mistura (μείξις) que os mistura entre si (τὰ γένη πρὸς ἄλληλα), como se misturam através do processo de produção de sentido (διὰ τῶν λόγων πορεύεσθαι), quais são os que não admitem mistura e quais os que a admitem (ποῖα ποίοις συμφωνεῖ τῶν γενῶν καὶ ποῖα ἄλληλα οὐ δέχεται;).
A investigação do sentido do ser sofista, do que quer dizer, o que faz, como lida com os outros, como se apresenta, como actua, como é quando está em serviço, etc., etc., o Estrangeiro e Teeteto chegam a uma meditação acerca das condições de possibilidade da experiência e simultaneamente acerca das condições de possibilidade da inteligibilidade das situações, circunstâncias, processos, coisas, estados de coisa, etc., etc.. da definição do ser sofista,  τὸ ὄν, τὸ αὐτό, τὸ ἕτερον, κίνησις, στάσις.
A estrutura complexa do λόγος permite uma mistura, μείξις, de contrários e opostos que não se anulam mas constituem: unidade do diverso, multiplicidade da unidade, identidade na diferença e diferença de identidade. No limite, é mudança e resultado de mudança, mutável e resistente à mudança. 


O estrangeiro fala de um entrelaçamento: συμπλοκή e de uma alternância e conversibilidade de contrários uns noutros outros: ἐπάλλαξις, um cruzamento dos contrários e dos opostos. A sumplokê, a cópula, a ligação intrincada de estruturas complexas de opostos, a ‘complexificação’, ‘conexão’ é o que entrelaçou o não ser ao ser: τοιαύτην τινὰ πεπλέχθαι  συμπλοκὴν τὸ μὴ ὂν τῷ ὄντι. Uma coisa, não apenas o sofista, admite esta alternância, vice versa, de opostos: ὁρᾷς γοῦν ὅτι καὶ νῦν διὰ τῆς ἐπαλλάξεως ταύτης ὁ πολυκέφαλος σοφιστὴς ἠνάγκακεν ἡμᾶς τὸ μὴ ὂν οὐχ ἑκόντας ὁμολογεῖν εἶναί πως. 
Podemos tentar perceber o que está aqui em causa se pensarmos que o calcário não é ainda pedra da calçada. Que a pedra da calçada é composta em mais de 30% de CaCo3. Assim, X é calcário e pedra da calçada. Mas a pedra da calçada é definida pela calçada, pelo ser pavimento. O calcário não é como calcário pavimento. Ou seja, X é idêntico e diferente. Por outro lado, o que X é podia ficar inerte e imutável na natureza, sem sequer ser explorado por uma mina, ou pode ser alterado por um princípio de compreensão que interpreta a possibilidade que a sua estrutura química oferece. 


O princípio da mudança é dado porque se percebe que o calcário é ‘manuseável’, pode admitir várias formas, ser transformado em mosaico, revestir o solo, servir de pavimento, etc., etc.. A dinâmica do ir sendo o ser calcário admite esta transformação: agente da passiva e substância (sujeito de predicações).
Por outro lado, "dizer uma coisa" significa acamá-la numa zona de sentido. É a pedra que calceta e não o nome "pedra". Mas compreender uma pedra como pedra da calçada é tê-la no seu sentido. Podemos ver uma das primeiras ocorrências da palavra diaplekein, διαπλεκέω, na Xª Ode Pítica de Pindaro: 


Pindarus, P 10, 6-10: τάν [sc. τεχνά] ποτε/ Παλλὰς ἐφεῦρε θρασειᾶν  <Γοργόνων>/ οὔλιον  θρῆνον διαπˈλέξαισ’[ε] Ἀθάνα/ τὸν παρθενίοις ὑπό τ’ ἀπˈλάτοις ὀφίων κεφαλαῖς/ ἄϊε λειβόμενον δυσπενθέϊ  σὺν καμάτῳ, (10)/ Περσεὺς ὁπότε /τρίτον ἄυσεν,  κασιγˈνητᾶν μέρος/ ἐνναλίᾳ Σερί̆φῳ λαοῖσί τε μοῖραν ἄγων.
Palas Atena deu uma perícia aos mortais. A capacidade de transformar tudo o que acontece em música. Aqui, trata-se de perceber o alcance de ‘tudo’. 
Danae, mãe de Perseu, tinha sido raptada e condenada à cama da violação. Perseu tem como tarefa matar a Medusa, como paga do resgate pela libertação de sua mãe.
Quando Perseu decapita a Medusa, ela dá um grito surdo de dor, horrível de se ouvir. Pela perícia de Palas Atena, esse grito, a manifestação acústica do arrostamento com a morte violenta, é susceptível de ser expresso num lamento fúnebre, numa canção de luto, num requiem. 


