quarta-feira, 2 de maio de 2012

KANT


Kant
a) O percurso por Kant incide sobre a compreensão do projecto de uma filosofia transcendental. Partimos da compreensão tácita mas não completamente esclarecida ou compreendida da ideia segundo a qual a filosofia de Kant é transcendental. O seu tema e região de questionamento é a razão em geral. A compreensão da ideia da filosofia transcendental como uma filosofia que tem a razão como tema significa, antes de mais e à partida, compreender  possibilidade do isolamento da razão enquanto razão. Este trabalho de isolamento da razão é o terminus ad quem do movimento crítico. São as suas consequências que procurámos seguir, isto é, para já as determinações de plano da razão:- a razão pura teórica ou especulativa; a razão prática e a razão técnica. 
            Em qualquer das manifestações da razão mostra-se uma raiz comum.
Na razão teórica procura ver-se o modo como o objecto nos afecta. E um objecto afecta-nos na medida em que estiver já desde sempre aí. Afecta-nos a partir da própria intuição. "Diese findet aber nur statt, so fern uns der Gegenstand gegeben wird", e tal é possível, apenas na medidda em que um objecto "das Gemüt auf gewisse Weise affiziere", KrV, B 33/A 19. Quer dizer, mesmo no nível transcendental, aparentemente mais ínfimo, o da mera intuição, dá-se já o facto de haver uma primeira transcendência. A intuição transcende o objecto que a afecta, é-lhe sintético, como poderemos ver. Determinar este facto é já uma transcendência da experiência que terá de se legitimar. Mas o Gemüt tem de ser estudado na sua potência não apenas de ser afectado, de ser bombardeado pelos objectos, mas também de se comportar activa e espontaneamente relativamente à experiência.
O mesmo se passa na versão prática da razão: “…in einem pathologisch-affizierten Wille”, KpV., A35. Tudo quanto tem a forma do Gefühl da Lust e da Unlust é desta natureza. O plano analítico que incide sobre o horizonte prático procura “dartun, daß reine Vernunft praktisch (…) den Willen bestimmen können (…) für sich, unabhängig von allem Empirischen, Ibid., A72.
            O mesmo na faculdade de julgar o belo e o fim da natureza. No §5. da UK podemos ler que o agradável (das Angenehme) é "ein pathologisch-bedingtes (Anhreize, Stimulus)". Mas o belo, Das schöne, "ist das, was ohne Begriffe, als objekt eines allgemeinen Wohlgefallens vorgestellt wird". Quando isto acontece, "der Urteilende fühlt sich völlig frei, UK, B17". Para lá das determinações patológicas 'agradável', 'desagradável', os quais são sentimentos e, por isso, afectações patológicas, a determinação 'belo' corresponde a um ponto de vista que excede, de todo em todo, a experiência determinada de um modo meramente passivo.

b) As três críticas correspondem, assim, à ideia segundo a qual a Filosofia é o sistema do conhecimento da razão através de conceitos. Destes três movimentos críticos, privilegiámos os dois primeiros. São eles que operam a distinção entre filosofia da natureza e filosofia dos costumes, tendo, no entanto, em vista que o sistema da filosofia apenas difere. A metafísica enquanto a transcendência do campo da experiência é o ponto de vista cujo fim último está orientado para a resolução das tarefas da razão pura. Uma tal resolução é a decisão da possibilidade de responder às perguntas levantadas pela razão. (“Die Wissenschaft aber, deren Endabsicht mit allen ihren Zurüstungen eigentlich nur auf die Auflösung derselben gerichtet ist, heißt Metaphysik.”, KrV, B7, A3.) O seu dar-se traz consigo a necessidade de se constituir a decisão, krinein, do poder ou não poder da razão para a execução confiante de uma tamanha empresa (“Prüfung des Vermögens oder Unvermögens der Vernunft zueiner so großen Unternehmung,” ibid.). Podemos, portanto, ver que, se há um interesse no ideal da razão, o qual constitui uma expectativa a preencher, a de responder às perguntas que a razão levanta e pelas quais somos afectados, por outro lado, a despeito da heterogeneidade das questões, é esse mesmo interesse que lhes dá uma mesma unidade de sentido. Que nos orienta para elas. Há um mesmo fim último.

