quarta-feira, 21 de março de 2018

QE, Arist. EN, VI, i-vi. quinta-feira, 22 de Março, 2018. Textos

I
Depois de termos já dito, primeiramente, que se deve escolher
o meio, e não o excesso nem o defeito, e que o meio, por sua vez,
é tal como indica o sentido orientador, chegou agora a altura de
o analisarmos.


Há para todas as disposições do carácter referidas, tal como para
todas as excelências, um determinado objectivo em vista do qual
quem dispõe de um sentido orientador aumenta ou diminui a tensão
nessa direcção. Há também um certo horizonte que delimita as posições
intermédias, as quais, dissemos, residem no espaço intermédio
entre o excesso e o defeito, uma vez que elas existem conformadas
pelo sentido orientador.


Mas, se falar assim, é verdade, por outro lado,
não é nada claro. Pois, não menos falamos verdade, quando dizemos,
a respeito das restantes preocupações humanas, que podem
ser tratadas cientificamente, que não devemos aumentar a tensão ou
relaxá-la, nem mais nem menos do que é devido, mas que devemos
proceder em conformidade às disposições do meio e tal como as
prescreve o sentido orientador. Contudo, quem souber disto, não está
na posse de um saber por aí além, acerca do que quer que seja,
pois não saberia, por exemplo, aplicar nenhuma espécie de tratamento
ao corpo humano, só pelo facto de alguém dizer que se deve
aplicar toda a espécie de tratamentos de acordo com o que prescreve
a medicina e o que nela é perito. É por este motivo que também
a respeito das disposições da alma humana não devemos contentar-
-nos apenas com o facto de este enunciado ser verdadeiro, mas temos
também de obter uma definição do que é ou do que pode ser
o sentido orientador e qual é o horizonte a que ele se aplica.


Distinguimos já as excelências da alma humana e dissemos que
umas eram disposições éticas e outras disposições teóricas.
Ora nós já discutimos as excelências do carácter. Passaremos agora
então a discutir as teóricas, mas não sem antes tecermos algumas
considerações acerca da alma humana.
Foi, pois, dito primeiramente que há duas dimensões na alma
humana: uma é capaz de razão, a outra é incapacitante de razão.
Por sua vez, a dimensão capaz de razão tem de ser também distinguida,
do mesmo modo, em duas partes. Admitamos, por isso, que
a alma enquanto capaz de razão é dupla. Uma é aquela com a qual
consideramos teoricamente todos aqueles entes com princípios que
não podem ser de outra maneira. A outra é aquela com a qual consideramos
aqueles entes com princípios que podem ser de outra
maneira. Se o modo específico do acesso dessas dimensões da alma
tem uma certa semelhança e uma determinada afinidade com os
entes com os quais se relacionam, então as formas de acesso de cada
uma destas partes serão diferentes, porquanto a formas diferentes
de acesso correspondem diferentes géneros de ser.




Enunciemos cada um destes géneros: um corresponde à possibilidade
de formação de ponto de vista científico; outro, à possibilidade
de cálculo, ou seja, mais propriamente à possibilidade de deliberar
e de calcular. Na verdade, ninguém delibera acerca daquilo
que não pode ser de outra maneira. Assim, a possibilidade de cálculo
inere numa parte da dimensão da alma que é capaz de razão.
Temos, portanto, de determinar qual é a melhor disposição destas
duas partes da dimensão da alma que é capaz de razão, porque
será essa disposição que poderá chegar à excelência em cada uma
delas. Ora a excelência de cada ente é definida em vista da sua função
específica.

II
Há três operações na alma que determinam de modo predominante
a acção e o descobrimento da verdade161 , sc.  a percepção,
o poder de compreensão e a intenção. Destas três, a percepção nunca
é origem de nenhuma acção, o que é evidente pelo facto de os
animais, embora tenham percepção, não tomarem parte na acção.
O que, por um lado, no pensamento puro é afirmação e negação,
é, por outro, no horizonte da intenção, perseguição e fuga. Assim,
uma vez que a excelência do carácter é uma disposição que decide
e a decisão é uma intenção deliberada, segue-se que, no caso
de se tratar de uma decisão séria, o princípio de decisão terá de ser
verdadeiro e a intenção correcta. O que o princípio afirma terá,
portanto, de ser o mesmo que é perseguido pela intenção. A forma
do pensamento aqui em causa é, assim, prática e esta verdade diz
respeito à acção. O pensamento teórico, que não visa a acção nem
a produção, é executado de uma forma correcta ou de uma forma
incorrecta, respectivamente, conforme detecta a verdade ou se envolve
em falsidade. Porque esta é, em geral, a função de todo
o pensamento.