O que é um horror é susceptível do sublime. 


O grito solto que ouviu ser destilado pelas cabeças de cobra que não admitem aproximação foi entrelaçado numa canção de lamento: “ὑπό τ’ ἀπˈλάτοις ὀφίων κεφαλαῖς/ ἄϊε λειβόμενον δυσπενθέϊ  σὺν καμάτῳ οὔλιον θρῆνον διαπˈλέξαισ[ε].
A situação do horror como todas as situações recalcitrantes, incompreensíveis e ininteligíveis têm no seu acontecerem a possibilidade de serem ‘ditas’, ‘contadas’, ‘interpretadas’, de serem, como aqui ‘cosidas’, ‘entrançadas’, ‘entrelaçadas’ com palavras que transformam a disposição e o estado em que nos deixam com a sua aparição impressionante num lamento fúnebre, mas sublime.

  1. 244d3-12: A estrutura intencional do nome. A cisão do núcleo do nome. O nome da coisa. O nome como coisa. O nome do nome. Nomeação de segunda ordem. Nominalização da coisa. Coisificação do nome. A transitividade lógica já no plano nominal. 
244d3-12: A estrutura intencional do nome. A cisão do núcleo do nome. O nome da coisa. O nome como coisa. O nome do nome. Nomeação de segunda ordem. Nominalização da coisa. Coisificação do nome. A transitividade lógica já no plano nominal. 
A identificação do λόγος como o sentido da palavra, permite aplicá-la também ao nome. Ou seja, λέγειν é a condição sine qua non para operar a diferença aparentemente irreconciliável entre um nome, como um ente linguístico, um substantivo ou um adjectivo em posição de sujeito, de predicativo do sujeito, complemento directo ou nome predicativo do complemento directo. 


A Maria não é obviamente ‘A Maria’. A pessoa Maria não é o nome Maria. Λέγειν quer dizer: escolher, fazer escolhas ou seja preferir e preterir. Significa reunir, por exemplo, num conjunto, num agregado, num todo complexo. Peças de mobiliário arrumadas na arrecadação e dispostas em casa conforme a divisão. 


