sábado, 22 de outubro de 2011

Uma hipótese: solicitude autêntica


A disposição fundamental da tristeza do luto abre inauguralmente o mundo (“eröffnet die Welt” GA39, p. 80). O desaparecimento do outro para fora da nossa vista e das nossas vidas não acaba com a sua influência. No desaparecer ele aparece. Na recusa e interdição, na falta que faz, surge de uma forma lancinante e veemente. Não deixa apenas o rasto da sua impressão, vestígios do seu ter sido connosco, mas perfila-se no seu ser mais radical como disposição. Mas também não se dá o caso de apenas desaparecer, se recusar, nos interditar, ou deixar a sós com a nossa solidão. Os outros todos e nós existimos a desaparecer. Apenas a compreensão ontológica do sentido do ser do desaparecer inexoravelmente irreversível dá a compreender as mais diversas situações ônticas do NÃO em que se convertem para nós. Simultaneamente aprender a ser com outro implica-nos na renúncia. A tristeza do luto não é causada pela perda específica de um ente querido. É ela que de um modo latente está anonimamente a apropriar-se da relação autêntica entre dois SIS nos seus AÍs. Melhor é ela que faz eclodir o horizonte dimensional do AÍ da existência que desde sempre já tem vindo a manifestar-se a deixar de ser, a desvanecer, a desaparecer. A tristeza do luto resolve a abertura simples ao sentido do ser dos outros como aí, arranca-os da neutralização e esbatimento em que se encontram primariamente e o mais das vezes e põe-nos no seu devido lugar, desde sempre já a desaparecer. 
A tristeza é a herança simples de uma grande dor mas clara como a luz do dia (“die hellsichtige Überlegenheit der einfachen Güte eines großen Schmerzen” GA39, p. 82). Tristemente abre-se inauguralmente o que é no seu todo. Deixa e faz acontecer a abertura do que é como tal (“läßt die Offenbarkeit des Seienden geschehen” GA39, p. 82).
A possibilidade que é o outro apenas se compreende quando no limite escatológico do seu ser a desaparecer, não apenas na situação instancial do seu fim físico ou afastamento afectivo. A solicitude autêntica apenas irrompe e produz e provoca o outro no seu horizonte através de uma tal atmosfera em que os outros todos possíveis e imaginários, idos e por vir tal como os que são aí comigo através da disposição fundamental da tristeza abissal do luto. Mas o que funda na sua verdade uma tal disposição? Como terá de ser o elo de ligação radical que, ainda que anónima e latentemente, nos liga aos outros? 
A nossa metamorfose em tristeza é acompanhada de um lamento, a sua única possibilidade de expressão. “Des Herzens Liebe klagt” (“o amor do coração lamenta” GA39, p. 82). A hipótese hermenêutica indicia um amor na base do acesso ao outro. Um amor aqui infeliz, que nos deixa na tristeza profunda do luto. Retrospectivamente, compreende-se que era o que lá estava a elaborar a possibilidade autêntica de ser com o outro. A tristeza faz ver como e o que o outro é. Mas um amor não é um estado de alma, nem uma paixão que pode ou não estar efectivamente a acontecer. É o modo fundamental como, ainda que de um modo opaco somos o COM os outros. 
“Liebe ist nach alter Weisheit ein Wollen, nämlich wollen, daß das Geliebte sei, in seinem sosein, das es ist, seinem Wesen standhalte.” (“O amor é de acordo com a sabedoria antiga um querer, designadamente querer que o que se ama exista no modo como é quem é, permaneça a ser” GA39 82). 
Uma fonte de uma tal determinação pode encontrar-se num  sermão de Santo Agostinho, 27 da edição de Lambot. 
“Quod quisque amat, vult esse, an non vult esse? Puto quia, si amas filios tuos, vis illos esse; si autem illos non vis esse, non amas. Et quodcumque amas, vis ut sit, nec omnino amas quod cupis ut non sit.” (“será que alguém quer que aquilo que ama exista ou quererá que não exista? Eu suponho que se amas os teus filhos queres que eles existam; se porém não queres que eles sejam não os amas. Na verdade, o que quer que ames, tu queres que exista, de resto, de todo em todo, não amas o que desejas que não exista”)
Este amor faz ver e dá a compreender a possibilidade formal do outro. É a possibilidade radical de eu ser por mor dos outros, uma possibilidade descoberta pela minha conversão para o meu aí e restituição do outro ao seu próprio cuidado. A experiência dinâmica do cuidar doutrem autentico, do amor de outrem, é ilustrada no primeiro verso da quinta parte do hino “Germanien”, onde Hölderlin se reporta à disposição que nos abre o outro a nós ou nos faz abrir ao outro – a da tristeza. É nesse sentido que este amor corresponde a uma desformalização da solicitude, mérimna, phrontíß, cura. À forma especificamente ontológica de olhar por, e de nos preocuparmos com; um cuidado, uma forma de olhar que modifica o plano de apresentação em que os outros podem vir até nós, de tal forma que, mesmo que de modo atemático, corresponde, de facto, à possibilidade extrema de um nosso relacionamento com eles, como se pudéssemos dispensar-lhes ser, existência, na possibilidade de lhes restituirmos a liberdade de serem o que têm para ser.
Este amor de mim, o que tenho antecipado para mim que corresponde a essa estrutura do cuidado, da antecipação, diz respeito a essa movimentação que dispensa existência e sentido a um outro por mor de mim. Essa expectativa de possibilidade é isso mesmo: possibilidade concreta de outrem, mesmo quando não houvesse outros concretos. A possibilidade de ser a amar é o que desde sempre abre expectativas. Simplesmente motiva.
O que aqui está enunciado com o termo “amor” é essa estrutura esfuziante de abertura ao espaço do acontecimento do outro, mesmo quando não existe ninguém perfilado, mesmo quando somos na mais completa solidão. Independentemente de existirmos numa ausência de esperança relativamente à futuração que nos perspectiva com outros ou à futuração que mantém continuidade aos outros que existem, quando estamos numa ausência de ilusão, contudo, o que existe sempre é um sentido de ser dessa relação com antecipação, que nos ultrapassa,  portanto, que é antecipatória, que é o que desde sempre encontramos na abertura que nos leva aos outros.
É relativamente a esse corte, a essa suspensão de relacionamento com os outros na sua possibilidade, aos outros a quem dispensamos cuidado, que podemos constituir a base fenomenológica compreensiva do lugar que eles ocupam, do sentido e importância decisivos daqueles outros específicos que constituem amparo e nos amortecem a existência, sem os quais a nossa vida ficaria impossibilitada de ser reconstruída.
“O lamento não é nenhuma tendência para o passado, mas antes, um tornar fixo e permanente do aí. [sc. vida]”. O ficar apenas no passado não é nenhum amor, não é nenhuma vontade de que o que é amado exista. Apenas “A tristeza o cria e mantém”. Ou seja, a possibilidade dada pela disposição extrema do luto corresponde a qualquer coisa que não evoca apenas uma tendência para ficar no passado, mas corresponde a um projecto de futuro em que se provoca o outro no seu aí: a vida do outro no seu por ser ainda
. É nesse horizonte quase insustentável em que se compreende o aí em que somos com outros num desaparecimento maciço que se experimenta a carência absoluta que pode converter-se em solicitude autêntica através de uma verdadeira interpelação do sentido da existência de outrem aí connosco. O outro é o céu junto do qual eu quer ficar: “… doch will ich bei ihm bleiben, v. 11”. Permanecer junto deste céu: “ficar na ameaça da terra que está aí cheia de esperança” (“ausharren in der Bedrohung des Landes, das ‘voll Erwartung liegt’”, v. 6). 
“Das Trauern ist kein Nachhängen dem Vergangenen, sondern ein in-sich-fest-stehen und Bestehen des ‘da’ und Hier. Zu ursprünglich weiß der Dichter, daß das bloße Sich-an-den-Anderen-hängen keine Liebe ist, kein Wille, das das Geliebt sei. (…). [D]eshalb läßt er sie Gestorbene sein, denn ihre Flucht zerstört nicht ihr Gewesensein, sondern schafft und erhält es.” (“este ficar e permanecer é um fixar-se, um ficar do aí e aqui, de tal forma que esta disposição fundamental é experimentada numa renúncia que é criativa e produtora, em que o outro é deixado a si.” (GA 39, p. 94). Exteriormente dá a sensação que renunciar ao outro, não ficar com ele, é precisamente uma maneira inautêntica de conviver com ele. Mas renunciar é renunciar a não querer tê-lo à disposição. É oferecê-lo a si para ser a sua essência.
    
