sábado, 22 de outubro de 2011

"Não é nada. Não te preocupes que já passa".


O 'acesso' ao próprio que outrem é.
(Uma figura inautêntica da solicitude)


Consideremos uma situação concreta em que genuinamente nos parece preocupar-nos com um outro, a respeito da sua própria aflição. Vejamos como, a despeito da aparente bondade de um tal propósito, pode acontecer sermos nós no fundo a ter de lidar com a nossa própria preocupação. 
O outro cria uma tensão em nós de que nos queremos livrar. Querer "libertá-lo" pode ser apenas uma consequência da nossa aflição.
Há assim algo que aflige o outro. Esse ‘outro’ é ‘dos meus’. Está aí ao pé de mim. Eu ‘percebo-o’, mesmo sem saber ‘bem’ ou ‘de todo em todo’ não saiba de que se trata. 
  1. O sentido deste ‘ficar preocupado com o outro aflito’ é hermético e opaco. E, contudo, ‘evidente’. Não ‘sei’ o que se passa com ele. Sei ‘que’ se passa ‘qualquer’ coisa.
  2. Não me preocupa directamente a sua aflição. Somente o outro aflito na sua vida. 
  3. Eu verifico, afirmo e reafirmo a minha disponibilidade para poder ser interpelado por ele, ali junto de mim. Dou-lhe atenção, presto-lhe assistência. Quero ajudá-lo. Sem dúvida. Mas, por outro lado, não serei eu ali também a ser atingido por aquela aflição do outro preocupado consigo. É também de mim que se trata. 
O outro parece-nos aflito. Fecha-se. 
Sentados à mesa de um restaurante ao jantar, paira de repente no ar uma inquietação que aflige o outro. Nada há que o outro nos diga. No silêncio, cria-se um clima com uma atmosfera pesada: inquietante. Fica-se desassossegado. O ambiente fica insuportável. 
Aparentemente na realidade não se passa nada. Mas a partir da própria situação, ‘percebe-se’ que o que estava a correr normalmente muda súbita e repentinamente. 
Sente-se o outro preocupado ‘com’, e aflito por ‘causa de’, qualquer coisa que o deixa inquieto. 
Sem sabermos de que se trata, somos submergidos por uma onda de inquietação, que se forma e num crescendo fica com um peso insuportável.
Perguntamos ao outro acerca do ‘que’ se passa. Fazemos-lhe perguntas acerca do que terá acontecido. 
O outro diz-nos:— “nada. Não é nada, não te preocupes, que já passa.”
O “nada. Não é nada, não te preocupes, que já passa” não só não me deixa sossegado, como é o gatilho que, agora sim, faz disparar em mim os níveis de ansiedade de forma totalmente descontrolada. 
Não há razão nenhuma para estar preocupado, precisamente agora que o outro me diz:— “nada. Não é nada, não te preocupes, que já passa”. Mas ao ficar na ignorância, sem qualquer dado do problema que se põe ao outro, fico preocupado. 
Este “nada. Não é nada, não te preocupes, que já passa” é dito de uma ‘maneira’ que me revela a gravidade dilacerante da situação.
  1. Nada há, no entanto, que salte do interior da sua cabeça para a sala do restaurante. Não houve nada, na sala, que entrasse para o interior da ‘minha cabeça’.
  2. Não é a interrupção abrupta do jantar.
  3. Não é o jogo fisionómico no rosto do outro a contrair-se. O semblante ficou sério, quando estava a sorrir de contentamento, até divertido. O ambiente é sereno, a música ambiente de bom gosto, a comida excelente. 
  4. Não é por se ter calado, quando falava abertamente. 
  5. Realmente, não se encontram indícios para o que está a passar-se. 
E, contudo, cria-se um outro clima, a atmosfera adensa-se, a onda forma-se aí. Tudo simplesmente muda e não é “nada”. É este “nada. Não é nada, não te preocupes, que já passa” que está na origem da ‘mudança e alteração disposicionais’ que abrem o horizonte da aflição. 
  1. Os acordes do pianista deixam de se ouvir.
  2. O barulho do restaurante é abafado, a comida arrefece no prato. 
  3. Cresce o silêncio. 
O estar com outro a jantar  naquele restaurante altera-se. Está a correr bem e a dada altura passa a correr mal. Mas a viragem pode tornar-se reversível. Depois de atingir o seu paroxismo confuso e perturbante, atenua-se. Há uma flutuação e instabilidade atmosféricas. 
Pode ser qualquer coisa lá no emprego, um qualquer conflito que se gerou no trabalho, uma zanga com alguém, uma preocupação com outro. 
O que quer que seja resume-se a este “nada. Não é nada, não te preocupes, que já passa”.
O que aflige desvanece, então. O outro recompõe-se. Parece voltar ao modo habitual como se encontra. 
  1. O outro acalma-se. 
  2. A atmosfera opressiva do restaurante é dissipada. 
  3. A música volta a fazer ouvir-se. 
  4. Voltamos a debruçarmo-nos sobre a comida já fria no prato.
  5. retoma-se a conversa, agora aligeirada. Fala-se de coisas banais com a boa disposição de quem se encontra para jantar.
O que é que aconteceu nesta oscilação disposicional catastrófica, nesta vibração de sentido compreendida e sentida como instabilidade atmosférica? 
A bem dizer, nada. 
Mas apesar de o paroxismo da aflição ter desaparecido como apareceu, súbita e repentinamente, isto é, apesar de aparentemente o outro ter deixado de se preocupar, não terá sido por ter deixado de sentir o efeito que o fenómeno produz? A preocupação não o abandonou. Mantém-se lá, onde estava, ainda que neutralizada e esbatida na sua manifestação. Está como que ao largo, ocultada e escondida dos outros sem nunca nos largar, retendo-nos. Os múltiplos conteúdos com que o outro se preocupa, distribuídos por diversas frentes, nem sempre fazem sentir a sua presença. Podem fazer sentir a sua presença no outro e ele falar-me de si preocupado com eles. Mas neste caso, contudo, eu sou deixado na mais completa ignorância acerca do que verdadeiramente o preocupa e aflige. 
Recuperemos alguns dos elementos da análise:
  1. É o X indeterminado que é fonte e origem da preocupação do outro vivida também por mim concretamente.
  2. É a indeterminação determinável do que preocupa o outro que me faz ficar preocupado com ele, que me arrasta consigo e deixa num estado solícito, interpelando-me.
  3. Somos afectados indirectamente pela aflição indeterminada que atinge o outro.
  4. O outro é um dos nossos. Tem o poder de nos contagiar, como que infectando-nos. 
  5. A aflição do outro deixa-nos ‘impotentes’ e ‘incapazes’ para fazer o que quer que seja por ele. Deixa-nos simplesmente preocupados. 
Mas a ansiedade com que temos de lidar é também ‘nossa’, embora provocada pelo outro que se encontra preocupado ‘consigo’.  
No limite, não somos nós a ter de lidar ‘connosco’? Queremos resolver-lhe o problema. Mas não é para voltarmos à boa disposição do jantar? Não queremos dissipar o ambiente que o outro criou? 
Estabilizar a atmosfera, amenizar o clima. A solicitude depõem-me no outro aflito com a sua preocupação. Ainda que a minha preocupação seja directa e imediatamente com ‘ele’, é a ‘minha’ ansiedade que eu posso querer resolver. Não a sua preocupação. O outro pesa-me e eu quero o meu alívio obtido através do alívio do outro.