Se a estrutura à priori do sentido é o λόγος, então, não há diferença de género entre nome e coisa. Há uma possibilidade numa coisa que a torna nomeável e há uma possibilidade linguística que permite nomear uma coisa com o seu nome. O susceptível de nome, mesmo anónimo, e o susceptível de ter nome, a coisa, dependem da compreensão lógica, a priori, da nomeação do nomeável. O nome diz a coisa de alguma maneira. 
CRUX: 244d3: “Se admitires que o nome é diferente da coisa, falas de dois entes de alguma maneira: Τιθείς τε τοὔνομα τοῦ πράγματος ἕτερον δύο λέγει πού τινε.” (…)  Mas certamente que se se disser que o nome é o mesmo que a coisa será obrigado a dizer que não é nome de coisa nenhuma, uma vez que aconteceria que o nome seria apenas nome de um nome e de nenhuma coisa.  Καὶ μὴν ἂν ταὐτόν γε αὐτῷ τιθῇ τοὔνομα, ἢ μηδενὸς ὄνομα ἀναγκασθήσεται λέγειν, εἰ δέ τινος αὐτὸ φήσει, συμβήσεται τὸ ὄνομα ὀνόματος ὄνομα μόνον, ἄλλου δὲ οὐδενὸς. Por exemplo, ‘o uno’ é o nome do uno e é o uno do nome ‘uno’: Καὶ τὸ ἕν γε, ἑνὸς ὄνομα ὂν καὶ τοῦ ὀνόματος αὖ τὸ ἓν ὄν. Ou seja, “τὸ ἕν” como a denominação ‘τὸ ἕν’, é nome: ὄνομα ὂν.E τὸ ἕν como τὸ ἕν que existe: τὸ ἓν ὄν e que não é nome mas nomeado. 
  1. 247b7-e4: A lógica do sentido. Reificação da totalidade dos entes. Reificação do sentido. OU: recondução da realidade a uma estrutura de sentido. TERTIUM NON DATUR. A realidade é “irreal”, só efectiva num sentido. O sentido articula-se em formas de compreensão: da ininteligibilidade à inteligibilidade absoluta. O espaço lógico admite dois aspectos fundamentais: o visado enquanto tal e o visar enquanto tal. Tudo o que está à vista, tudo o que não está à vista é TIDO EM VISTA. A únidade mínima da referência. Presença e sincronização. O que se dá num ápice, uma única vez, afecta o que é, torna-o presente, arranca-o à latência absoluta. Não há μετάβσις εἲς ἄλλο γενος.
A discussão do λόγος no Sophista de Platão tem τὸ ὄν na sua base. Em causa está precisamente compreender o sentido do ἔργον em vista do qual se diz que as coisas são, existem, são desta e daqueloutra maneira. Os gregos diziam τὰ ὄντα. Τὸ ἐφ’ ᾧ do ente não é o nome ‘ente’, é a presença que o define e algo ser o algo específico que é à sua maneira. Como veremos, Wittgenstein tem uma tese coincidente. Um "Sachverhalt" e a "Sprache" acontecem num “logischer Raum”. É por isso que sondar a estrutura complexa do λόγος e sondar a estrutura complexa da produção do sentido e a sua articulação em inteligibilidade e ininteligibilidade, níveis de compreensão e incompreensão. Mas um estado de coisas é susceptível de linguagem a partir da sua estrutura e sintaxe intrínseca. Se não houvesse o mergulho de ambos nesta atmosfera de sentido não havia coisas, nem coisas incompreensíveis, quanto mais coisas compreendidas. 


