quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Filosofia Antiga, 6ª sessão, 6/10/11, FCSH/UNL


IIª Parte
MF, Z, 1028b13-15: “Tem de se examinar se são estas apenas as entidades ou se há ainda também outras, se algumas destas existem ou outras de outro género ou se não há de modo nenhum outras para além destas (πότερον δὲ αὗται μόναι οὐσίαι εἰσὶν ἢ καὶ ἄλλαι, ἢ τούτων τινὲς ἢ καὶ ἄλλαι, ἢ τούτων μὲν οὐθὲν ἕτεραι δέ τινες, σκεπτέον.)” 
  1. Aristóteles opera uma neutralização da diferença entre seres vivos, seres vegetais, seres naturais, corpos elementares, ou regiões do universo. A formalização projectada sobre “cada coisa no seu género”, “cada indivíduo de uma determinada espécie”, desenraíza a diferença. Todas as coisas passam a ser do mesmo género, deixa de haver espécies e por isso também também diferenças individuais: “cada ente passa a ser como cada qual”. A desmaterialização das coisas altera-lhes a entidade que faz de cada ente um ente único no seu género. Passa a considerar-se os limites de cada corpo como a região específica com um mapa determinado, mas reduzido a uma extensão descrita numa morfologia partilhada por todos os entes. Todos os entes têm o seu lado visível, a partir do qual dão mostras de si. Têm também lados que estão escondidos, são tapados. Os entes têm interiores que podem tornar-se visíveis mas que podem ficar completamente opacos. 
  2. Pensemos no seguinte exemplo. Um objecto apresenta-se como rectangular. Um rectângulo azul, encaixado na parede. Um rectângulo branco pendurado na parede. Rectângulos castanhos num plano paralelo, debaixo do tecto e em cima do chão. Rectângulos amarelos. Em cada um destes rectângulos há cores diferentes: azul, branco, castanho, amarelo. Os rectângulos estão em posições diferentes no plano: perpendicular, paralela, vertical, horizontal. São de materiais distintos: madeira, plástico, papel. Têm quatro lados e quatro ângulos internos. A forma do rectângulo, contudo, não permite na entidade que é e no aspecto que configura identificar: portas rectangulares, quadros em salas de aula, tampos de mesa, folhas de papel de caderno. Quando vemos o rectângulo amarelo como folha de papel no caderno de apontamentos, o rectângulo de madeira azul encaixado na parede como a porta ou quadro branco rectangular em que escrevo, o tampo de mesa, etc., etc.. Temos acesso a uma entidade que conforma um entre ente para lá do ente rectangular. Uma mesa pode ser oval, uma porta redonda, um caderno triangular e um quadro quadrado. O ser uma mesa, o ser esta porta, o ser que faz do papel uma folha de caderno ou de um quadrado, de um rectângulo ou losango um quadro tem o seu fundamento num outro sentido completamente diferente.
  3. Quando consideramos os entes como corpos que se estendem e esticam em toda a sua extensão até às zonas limítrofes em que ocupam lugar, estamos a neutralizar a sua ontologia e a radicá-los num projecto de compreensão que anula as suas diferenças. O carácter individual passa a ser conferido pela determinação da sua impermeabilidade. Um corpo pode expulsar outros, ficar no lugar de outro, mas nunca tocar outro, por mais encostado que esteja ao (e comprido com) outro. 
  4. Neste processo de abstracção, ἀφαίρεσις, opera-se uma neutralização da mundividência normal. Quando um corpo fica contraído nos limites do espaço que ocupa, τὰ τοῦ σώματος πέρατα, passamos a identificar apenas a sua superfície, ἐπιφάνεια, as suas dimensões, largura e altura, e extensão, a superfície contraída a uma única dimensão, a linha, γραμμή, e a linha contraída, num ponto, στιγμή (uma linha vista no local onde foi segmentada num plano perpendicular ao do nosso ponto de vista.) Mas nós raramente vemos uma coisa repousada em si mesma, sem relação com outra, mesmo que apenas espacial, nem comprimida e retraída em si mesma. A mesa na sala de aula implica uma cadeira. A mesa está inserida numa linhas de mesas e cada linha faz o número das filas de mesas com cadeiras. As cadeiras na sala de aula estão apostas a um mesmo lado das mesas, viradas para o quadro, dispostas de tal maneira que as pessoas se possam deslocar entre elas, sentarem-se nelas, levantarem-se delas, verem o que está escrito no quadro, etc., etc.. Do mesmo modo, o candeeiro está do lado esquerdo, para dar luz e não deixar a minha fazer sombra e ver o que leio ou escrevo. A porta está inserida na parede não para lá estar, mas para deixar entrar e sair, prender e soltar, fechar e abrir. A porta é a charneira entre o interior da sala de aula e o seu exterior, não está em si no meio da parede. Do mesmo modo o tampo da mesa é para apoiar o cotovelo e a mão que segura o caderno, para suster objectos, etc., etc.. Quando consideramos um objecto em si mesmo retraído no compacto e maciço acontecimento de si mesmo, sem dúvida que o tornamos individual, mas destruímos também a certidão de nascimento, o objecto no seu género da espécie e da natureza que tem.