Esta figura da solicitude é determinada pela preocupação específica com o outro baseada na disposição de ansiedade criada por aquilo pelo qual o outro passa durante alguns momentos ou mesmo durante muito tempo. 
O objecto específico desta preocupação é o outro preocupado consigo ou com o seu cuidado. A aflição específica que o preocupa pode permanecer indeterminada. 
O estado em que ficamos por causa do outro é fundado numa concretização específica do outro como sendo dos nossos, o outro a quem nos liga um laço estreito, com o qual temos um elo de ligação. 


sentido deste elo, desta ligação, deste laço é mais do que uma metáfora, aponta para uma determina unidade de intimidade, confiança e familiaridade, mas não aponta por si só concreta e especificamente à natureza ontológica da possibilidade de abertura ou fecho que os outros são estruturalmente aí nas nossa vidas, onde somos, durante todo o ‘enquanto’ delas. 
Esta forma de cuidado não os livra deles. Nem a nós deles. Poder-se-á libertar um outro para ser o próprio que ele é? Podemos libertar-nos a nós para outro? Podemos soltar-nos de nós, transformar a nossa indisponibilidade constitutiva para os outros e expor-nos intrinsecamente a eles? Como? 


Caeiro, António de Castro, "O acesso a outrem como si no seu Aí" in Didaskalia, xxxvii, i.227-256

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