Tal não quer dizer que vivemos no meio de nomes. Quer dizer que as coisas são ‘lógicas’ e que a nossa linguagem surte efeito, é uma expressão complexa do sentido. A linguagem não são línguas. As línguas são maneiras de dizer a linguagem. O a priori é esta tensão contínua de anulação do incompreensível, do inexplicável, remoção contínua da mudez, etc., etc.. em que nos encontramos (Tensão de não indiferença lógica, Cf. Mário Jorge de Carvalho).
A discussão é uma γιγαντομαχία περὶ τῆς οὐσίας. Há pensadores, diz o Estrangeiro, que acham que o que é tem de ter corpo (res corporea, res materialis, res extensa). Outros, acham que o que existe não é uma coisa. As coisas só aparentemente existem, mas na verdade o que funda a sua identidade diacrónica, o que lhes sincroniza as partes e o que nos sincroniza com elas, tornando-as coisas vistas por nós e permitindo-nos ver coisas a ser excede de todo em todo o que está à vista. É tempo, espaço, a ligação dos componentes, a lucidez, etc., etc.. 
“Uns respondem que nada do que é incorpóreo (τὸ ἀσώματον) existe. Parece-lhes até que a própria alma adquiriu algo de corpo, mas a respeito do pensamento, φρόνησις, e de cada uma destas coisas que estão a ser interrogadas, tem vergonha de dizer ou que não existem de todo ou de afirmar convictamente que todas são corpos. (Τοῦτο οὐκέτι κατὰ ταὐτὰ ἀποκρίνονται πᾶν, ἀλλὰ τὴν μὲν ψυχὴν αὐτὴν δοκεῖν σφίσι σῶμά τι κεκτῆσθαι, φρόνησιν δὲ καὶ τῶν ἄλλων ἕκαστον ὧν ἠρώτηκας, αἰσχύνονται τὸ τολμᾶν ἢ μηδὲν τῶν ὄντων αὐτὰ ὁμολογεῖν ἢ πάντ’ εἶναι σώματα διισχυρίζεσθαι.)”. 
Contudo os herdeiros dessa forma de pensar tornaram-se mais corajosos e não têm vergonha nenhuma de dizer, pelo menos aqueles que nasceram dos dentes do dragão e são feitos de terra: que todas essas coisas são (Σαφῶς γὰρ ἡμῖν, ὦ Θεαίτητε, βελτίους γεγόνασιν ἇνδρες· ἐπεὶ τούτων οὐδ’ ἂν ἓν ἐπαισχυνθεῖεν οἵ γε αὐτῶν σπαρτοί τε καὶ αὐτόχθονες, ἀλλὰ διατείνοιντ’ ἂν πᾶν, etc.,)
É neste contexto que o Estrangeiro propõe uma definição que defina os entes: τίθεμαι γὰρ ὅρον [ὁρίζειν] τὰ ὄντα. 
“Eu explico-me, λέγω, então: o que quer que tenha adquirido uma determinada potência, δύναμις, seja para produzir algo de outro que seja da mesma natureza, seja capaz de sofrer a acção, mínima que seja, por um agente, por mais insignificante que for, nem que seja pelo menos uma única vez, que tudo isto existe realmente, πᾶν τοῦτο ὄντως εἶναι. Eu proponho com efeito uma definição que define os entes: que não é outra coisa senão potência. (Λέγω δὴ τὸ καὶ ὁποιανοῦν [τινα] κεκτημένον δύναμιν εἴτ’ εἰς τὸ ποιεῖν ἕτερον ὁτιοῦν πεφυκὸς εἴτ’ εἰς τὸ παθεῖν καὶ σμικρότατον ὑπὸ τοῦ φαυλοτάτου, κἂν εἰ μόνον εἰς ἅπαξ, πᾶν τοῦτο ὄντως εἶναι· τίθεμαι γὰρ ὅρον [ὁρίζειν] τὰ ὄντα ὡς ἔστιν οὐκ ἄλλο τι πλὴν δύναμις.)”
