terça-feira, 6 de novembro de 2018

Filosofia Antiga. Handout. Sessões de 5 e 7 de Novembro.

Anaximand.

(1)   SIMPLIC. Phys. 24, 13 [vgl. A 9] . ... ἀρχὴν .... εἴρηκε
τῶν ὄντων τὸ ἄπειρον .... ἐξ ὧν δὲ  γένεσίς ἐστι τοῖς
οὖσικαὶ τὴν φθορὰν εἰς ταῦτα γίνεσθαι κατὰ τὸ 
χρεών· διδόναι γὰρ αὐτὰ δίκην καὶ τίσιν ἀλλήλοις τῆς 
ἀδικίας κατὰ τὴν τοῦ χρόνου τάξιν.   (5)

95e-97b
Durante algum tempo Sócrates manteve-se calado, como se
refletisse a sós consigo. Depois continuou: aquilo de que estás à procura,
Cebes, não é despiciendo; precisaremos investigar a fundo o fundamento (ατία)do vir a ser e do deixar de ser. Se te apetecer, vou contar-te o que se passou comigo
a esse respeito. Depois, se achares que o que eu disser tem alguma utilidade para
reforçar a tua tese, podes utilizá-lo como bem entenderes.

Então, ouve o que passo a relatar-te. O facto, Cebes, é que, quando eu era jovem, sentia-me tomado do desejo irresistível de adquirir o conhecimento a que dão o nome investigação da natureza (physeôs historia). Afigurava-se-me, realmente, maravilhoso conhecer a causa de tudo, o porquê do nascimento e da morte de cada coisa, e a razão de existirem. Vezes sem conta me punha a refletir em todos os sentidos, inicialmente a respeito de questões como a seguinte: Será que é quando o calor e o frio passam por uma espécie de fermentação, conforme alguns afirmam, os animais se formam? É por meio do sangue que pensamos? Ou do ar? Ou do fogo? Ou nada disso estará certo, vindo a ser o cérebro que dá origem às sensações (aisthêseis) do ouvir (akouein), do ver (horân) e do cheirar (osphrainesthai), das quais surgiria a memória (mnêmê) e a opinião (docsa), e, da memória e da opinião, uma vez, tornadas calmas, nasceria o conhecimento (epistêmê)? 

De seguida, ocupei-me do modo como as coisas se encontram a deixar de ser e a perecer (pthorai) e com as modificações (pathê) do céu e da terra, para chegar à conclusão de que nada de proveitoso se tirava de minha inaptidão para um exame (skepsis) dessa natureza. 

Vou dar-te uma prova suficiente disso mesmo. É que eu, a respeito daquelas coisas que anteriormente conhecia (êpistamên) claramente (saphôs) tal como me pareciam ser, a mim e a todas as outras pessoas, fiquei, por causa deste tipo de exame (skepsis), cego a tal ponto que cheguei a desaprender (apemathon) também aquelas coisas que eu antes achava saber (ôimên eidenai), entre outras, por exemplo, por que o homem cresce [aumenta de volume].

Até então, eu achava ser evidente para toda gente que o homem crescia porque come e bebe; pois quando, pela alimentação, a carne se junta à carne e o osso ao osso, e, sempre de acordo com o mesmo processo, as demais partes do corpo são acrescidas de elementos afins, a massa que antes era pequena torna-se volumosa, de onde resulta que o ser humano de pequeno se torna grande. Era assim que eu pensava. Não te parece razoável?


Examina, também, o seguinte: Sempre considerei suficiente, quando alguém parecia alto ao lado de outra pessoa de pequena estatura, dizer que a ultrapassava de uma cabeça, o mesmo acontecendo com um cavalo em confronto com o outro. Mais claramente, ainda: o número dez afigurava-se-me maior do que o número oito porque 10 tem mais 2 números juntos do que 8, como o cúbito duplo seria maior do que o simples por ultrapassá-lo de metade. 




