terça-feira, 4 de outubro de 2011

Fil. Antiga, 5ª sessão, FCSH/UNL, 4 de Outubro


Iª parte: O elenco das diversas acepções em que se pode considerar uma entidade, οὐσία.[1]

MF, Zeta, 1028b8 e sg.: “Parece que a substância pertence de forma mais manifesta aos corpos, Δοκεῖ δ’ ἡ οὐσία ὑπάρχειν φανερώτατα μὲν τοῖς σώμασιν”.

A primeira ordem de exemplos apresenta seres vivos, animais, vegetais como todos concretos que configuram partes heterogéneas entre si.

A) τά ζῷα, os seres vivos ganham corpo onde encarnam, conforme sejam aves, peixes ou animais terrestres. Cada espécie tem o seu corpo diferente, adaptado ao meio ambiente em que habita, com uma determinada etologia. As partes dos seres animais articulam-se em órgãos e aparelhos. A interdependência dos órgãos com diversas funções e as funções dos aparelhos revelam uma mesma estrutura dentro do organismo. Cada ser animal é pensado como um indivíduo, dentro de uma espécie. Os gatos e os cães são espécies de animais. Mas cães, gatos e couves são espécies de seres vivos.

B) τὰ φυτὰ, o mesmo se passa com os produtos da natureza, couves, alfaces, tomates e batatas, árvores, flores, relva, etc., etc.. τὰ μόρια αὐτῶν. Numa segunda consideração pensa-se um todo individual que existe com um corpo próprio natural dotado de interior e exterior de partes ligadas entre si interdependentes e todas relacionadas com o todo que são. A forma como se pensa a articulação entre partes e todo pode ser simplesmente artificial.[2]

Consideremos a descrição morfológica de uma couve:[3]  O caule é erecto, podendo ser curto, como no repolho, ou longo, como na couve-galega. As folhas da base podem diferir das folhas terminais: as basilares podem ser lirado-penatipartidas, enquanto que as folhas superiores podem ser oblongas, obovadas, onduladas, denteadas, formando, ou não, uma "cabeça" de folhas apertadas, antes da floração. Ao longo do caule (também chamado de talo) podem formar-se pequenos ramos ou gemas, como na couve-galega, ou na couve-de-bruxelas. As flores, dispostas em rácimos terminais erectos, podem ser brancas ou amarelas, com sépalas erectas e corola composta por quatro pétalas obovadas, unguiculadas (com forma de unha). Tem estames tetradinâmicos, (quatro com filetes compridos e dois curtos). Os frutos são síliquas cilíndricas ou subcompridas rostradas (com um prolongamento em forma de bico na extremidade).

A descrição apresenta uma multiplicidade de elementos que estão numa relação entre si, à partida espacial. Partes de baixo e partes de cima, caule e folhas. Mas a compreensão do carácter da ligação de uma parte às restantes e de todas ao todo concreto que é uma couve implica um outro nível de aprofundamento. A entidade que é a couve compreende-se não apenas no “caldo verde” ou na embalagem contendo as folhas da couve já cortadas para o caldo verde. Vê-se na horta a crescer, vê-se em exposição na banca do mercado. 

Quando, por exemplo, dizemos que as couves já não estão frescas, identificamos sintomas de apodrecimento: as folhas tornaram-se amarelas, apodrecem, não podem ser consumidas. A relação da couve com a sua οὐσία implica-a também no princípio do fim. Ou seja, a privação da relação desta couve com o que dela faz ser uma couve, é o seu apodrecimento ou não ainda maturação. A couve é maximamente couve quando atingiu o seu grau máximo de desenvolvimento. Se não for colhida, morre. Há uma tensão entre a couve e a dignidade que atinge no seu apogeu e o princípio do apodrecimento ou envelhecimento.

C) Elementos e estruturas elementares:
Aristóteles considera outros tipos de corpos físicos ou naturais ou corpos que pertencem à natureza, mais correctamente, são elementares: fogo, água e terra. Note-se apenas que o ar e o éter não são considerados, mas não há razão para não serem aqui referidos. τὰ φυσικὰ σώματα, οἷον πῦρ καὶ ὕδωρ καὶ γῆν καὶ τῶν τοιούτων ἕκαστον. Cada um deles é pensado como um elemento. O fogo não é um mega fogo. É a oxidação de um combustível libertando calor. É isso que de cada vez acontece quando acendemos fogões e lareiras, fazemos lume ou nos confrontamos com um incêndio. Também a água e a terra são estruturas elementares descritas de forma mais ou menos complexa como contendo átomos e moléculas, sais minerais, elementos das mais diversas naturezas: ouro, ferro, solo, etc., etc..

Aqui também a relação entre partes e todo é pensada de acordo com a forma complexa como as partes são integradas ou ficam envolvidas pelos todos concretos. Uma parte de fogo é fogo? Tal como a água num copo reúne as condições da água dos Oceanos para ser água. A diferença é quantitativa? Qual é a quantidade mínima de água para que a água possa ser água? 

D) Unidades de sentido. Exemplo: o céu.
Por outro lado, considera-se uma articulação de partes e todo que depende de uma organização de uma entidade que assim se cria ou existe. Por exemplo o céu e o mar, e a terra. A linha do horizonte divide na praia o céu e a terra. Mas o céu contem os Astros, a lua e o sol e as outras estrelas. A Terra, Oceanos e florestas, o interior e a sua superfície. Os Oceanos, diversos entes, rochas, flora e fauna, etc.. Terra, água e céu fazem parte do universo, etc., etc.. ὅσα ἢ μόρια τούτων ἢ ἐκ τούτων ἐστίν, ἢ μορίων ἢ πάντων, οἷον ὅ τε οὐρανὸς καὶ τὰ μόρια αὐτοῦ, ἄστρα καὶ σελήνη καὶ ἥλιος)·






[1] Cf.: “Bei dem ti ên einai schliessen wir uns der Ansicht an, dass es sich um eine Kurzformel für Ausdruecke wie etwa: ti ên tôi anthrôpôi anthrôpôi einai etwa handelt. Das ên verstehen wir im Sinne des sog. "philosophischen Imperfekts", das freilich im Deutschen keine (wissenschaftssprachliche) Entsprechung hat, und uebersetzen also: "Was es heißt, dies zu  sein". Das "Was es heißt, dies zu sein" muss so verstanden werden, daß es das bedeutet, was  z. B. den Menschen zum Menschen, ein Haus zum Haus macht (vgl. unseren Kommentar zu Z 2, I028b34). 'ti estin bzw. 'to ti estin” uebersetzen wir: "Was etwas ist'" bzw., wenn der jeweilige Gegenstand schon bestimmt ist: "Was es ist". "Ein Dies von der Art", “tode” als Demonstrativum, das TI aber als Spezifizierung ansehen. LOGOS uebersetzen wir ueberall dort, wo es den logos einer Sache bezeichnet, mit "Formel", in Anlehnung an Ross' "formula".” Frede, M., & Günther, P. (1988). Aristoteles „metaphysik Z “, bd. 1. Kommentar, München, p. 19 e sg.

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Couve.

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