A potência, possibilidade ou capacidade, de que aqui se trata é a condição mínima para qualquer coisa ser ‘posta’ a ser pelo próprio sentido que a afecta ao ponto de a tornar sujeito da passiva. O λόγος é este agente por cuja acção qualquer coisa é inteligível, mesmo que incompreendida até dada altura. Mais, no princípio é o λόγος, isto é, esta acção de compreensão que detecta numa coisa o ser coisa, o seu existir ao modo como existe e por isso e só por isso é nomeável. O que não tido pelo λόγος não existe. Tal não quer dizer que o λόγος “cria”. O λόγος produz a coisa, chama-a, convoca-a, invoca-a e torna-a presente ou dá ao ente a possibilidade de “dizer”:— presente. É como se todas as coisas pudessem ser enunciadas na voz passiva: isto é isto pelo λόγος. “Isto” é “lógico” pela acção do λόγος. O λόγος é também λόγος τινος. É λόγος de uma coisa, πρᾶγμα, mas é também de um nome, ὄνομα. O próprio λόγος para ser dito é dito por si enquanto outro. A compreensão desdobra-se entre o sentido que se compreende e uma compreensão do que é compreender o compreender, compreender o sentido de X e compreender o compreender do sentido em geral.
Cf. LW, Tractatus, “4.461. Der Satz zeigt was er sagt, die Tautologie und die Kontradiktion, dass sie nichts sagen. Die Tautologie hat keine Wahrheitsbedingungen, denn sie ist bedingungslos wahr; und die Kontradiktion ist unter keiner Bedingung wahr. Tautologie und Kontradiktion sind sinnlos. (Wie der Punkt, von dem zwei Pfeile in entgegengesetzter Richtung auseinandergehen.)
(Ich weiß z.B. nichts über das Wetter, wenn ich weiß, dass es regnet oder nicht regnet.) A proposição diz o que ela diz, a tautologia e a contradição que elas nadam dizem. A tautologia não tem condições de verdade, porquanto ela é incondicionalmente verdadeira; e a contradição não é verdadeira sob nenhuma condição. Tautologia e contradição são sem sentido, sinnlos. (Tal como o ponto a partir do qual duas flechas se apartam uma da outra em direcções opostas) (eu não sei, por exemplo, nada acerca do tempo quando eu sei que é um facto que ou chove ou não chove.)”
  1. 261c6-263d4: A estrutura do λόγος. A συμπλοκή.
É necessário então agora passar em revista o nosso percurso. Qual é a condição mínima para a produção do sentido? Parece que o que agora está a ser examinado tem que ver com algo que tem de se subentender na própria natureza dos nomes: “Φέρε δή, καθάπερ περὶ τῶν εἰδῶν καὶ τῶν γραμμάτων ἐλέγομεν, περὶ τῶν ὀνομάτων πάλιν ὡσαύτως φαίνεται γάρ πῃ ταύτῃ τὸ νῦν ζητούμενον: περὶ τῶν ὀνομάτων ὑπακουστέον;” Ou seja, do mesmo modo que um nome é composto de sílabas e que as sílabas, de letras, e que o nome excede no seu sentido um mero agregado de letras, assim também temos de perceber quais são os componentes que constituem a unidade mínima do sentido e que vai para lá de nomes e de verbos. Apenas nomes e apenas verbos não chegam para compor o sentido. Claro que podemos, ao ouvir um nome, perceber o elemento activo dele. Do mesmo modo que quando ouvimos dizer: Chove, podemos pressupor como os gregos que é Zeus. Zeus chove ou Zeus faz chover. Mas tudo é a priori entendido por uma conexão entre nome e verbo de tal sorte que no enunciado declarativo atingimos a condicio sine qua non da inteligibilidade. Até lá, não.

