domingo, 23 de outubro de 2011

Botschaft, um ensaio de tradução: Mário Jorge de Carvalho, mestre e amigo. Foi há 25 anos.


Mensagem (Botschaft)
Hugo von Hofmannsthal

Eu tinha pensado de mim para mim que dias mais lindos
Só aqueles poderiam ser chamados, quando nós, ao falar,
Transformávamos a paisagem diante dos olhos num domínio
Da nossa alma: quando nós, colina acima,
Subíamos para o bosque na direcção da sombra,
Aí, onde tudo nos envolvia como algo de já vivido,
Pois, aí, nos prados distantes, nós encontrávamos, em sossego,
o sonho das vidas passadas de criaturas jamais supostas.
Encontrávamos aí vestígios do seu terem por lá andado e do seu beber
E sobre o lago: uma conversa a deslizar
Reflectia abóbadas mais fundas do que o céu. 
Eu tinha, então, pensado naqueles dias,
E que a seguir a estas três coisas: ter saúde,
Fruir do próprio corpo e da vida,
E de pensamentos, asas de jovens águias,
Apenas uma coisa conta:
Estar na companhia de amigos.
Assim, eu quero que tu venhas e comigo bebas
Daquelas taças que são a minha herança,
Adornado com folhagem e crianças aladas,
E que comigo te sentes no muro do Jardim.
Dois jovens estão de guarda no seu portão.
Nas suas cabeças, com um olhar absorto e
Meio desviado, há um destino monstruoso
Que te olha para te empedernir: quero que te cales
E olhes para a paisagem
Que tu vês estender-se à tua frente;
Pois, talvez, então, um verso teu me aconchegue
Na solidão futura e que, de quando em quando,
Uma lembrança tua se aninhe na sombra
E que, ao cair da noite, a estrada entre as copas escuras role,
E que caminhos sem sombra rolem e rolem para aí
Como relâmpagos do ouro mais fino.



Ich habe mich bedacht, daß schönste Tage
Nur jene heißen dürfen, da wir redend
Die Landschaft uns vor Augen in ein Reich
Der Seele wandelten; da hügelan
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Dem Schatten zu wir stiegen in den Hain,
Der uns umfing wie schon einmal Erlebtes,
Da wir auf abgetrennten Wiesen still
Den Traum vom Leben niegeahnter Wesen,
Ja ihres Gehns und Trinkens Spuren fanden
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Und überm Teich ein gleitendes Gespräch,
Noch tiefere Wölbung spiegelnd als der Himmel:
Ich habe mich bedacht auf solche Tage,
Und daß nächst diesen drei: gesund zu sein,
Am eignen Leib und Leben sich zu freuen,
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Und an Gedanken, Flügeln junger Adler,
Nur eines frommt: gesellig sein mit Freunden.
So will ich, daß du kommst und mit mir trinkst
Aus jenen Krügen, die mein Erbe sind,
Geschmückt mit Laubwerk und beschwingten
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                                                  Kindern,
Und mit mir sitzest in dem Gartenturm:
Zwei Jünglinge bewachen seine Tür,
In deren Köpfen mit gedämpftem Blick
Halbabgewandt ein ungeheures
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Geschick dich steinern anschaut, daß du schweigst
Und meine Landschaft hingebreitet siehst:
Daß dann vielleicht ein Vers von dir sie mir
Veredelt künftig in der Einsamkeit
Und da und dort Erinnerung an dich
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Ein Schatten nistet und zur Dämmerung
[25] Die Straße zwischen dunklen Wipfeln rollt
Und schattenlose Wege in der Luft
Dahinrolln wie ein ferner goldner Donner.

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