  5. Destas considerações “destrutivas”, pergunta Aristóteles se o ponto, a linha, a superfície e plano de que a superfície se destaca tem mais ser do que o sólido ou o corpo concreto que cada coisa é? μονάς, εἶναι οὐσίαι, καὶ μᾶλλον ἢ τὸ σῶμα καὶ τὸ στερεόν. Mas não será que o ponto ou os pontos, a linha ou as linhas, a superfícies e as superfícies, os planos, a largura, o comprimento e a profundidade são elementos não independentes numa morfologia que depende ainda do sentido: ser sólido, ser superficial, ser linear, ser pontual, mas seres com um sentido completamente diferente daquele com que lidamos habitualmente e que permite manipular uma coisa, lidar com ela, saber de que é feita e para que serve? E a entidade que confere a cada ente o ser do seu género, ter a sua natureza, ser de uma espécie determinada é adicionada à coisa considerada formalmente na topologia formal? Ou trata-se de um entidade completamente diferente? A possibilidade da síntese e da existência de um “todo composto” depende da compreensão de regimes de sentido diferentes. A linha do rectângulo não é o lado da mesa. O ângulo externo de um rectângulo não é o bico da mesa onde a criança se magoou, etc., etc..
  6. Esta ordem de considerações permite a Aristóteles um outro nível de consideração da entidade que configura outros entes. Designadamente, um nível que lhes dá consistência ôntica mesmo para lá da dimensão do perceptível. Há entidades que não são percepcionáveis ou apenas o perceptível e o objecto susceptível de captação sensorial existe como entidade?
  7. Para Platão, segundo Aristóteles, havia a possibilidade de outras entidades que vão para lá do “perceptível”. Significa isso que o que se considera uma realidade corpórea deixa de ser uma entidade? Há um alargamento da noção de entidade que adiciona aos corpos também as ideias? São corpos e ideias entidades? Como? É o corpo uma ideia? E um sentimento ganha corpo? 
  8. MF, Z, 1028b18-20: Ἔτι παρὰ τὰ αἰσθητὰ οἱ μὲν οὐκ οἴονται εἶναι οὐδὲν τοιοῦτον, οἱ δὲ πλείω καὶ μᾶλλον ὄντα ἀΐδια, ὥσπερ Πλάτων (Alguns pensadores não pensam que haja nada do género da entidade para além do que pode ser objecto de percepção, mas outros há que pensam que a maior parte dos entes existe nessa dimensão e que são eternos, como é o caso de Platão)” 
  9. As formas, εἴδη, e os entes matemáticos, τὰ μαθηματικά, números e figuras, não são vistos a “olho” nu e são considerados ainda assim entidades: τά τε εἴδη καὶ τὰ μαθηματικὰ δύο οὐσίας. Para Platão, para além das entidades matemáticas e das ideias, há também a entidade que faz a presença dos corpos percepcionáveis. 
  10. Esta entidade inere-lhes intrinsecamente fazendo-os ser o que são (τρίτην δὲ τὴν τῶν αἰσθητῶν σωμάτων οὐσίαν). Espêusipo considera mais entidades, começando pelo número um. Achava que os princípios de cada substância, eram três: o princípio dos números e das dimensões, bem como da lucidez ou alma (Σπεύσιππος δὲ καὶ πλείους οὐσίας ἀπὸ τοῦ ἑνὸς ἀρξάμενος, καὶ ἀρχὰς ἑκάστης οὐσίας, ἄλλην μὲν ἀριθμῶν ἄλλην δὲ μεγεθῶν, ἔπειτα ψυχῆς.) Deste modo ia para além do horizonte em que habitualmente há substâncias.
  11. Noutros sistemas, pode-se perceber uma multiplicação complexa de entes que se estende das formas e dos números até uma qualquer outra natureza que possam ter, (ἔνιοι δὲ τὰ μὲν εἴδη καὶ τοὺς ἀριθμοὺς τὴν αὐτὴν ἔχειν φασὶ φύσιν), progride até ao que depende deles (τὰ δὲ ἄλλα ἐχόμενα), portanto, as linhas não independentes, as superfícies não existentes em si, etc., etc., e chegam a ser a entidade que são: a substância do céu e dos perceptíveis, γραμμὰς καὶ ἐπίπεδα, μέχρι πρὸς τὴν τοῦ οὐρανοῦ οὐσίαν καὶ τὰ αἰσθητά.