“Será que todos os nomes se ajustam uns aos outros ou nenhuns ou alguns consentem ajustar-se e outros, não (Εἴτε πάντα ἀλλήλοις συναρμόττει εἴτε μηδέν, εἴτε τὰ μὲν ἐθέλει, τὰ δὲ μή.)?” “É evidente,” responde Teeteto, “que uns consentem e outros não” (Δῆλον τοῦτό γε, ὅτι τὰ μὲν ἐθέλει, τὰ δ’ οὔ.).
Uma coisa é enunciar palavras numa organização intrínseca, com o respeito por regras elementares da sintaxe. Outra coisa é pronunciar palavras umas a seguir às outras, num sequência temporal, mas a constituir um mero agregado. Assim, palavras enunciadas numa organização e ordenação intrínsecas, de seguida, ajustam-se entre si e produzem um todo de sentido: τὰ μὲν ἐφεξῆς λεγόμενα  καὶ δηλοῦντά τι συναρμόττει. As que são meramente ditas da boca para fora, ainda que na sequência temporal mas não intrinsecamente organizada não estão ajustadas umas às outras e nada significam: τὰ δὲ τῇ συνεχείᾳ μηδὲν σημαίνοντα ἀναρμοστεῖ.
Dispomos de dois géneros de evidenciação das entidades: ἔστι γὰρ ἡμῖν που τῶν τῇ φωνῇ περὶ τὴν οὐσίαν δηλωμάτων διττὸν γένος: os chamados nomes e os verbos: Τὸ μὲν ὀνόματα, τὸ δὲ ῥήματα κληθέν. “Dizemos que o verbo é o modo de indicar ou revelar as acções dos entes nomeados” (Τὸ μὲν ἐπὶ ταῖς πράξεσιν ὂν δήλωμα ῥῆμά που λέγομεν. Por outro lado, o nome é a indicação dada pela voz dos sujeitos que praticam aquelas acções: Τὸ δέ γ’ ἐπ’ αὐτοῖς τοῖς ἐκείνας πράττουσι σημεῖον τῆς φωνῆς ἐπιτεθὲν ὄνομα.
Assim, se alinharmos apenas nomes e os pronunciarmos, não podemos constituir a unidade mínima do sentido, do mesmo modo, por seu lado, que verbos alinhados uns ao pé dos outros e assim proferidos, mas separados dos nomes também não permitem constituir a unidade mínima do sentido (Οὐκοῦν ἐξ ὀνομάτων μὲν μόνων συνεχῶς λεγομένων οὐκ ἔστι ποτὲ λόγος, οὐδ’ αὖ ῥημάτων χωρὶς ὀνομάτων). 
Se proferirmos numa dada sequência verbos deste modo συνεχῶς ὧδε λεγόμενα, nada do que é enunciado faz sentido: ταῦτα οὐκ ἔστι λόγος. Por exemplo: ‘caminha’, ‘corre’, ‘dorme’ e todas as acções que os nomes siginficam, mesmo que enunciadas de seguida, uma primeiro, depois a outra e finalmente a última, nada significam: Οἷον “βαδίζει” “τρέχει” “καθεύδει,” καὶ (5) τἆλλα ὅσα πράξεις σημαίνει ῥήματα, κἂν πάντα τις ἐφεξῆς αὔτ’ εἴπῃ, λόγον οὐδέν τι μᾶλλον ἀπεργάζεται.
Não produzem: λόγος. Isto é, omitem o sujeito dessas acções. Mas essas acções não existem em lado nenhum do mundo sem sujeitos que lhes servem de protagonistas.
Do mesmo modo, se dissermos, por sua vez: ‘leão’, ‘veado’, ‘cavalo’ e tudo o que é chamado nomes dos sujeitos agentes de acções, ninguém é capaz de constituir sentido algum, nem mesmo que os profira uns atrás dos outros em sequência: Οὐκοῦν καὶ πάλιν ὅταν λέγηται “λέων” “ἔλαφος”, “ἵππος,” ὅσα τε ὀνόματα τῶν τὰς πράξεις αὖ πραττόντων ὠνομάσθη, καὶ κατὰ ταύτην δὴ τὴν συνέχειαν οὐδείς πω συνέστη λόγος” É que as palavras assim pronunciadas não revelam nem acção nem inacção nem nenhuma entidade que esteja a ser ou seja inexistente: οὐδεμίαν γὰρ οὔτε οὕτως οὔτ’ ἐκείνως πρᾶξιν οὐδ’ ἀπραξίαν οὐδὲ οὐσίαν ὄντος οὐδὲ μὴ ὄντος. Não antes de ter junto aos nomes os verbos. δηλοῖ τὰ φωνηθέντα, πρὶν ἄν τις τοῖς ὀνόμασι τὰ ῥήματα κεράσῃ.” 
É apenas nesse momento de ajuste ou junção de um nome a um verbo que o sentido surge: τότε δ’ ἥρμοσέν τε καὶ λόγος ἐγένετο εὐθὺς. Esta é a primeira conexão o primeiro entrelaçamento que constitui o sentido, a unidade ínfima do sentido:ἡ πρώτη συμπλοκή, σχεδὸν τῶν λόγων ὁ πρῶτός τε καὶ σμικρότατος.
Por exemplo, quando alguém diz: o ser humano está a aprender, nessa altura enuncia-se a unidade ínfima de sentido: Ὅταν εἴπῃ τις· “ἄνθρωπος μανθάνει,” λόγον εἶναι φῂς τοῦτον ἐλάχιστόν τε καὶ πρῶτον;
É que a unidade mínima do sentido faz ver eventualmente na altura em que se forma acerca das coisas que são, das que foram e das que estão para ser, não as nomeia apenas, mas perscruta-as e impõe-lhes limites, ao entrelaçar verbos com nomes. É por essa razão que falamos em dizer e não apenas nomear: e é por isso, por este laço mínimo que pronunciamos o nome: “λόγος”.
 {ΞΕ.} Δηλοῖ γὰρ ἤδη που τότε περὶ τῶν ὄντων ἢ γιγνομένων ἢ γεγονότων ἢ μελλόντων, καὶ οὐκ ὀνομάζει μόνον ἀλλά τι περαίνει, συμπλέκων τὰ ῥήματα τοῖς ὀνόμασι. Διὸ λέγειν τε αὐτὸν ἀλλ’ οὐ μόνον ὀνομάζειν εἴπομεν, καὶ δὴ καὶ τῷ πλέγματι τούτῳ τὸ ὄνομα ἐφθεγξάμεθα λόγον.
É por essa razão também que as coisas são conectadas umas com as outras e não apenas os nomes com os nomes. As coisas têm sentido e outras não: {ΞΕ.} Οὕτω δὴ καθάπερ τὰ πράγματα τὰ μὲν ἀλλήλοις ἥρμοττεν, τὰ δ’ οὔ, καὶ περὶ τὰ τῆς φωνῆς αὖ σημεῖα τὰ μὲν οὐχ ἁρμόττει, τὰ δὲ ἁρμόττοντα αὐτῶν λόγον ἀπηργάσατο.
Λόγον ἀναγκαῖον, ὅτανπερ ᾖ, τινὸς εἶναι λόγον, μὴ δὲ τινὸς.

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