E agora, perguntou Cebes, como te parece? Como estou longe, por Zeus, continuou, de imaginar que conheço a causa de tudo isso! Pois nunca chego a compreender, no caso de acrescentar uma unidade a outra, se é a unidade a que esta última foi acrescentada que se tornou duas, ou se foi a acrescentada, juntamente com a primeira, que ficaram duas, pelo facto de uma ter sido acrescentada à outra. Não podia entender que, estando separadas, cada uma era uma unidade, não duas, e que o facto de ficarem juntas foi a causa de se tornarem duas, a saber, por terem sido postas lado a lado. Do mesmo modo, não conseguia convencer-me de ser essa a causa de tornar-se duas a unidade, a saber: a divisão. Seria precisamente o oposto do que antes nos dava duas unidades: naquela ocasião, foi isso conseguido por se aproximarem as duas e ficarem lado a lado; agora, porém, a causa foi a separação e o afastamento delas duas. Assim, também, não acredito saber como se gera a unidade, nem, para dizer tudo, como nasce ou morre ou existe seja o que for, a aceitarmos o princípio desse método. 

Πόρρω πουφην Δία μ εναι το οεσθαι περ 
τούτων του τν ατίαν εδέναις γε οκ ποδέχομαι μαυτο
οδ ς πειδν νί τις προσθ ν τ ν  προσετέθη
δύο γέγονεν
< τ προστεθέν> τ προστεθν κα  προσ- 
ετέθη δι
 τν πρόσθεσιν το τέρου τ τέρ δύο γένετο· 
θαυμάζω γρ ε τε μν κάτερον ατν χωρς λλήλων
νν ρα κάτερον ν κα οκ στην τότε δύοπε δ’ @1 
πλησίασαν λλήλοιςατη ρα ατία ατος γένετο το δύο
γενέσθαι
 σύνοδος το πλησίον λλήλων τεθναιοδέ    
γε 
ς άν τις ν διασχίσδύναμαι τι πείθεσθαι ς ατη
α
 ατία γέγονεν σχίσιςτο δύο γεγονέναι· ναντία γρ 
γίγνεται 
 τότε ατία το δύο γίγνεσθαιτότε μν γρ τι 
συνήγετο πλησίον 
λλήλων κα προσετίθετο τερον τέρ
νν δ’ τι πάγεται κα χωρίζεται τερον φ’ τέρουοδέ 
γε δι’ 
τι ν γίγνεται ς πίσταμαιτι πείθω μαυτόν,
ο
δ’ λλο οδν ν λόγ δι’ τι γίγνεται  πόλλυται     
στικατ τοτον τν τρόπον τς μεθόδουλλά τιν’ λλον 
τρόπον α
τς εκ φύρωτοτον δ οδαμ προσίεμαι.


Ao ouvir, porém, certa vez alguém ler num livro de Anaxágoras - segundo dizia - que a mente (nous) é organizadora e causa de tudo, fiquei satisfeitíssimo com semelhante causa, por parecer-me de algum modo, muito certo que a mente fosse a causa de tudo, tendo pensado que, a ser assim mesmo, como coordenadora do Universo, a mente disporia cada coisa particular pelo melhor modo possível. Se alguém quisesse explicar a causa de como alguma coisa nasce ou morre ou existe, teria apenas de descobrir qual é a melhor maneira para ela de existir, sofrer ou produzir seja o que for. Segundo esse critério, só o que importa ao homem examinar, tanto em relação a si mesmo como a tudo o mais, é o modo melhor de todos (to ariston) e o mais excelente (to beltiston). Desse jeito, ficaria necessariamente a saber o que é pior, porque ambos (o bo0m e o mau, o melhor e o pior, o óptimo e o péssimo) serem objeto do mesmo conhecimento (epistêmê). 