Contudo a função do pensamento prático é mais
propriamente a de obter a verdade que corresponde à intenção correcta.
O princípio da acção é a decisão (isto é, enquanto origem da
motivação, não enquanto fim em vista); por outro lado, o princípio
da decisão é a intenção e um cálculo dirigido para um objectivo
final. Por esta razão, não há decisão sem o poder de compreensão,
nem sem processo compreensivo, nem, finalmente, sem a disposição
do carácter. Na verdade, agir bem e o seu contrário não existem na
acção sem o pensamento teórico nem sem a disposição ética.
O próprio pensamento só por si, não põe nada em movimento:
apenas quando se dirige para um determinado fim numa determinada
acção. É assim também que actua o pensamento produtor,
porquanto o produtor de algo tem um determinado fim em vista.
É que o produzir como tal não é nenhum fim em si mesmo (mas algo
relativo a algo e formador de algo). Por outro lado, já o agir, e,
na verdade, o agir bem, é um fim em si mesmo, e a intenção é o
princípio da mudança específica que vai na sua direcção. Por isso,
a decisão é uma compreensão intencional ou uma intenção compreensiva.
Neste sentido, o princípio (da acção) é o Humano.
Nada do que já aconteceu poderá, contudo, ser ainda objecto
de decisão. Ninguém pode ainda decidir se Tróia terá sido destruída.
Assim, ninguém delibera acerca do que já aconteceu mas sobre
o futuro e o que é possível. Ora já não é possível que o que sucedeu
não tenha sucedido. Por esse motivo, diz Agatão163  correctamente:
Apenas disto até um Deus está privado de desfazer o que tiver sido
feito.
 A desocultação da verdade é, pois, a função de ambas as partes
da dimensão da alma humana capaz de razão. As suas respectivas
excelências são aquelas disposições de acordo com as quais se põe,
em cada caso, a verdade a descoberto da melhor maneira possível.



III
Comecemos, então, pelo princípio e analisemos as operações da
alma envolvidas na descoberta da verdade, afirmando ou negando.
São cinco em número: a perícia, o conhecimento científico, a sensatez,
a sabedoria164  e o poder da compreensão [intuitiva]. De outra
parte, tanto a mera suposição quanto a opinião podem envolver-
-nos em falsidade. Ora aquilo que é o conhecimento científico torna-
se claro quando é necessária uma expressão rigorosa dos fenómenos
e não basta um mero acompanhamento das semelhanças.




IV
Daquilo que pode ser de outra maneira distingue-se o que é produtível
e o que é realizável pela acção. A produção167  é diferente da
acção (damos aqui crédito ao que se disse acerca destas disposições
nos escritos que já vieram a lume). Assim, a disposição prática conformada
por um princípio racional é diferente da disposição produtora
conformada por um princípio racional. Assim, nenhuma das
duas é envolvida pela outra, porque nem a acção é produção nem a
produção é acção. Uma vez que a construção civil é uma certa perícia,
pode dizer-se que é uma certa disposição produtora conformada
por um princípio racional. Como não há nenhuma perícia que
não seja também ela uma disposição produtora conformada por
um princípio racional, nem há sequer nenhuma disposição deste género
que não seja ela própria uma perícia, segue-se que uma perícia
é o mesmo que uma disposição produtora segundo um princípio
verdadeiro. Por outro lado, toda a perícia tem em vista trazer algo
à existência168 . Produzir com perícia significa ver como se pode
produzir alguma das coisas que podem ser ou não ser. O seu princípio
originador radica no elemento produtor e não na coisa que
é produzida. Pois, na verdade, não há nenhuma perícia que se aplique
aos entes que são ou vêm a ser por uma necessidade intrínseca
nem aos entes que existem por natureza. De facto, estes últimos
têm o princípio da sua origem em si próprios. Ora, uma vez que
a produção é diferente da acção, é necessário que haja uma perícia
da produção, mas não da acção. De algum modo também o acaso
e a perícia dizem respeito às mesmas regiões do ser, tal como até
Agatão diz: «A perícia gosta do acaso e o acaso da perícia.»169
A perícia é, então, tal como foi dito, uma certa disposição produtora
conformada por um princípio verdadeiro. Mas a falta de perícia,
por outro lado, não deixa também de ser uma disposição produtora,
embora conformada por um princípio falso. Ambas,
contudo, têm como âmbito de aplicação o que pode ser de outra
maneira.


V
Poderemos, assim, determinar melhor o que é a sensatez se considerarmos
aqueles que nós dizemos serem sensatos. Parece ser sensato
aquele que tem o poder de deliberar correctamente acerca das
coisas que são boas e vantajosas para si próprio, não de um modo
particular, como, por exemplo, acerca daquelas coisas que são boas
em vista do restabelecimento da saúde, ou da obtenção de vigor físico,
mas de todas aquelas qualidades que dizem respeito ao viver
bem em geral. Uma indiciação disto é dada pelo facto de, ao falarmos
daqueles que são sensatos, dizermos que são capazes de calcular
de modo correcto a forma de chegarem a obter um certo objectivo
final sério, fim este que não se encontra entre os produtos de
qualquer perícia.


Assim, aquele que delibera é alguém absolutamente sensato.
Porque ninguém delibera acerca daqueles entes que não podem
nunca ser de outra maneira, nem acerca daquelas coisas sobre as
quais não tem o poder de agir. Assim, se o conhecimento científico
é capaz de demonstração e se, por outro lado, não há demonstração
dos princípios daqueles entes que podem ser de outra maneira
(precisamente porque neste horizonte toda a alteração é admissível),
e se, finalmente, não é possível deliberar-se acerca daqueles
entes que existem por uma necessidade intrínseca, então, a sensatez
não pode ser nem um conhecimento científico, nem uma perícia.
Em primeiro lugar, não pode ser conhecimento científico porque
o que acontece no horizonte da acção pode ser sempre de outra
maneira. Em segundo lugar, não pode ser uma perícia porque o género
da acção é diferente do género da produção. Resta, então, que
a sensatez seja uma disposição prática de acordo com o sentido
orientador e verdadeiro em vista do bem e do mal para o Humano.
O fim da produção é diferente da produção do fim; mas o fim da
acção não poderá ser diferente da própria acção. Na verdade
o próprio agir bem é um objectivo final.


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