Demos outra vez a palavra a Hoelderlin:
O peregrino
Der Wanderer:
Mas onde estão eles? calado? hesitas, guarda da casa!
Também eu hesitei! contei as passadas, ao aproximar-me, 
E, como os peregrinos, parado fiquei. Mas anda, 
entra, anuncia o estranho, o filho, que eles 
Me abram os braços e a sua benção me acolha, 
que eu seja sagrado e de novo o limiar concedido me seja!
Mas já adivinho, também eles me deixaram, partiram
Pra um país santo, e nunca mais, meus queridos, voltais. 
Pai e Mãe? e se amigos vivem ainda, outros bens
Conquistaram, não me pertencem já. 
Eu chegarei, como dantes, e nomearei os nomes amados,
Conjurarei o coração se ele como dantes não bate,
Mas eles ficarão calados. Assim muitas coisas o tempo
Ata e desata. Julgam-me morto, e eu a eles.
A assim estou só. 

Dai-me, pois, até ao bordo cheia do vinho
Dos montes quentes do Reno, dai-me a taça!
Que eu beba primeiro aos Deuses e à memória dos Heróis,
Dos navegantes, e depois à vossa, meus queridos, também,
Pais e amigos! e esqueça canseira de todas as dores
Hoje e amanhã e em breve esteja entre os meus.

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