Ao reflectir nisto, alegrei-me ao pensar que havia encontrado em Anaxágoras um professor da causa dos entes de acordo com o meu entender, que começaria por dizer-me se a Terra é chata ou redonda, e depois me explicaria a causa e a necessidade dessa forma, recorrendo sempre ao princípio do melhor, com demonstrar que para a Terra era melhor mesmo ser assim. No caso de dizer que a Terra se encontra no centro, explicaria porque motivo é melhor para ela ficar no centro.
πεκδιηγήσεσθαι τν ατίαν κα τν νάγκηνλέγοντα τ μεινον κα τι ατν μεινον
ν τοιαύτην εναι

Se ele me demonstrasse esse ponto, decidir-me-ia, de uma vez por todas, a não procurar outra espécie de causa (aitias allo eidos). O mesmo faria com relação ao Sol, à Lua, e aos outros astros, no que diz respeito à sua velocidade relativa, o ponto de conversão e demais acidentes a que estão sujeitos, bem como a razão de ser melhor para cada um deles fazer o que fazem ou sofrer o que sofrem. 
π ποτε τατ’ μεινόν στιν καστονκα ποιεν κα πάσχειν  πάσχει


Nem sequer por um único momento podia admitir que, depois de afirmar que tudo está ordenado pela mente, indicasse outra causa que não a de ser melhor para tudo proceder como procedem. Ao atribuir uma causa particular a cada coisa e ao
conjunto, estava certo de que no mesmo ponto demonstraria o que para cada um
era melhor e em que consistia para todos o bem comum. 
ο γρ ν ποτε ατνμηνφάσκοντά γε π νο ατ κεκοσμσθαιλλην τινατος ατίαν πενεγκεν  τι βέλτιστον ατ οτως χεινστν σπερ χει· κάστ ον ατν ποδιδόντα τν ατίανκα κοιν πσι τ κάστ βέλτιστον μην κα τ κοιννπσιν πεκδιηγήσεσθαι γαθόν· 



Não demorei, companheiro, a cair do alto dessa maravilhosa expectativa, ao prosseguir na leitura e verificar que o nosso homem não recorria à mente para nada, nem a qualquer outra causa para a explicação da ordem natural das coisas, senão só o ar, ao éter, à água, e uma infinidade mais de causas extravagantes. Quis parecer-me que com ele acontecia como com quem começasse por declarar que tudo o que Sócrates faz é determinado pela inteligência, para depois, ao tentar apresentar a causa de cada um dos meus atos, afirmar, de início, que a razão de me encontrar sentado agora neste lugar é ter o corpo composto de ossos e músculos, por serem os ossos duros e separados uns dos outros pelas articulações, e os músculos de tal modo constituídos que podem contrair-se ou relaxar-se, e por cobrirem os ossos, juntamente com a carne e a pele que os envolvem. Sendo móveis os ossos em suas articulações, pela contração ou relaxamento dos músculos fico em condições de dobrar neste momento os membros, razão de estar agora sentado aqui com as pernas flectidas. 



ρ νδρα τ μν ν
οδν χρώμενον οδέ τινας ατίας παιτιώμενον ες τ 
(c) διακοσμεν τ πράγματαέρας δ κα αθέρας κα δατα
α
τιώμενον κα λλα πολλ κα τοπακαί μοι δοξεν 
μοιότατον πεπονθέναι σπερ ν ε τις λέγων τι Σωκράτης
πάντα 
σα πράττει ν πράττεικπειτα πιχειρήσας λέγειν
τ
ς ατίας κάστων ν πράττωλέγοι πρτον μν τι δι   (5)
τατα νν νθάδε κάθημαιτι σύγκειταί μου τ σμα ξ
στν κα νεύρωνκα τ μν στ στιν στερε κα
διαφυς χει χωρς π’ λλήλωντ δ νερα οα πι- 
(d) τείνεσθαι κα
 νίεσθαιπεριαμπέχοντα τ στ μετ τν
σαρκ
ν κα δέρματος  συνέχει ατά· αωρουμένων ον τν
στν ν τας ατν συμβολας χαλντα κα συντείνοντα @1
τ
 νερα κάμπτεσθαί που ποιε οόν τ’ εναι μ νν τ
μέληκα δι ταύτην τν ατίαν συγκαμφθες νθάδε κά-    (5)
θημαι
· 