  12. A complexidade da consideração é o ponto de partida de Aristóteles. O que é que é tido em vista para se determinar este elenco de candidatos a οὐσία? Quais são os critérios? Qual é a definição de uma οὐσία? Antes mesmo de sabermos qual é a relação das partes de uma entidade entre si e de todas elas consigo, ter-se-á de apurar a partir de que ponto de vista se considera um ente natural e um número, uma couve e a soma dos ângulos internos de um triângulo como entidades? Como é possível dizer-se que um ponto é uma entidade? A pergunta que vai dirigir o programa da análise em Zeta visa saber se existe uma entidade separada e separável, porquê e de que maneira existe. Pergunta-se ainda se não existirá alguma entidade para lá das que se apresentam, das que são, portanto, susceptíveis de captação perceptiva: περὶ δὴ τούτων τί λέγεται καλῶς ἢ μὴ καλῶς, καὶ τίνες εἰσὶν οὐσίαι, καὶ πότερον εἰσί τινες παρὰ τὰς αἰσθητὰς ἢ οὐκ εἰσί, καὶ αὗται πῶς εἰσί, καὶ πότερον ἔστι τις χωριστὴ οὐσία, καὶ διὰ τί καὶ πῶς, ἢ οὐδεμία, παρὰ τὰς αἰσθητάς, σκεπτέον, ὑποτυπωσαμένοις τὴν οὐσίαν πρῶτον τί ἐστιν.
  13. O ponto de partida de Zeta pode ser agora compreendido na sua complexidade: 1028a10-128b. O que é, o que existe, o ente diz-se de muitas maneiras, Τὸ ὂν λέγεται πολλαχῶς. A pergunta passa a visar o sentido a partir do qual um ente radica em diversas maneiras de ser. Uma maneira de ser não existe em lado nenhum. É um ente que tem uma determinada maneira de ser. A maneira de ser manifesta-se no ente que é sempre de cada vez do seu género o ente que é. Cada coisa é uma espécie de coisa e cada espécie é “sui generis”. Por outro lado cada ente é este ente à sua maneira específica. Ser um modo não é ser “algo”. O algo que um ente é é a sua maneira de ser. O que é preciso para uma porta ser uma porta? O que é preciso para um tampo de mesa ser um tampo de mesa? O que é preciso para um quadro ser um quadro na sala de aula? O que é preciso a uma folha de papel para ser uma folha de papel? Esta pergunta desenvolve-se em duas frentes de resposta. Por um lado é o papel que faz da folha a folha do caderno, a madeira que faz da porta ser a porta que é, é também o contraplacado que faz do tampo da mesa o tampo desta mesa aqui bem como o plástico faz do quadro o quadro que é. Mas o papel, a madeira, o contraplacado e o plástico, não fazem por si só, são insuficientes na sua determinação, uma folha de um caderno, o tampo de uma mesa, um quadro na sala de aula, etc., etc.. É o aspecto ou a configuração desses materais numa forma que lhes confere o serem esses entes específicos no seu género.
  14. Que aspecto é esse? Não pode ser uma figura geométrica bi ou tridimensional. Enquanto tal o rectângulo ou o paralelepípedo não pode ser porta, tampo de mesa, quadro, folha de papel, etc., etc.. O Aspecto é o sentido específico da sua finalidade, o modo determinado da sua utilização. Estes objectos são o que são porque a sua entidade, a sua essência, obriga-os a subsistir com um objectivo específico, um fim determinado, mas também como meios ou instrumentos que servem de ponto de aplicação e são utilizáveis de uma determinada maneira. A porta sobre apoios e desencaixada do caixilho pode servir de mesa de refeição. A mesa pode servir, quando deitada de barricada. A folha de papel amarrotada não dá para escrever, mas serve para arremessar a alguém, etc., etc.. Assim, é como se portas, mesas, cadeiras, folhas de papel, cadernos, quadros não fossem o que parecem ser, isto é, o apresentado dessas coisas, mas a sua morfoliga específica a constituir um material com uma finalidade e um ponto de aplicação: o ser para… é o que define o X que de cada vez, sendo rectângulo, pode ser para abrir e fechar, para apoiar, para escrever e apagar, para sentar e levantar. 
  15. Tudo se passa como se o sentido fosse sempre conotado através do referente, mas nunca o conseguisse denotar. Ou seja, o referente do sentido é a conjunção final: “para”, “a fim de…” ou a locução adverbial: “[usa-se] deste modo”, “manipula-se assim”. Resulta da identificação dos pontos de aplicação: manípulo, trinco, assento, tampo, superfície onde se escreve. A minha intervenção resulta de uma plastificação do corpo: aperto o manípulo e rodo-o, apoio o antebraço para escrever, risco o quadro com o marcador, assento as nádegas na cadeira, etc., etc.. 
  16. Toda a multiplicidade de entes que Aristóteles considerou nos mais diversos quadros de sentido, implicam uma restrição da pergunta acerca do que possa querer dizer οὐσία à  causa formal. É a formalização que permite uma definição funcional dos seus contornos. O que é preciso para que a entidade seja a entidade individual que é? Como é que a entidade se torna realidade? De que é feita a realidade de uma entidade? Há entidades que não são realidades? Há realidades que não são entidades? O ente diz-se de muitas maneiras. Aristóteles considera aqui as seguintes.

Sem comentários:

Enviar um comentário