g) O tema da ideia é a totalidade absoluta das séries de condições, que excedem a situação mais ou menos imediata em que de cada vez nos encontramos. A ideia de totalidade absoluta mais problemática é a que me expõe à possibilidade problemática da esperança (Hoffnung), na medida em que uma tal ideia é não apenas absolutamente sintética relativamente às aparições e séries de aparições do mundo natural, como também é sintética relativamente ao cumprimento do meu dever e à constituição de um mundo moral. Pretendemos, agora, ver mais em detalhe esta pergunta. “A pergunta, a saber, se fizer o que devo, o que é que eu posso depois esperar? é ao mesmo tempo prática e teórica, de tal modo que o prátcio é apenas um fio condutor para a resposta à pergunta teórica, e se esta vai muito alto (a saber excede muito o campo da experiência), conduz à pergunta especulativa” (Die dritte Frage, nämlich: wenn ich nun tue, was ich soll, was darf ich alsenn hoffen? ist praktisch unnd theoretisch zugleich, so, daß das Praktische nur als ein Leitfaden zu Beantwortung der theoretishcen, und, wenn diese hoch geht, spekulativen Frage führet, KrV., B833.).
A direcção do comportamento transcendental do ter esperança (hoffen) é a da bem-aventurança (Glückseligkeit). Importa aqui não nos deixarmos levar pela linguagem teológica kantiana. A pergunta pela felicidade só pode ser entendida a partir da direcção do hoffen. Ter esperança é uma possibilidade humana que se dirige para o futuro, para um futuro possível. A possibilidade deste futuro não é, no entanto, a possibilidade de uma coisa, de uma vivência que se situa no futuro, mas antes é o próprio futuro que enquanto futuro é esperado, sendo assim o que dá abertura, o campo de clareira para todas as coisas possíveis à luz desse futuro ao qual podemos chegar e que chega desde já até nós fundado na esperança. A possibilidade de ter esperança não pode ser confundida com a possibilidade de ter esperença em coisas. Ter esperança, ser bem aventurado, ser abençoado signficar poder esperar simplesmente, estar já aí no abrir e rasgar o futuro.
Mas há uma possibilidade negativade nos relacionarmos com o futuro. Esse tipo de relacionamento com o futuro pode ser o do adiamento. O modo como se está relacionado com o futuro da eternidade no seu bloqueamento, transforma a possibilidade da espera na possibilidade do desespero. Ainda sem saber se há ou não futuro, ainda sem saber se há ou não coisas para serem vividas nesse futuro, há uma interpretação da vida que declara de todo em todo uma proscrição. A proscrição não nos veda o futuro enquanto uma dimensão que há-de ser vivida. O que ela nos declara é que de agora em diante a esperança não existe. O mundo pode muito bem continuar a ser constituído pelas suas séries naturais de aparição, há um passado, um presente e um futuro; eventualmente há um mundo moral que eu constituo em mim na minha relação com os outros,- mas não há nenhum mundo esperado. Eu existirei como coisa ou como ser moral, mas não terei um futuro feliz, um futuro fértil. A pergunta pela esperança é uma pergunta que deflagra quando o desespero é o comportamento possível com o futuro em que não terei sido o cumprimento do que eu quis. Um futuro desta ordem é o meu passado a priori.

d) É neste Entwurf e neste plano que temos que entender os problemas da razão pura. A razão projecta a vida humana na possibilidade ou impossibilidade de esperar, projecta-se assim num mundo e numa vida futuras cuja realidade e sentido podem ser apenas fantasmas vazios. Mas é à luz deste Hang que a razão desenrola, lança e se multiplica por séries de fases, situadas nas diversas formas de acontecer metafísico. É decorrente desta situação fáctica onde nos encontramos, da relação concreta com promessas e ameaças (verheißungen und Drohungen) que temos de pensar também a nossa relação com eine solche zwechmäßige Einheit. É esta zweckmäßige Einheit que torna possível o acontecimento fundamental da razão. Só assim, nesta relação fundamental com o projecto do sentido de um futuro (para o qual estamos abertos ou fechados) faz sentido interrogar a conexão entre o ponto de vista teórico e o ponto de vista prático e os respectivos temas das suas investigações na especialidade.
A situação em que nós nos encontramos, die Sinnenwelt, a partir da natureza das coisas não nos promete uma tal systematische Einheit des Zweckes, porque a sua realidade não pode ser fundada a não ser na pressuposição de um bem supremo originário, auf die Voraussetzung eines höchsten ursprünglichen Guts. A dificuldade de obtenção de um tal propósito resulta da absoluta heterogeneidade e irredutibilidade de um ente desta ordem ao mundo sensível. "A finalidade no seu grau de completude máxima, ainda que esteja para nós oculta no mundo sensível, funda, conserva e realiza a ordenação das coisas" ("vollkommensten Zweckmäßigkeit die allgemeine, obgleich in der Sinnenwelt uns sehr verborgne Ordnung der Dinge gründet behält und vollführt,  KrV, B842).
Um tal projecto tem um focus imaginarius: A função do entendimento é a de “unificar a multiplicidade no objecto através de conceitos, a da razão é a de, por sua vez, unificar o múltiplo de conceitos através de ideias, na qual ela põe como objectivo uma certa unidade colectiva das acções do entendimento." Ibid. Ela dá ao entendimento um uso regulador (“regulativer Gebrauch”), para dirigir o entendimento para certos objectivos (“um den Verstand zu einem gewissen Ziele zu richten”), ela abre “uma perspectiva em vista da qual todas as suas linhas directrizes concorrem para um único ponto. KrV, B673” (in Aussicht auf welches die Richtungslinien aller seiner Regeln in einen Punkt zusammenlaufen). Este ponto é caracterizado como um focus imaginarius (KrV, B673). É uma Idee. Este ponto não pode ser tido em vista pelo entendimento. Excede-o de todo em todo. “Está fora dos limites da experiência possível, mas serve para lhe arranjar [verschaffen] a maior unidade de todas junto à maior extensão de todas”, KrV, B673. Esta ideia é uma ilusão [Tauschung, Illusion] e ao mesmo tempo necessariamente indispensável, caso para lá dos objectos que estão diante dos nossos olhos, também queiramos simultaneamente ver aquela [unidade] que está muito afastada, atrás das nossas costas, i.e., caso também quisermos desviar o entendimento para lá de cada experiência dada, para um maior alargamento até ao que de mais extremo houver [äußerste]”, KrV, B673. O que a razão assim procura é a sistematização do conhecimento, a conexão. “A unidade da razção pressupõe sempre uma ideia, a da forma de um todo do conhecimento, a qual precede todas as partes determinadas de um conhecimento e contem as condições que permitem determinar a priori para cada parte a sua posição e o seu relacionamento com as restantes. KrV, B674.” Esta unidade é uma unidade projectada, projektierte Einheit, b 675.


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