κα α περ το διαλέγεσθαι μν τέρας τοιαύτας
α
τίας λέγοιφωνάς τε κα έρας κα κος κα λλα μυρία 
(e) τοια
τα ατιώμενοςμελήσας τς ς ληθς ατίας λέγειν
τιπειδ θηναίοις δοξε βέλτιον εναι μο καταψη-
φίσασθαιδι
 τατα δ κα μο βέλτιον α δέδοκται νθάδε 
καθ
σθαικα δικαιότερον παραμένοντα πέχειν τν δίκην 
ν ν κελεύσωσιν· πε ν τν κύνας γμαιπάλαι ν    (5)
99.
(a) τατα τ νερα κα τ στ  περ Μέγαρα  Βοιωτος ν
π δόξης φερόμενα το βελτίστουε μ δικαιότερον μην
κα
 κάλλιον εναι πρ το φεύγειν τε κα ποδιδράσκειν
πέχειν τ πόλει δίκην ντιν’ ν τάττλλ’ ατια μν
τ
 τοιατα καλεν λίαν τοπον· ε δέ τις λέγοι τι νευ   (5)
το
 τ τοιατα χειν κα στ κα νερα κα σα λλα χω 
ο
κ ν οός τ’  ποιεν τ δόξαντά μοιληθ ν λέγοι· ς
μέντοι δι
 τατα ποι  ποικα τατα ν πράττωνλλ’ ο 
(b) τ το βελτίστου αρέσειπολλ ν κα μακρ ῥᾳθυμία εη
το
 λόγου

A mesma coisa se daria, se a respeito de nossa conversação indicasse como causa a voz, o ar, os sons, e mil outras particularidades do mesmo tipo, porém se esquecesse de mencionar as verdadeiras causas, a saber: pelo fato de haverem acordado os Atenienses em condenar-me, pareceu-me, também, melhor ficar sentado aqui, e mais justo submeter-se neste local à pena cominada. Sim, é isso, pelo cão! Pois de muito, quero crer, este músculos e estes ossos estariam em Mégara ou entre o Beócios, movidos pela ideia do melhor, se não me parecesse muito mais justo e belo, em vez de evadir-me e fugir, submeterem  à pena que a cidade me impusera. É o cúmulo do absurdo dar o nome de causa a semelhantes coisas. Se alguém dissesse que sem ossos e músculos e tudo o mais que tenho no corpo eu não seria capaz de pôr em prática nenhuma resolução, só falaria verdade. 




τ γρ μ διελέσθαι οόν τ’ εναι τι λλο μέν 
τί στι τ ατιον τ ντιλλο δ κενο νευ ο τ ατιον
ο
κ ν ποτ’ εη ατιον·
Porém afirmar que é por causa disso que eu faço o que eu faço, e que, assim procedendo, me valho da inteligência, porém não em virtude da escolha do melhor, é levar ao extremo a imprecisão da linguagem e revelar-se incapaz de compreender que uma coisa é a verdadeira causa, e outra, muito diferente, aquilo que sem o qual a causa jamais poderá ser causa. 


A meu parecer, é justamente isso o que faz a maioria dos homens, como que a tatear nas trevas, empregando um termo impróprio e o designando como causa. Daí, envolver um deles a Terra num turbilhão e deixá-la imóvel debaixo do céu, enquanto outro a concebe à maneira de uma gamela larga, que tem como suporte o ar. Quanto à potência que determinou a atual disposição das coisas pela melhor maneira, nem a procuram nem concebem que seja dotada de algum poder superior, por se julgarem capazes de encontrar algum Atlante mais forte e mais imortal do que ela, para manter coeso o conjunto das coisas. Mas que o bem, de fato, e a necessidade abarquem e liguem todas as coisas, é o que não admitem de nenhum modo. De minha parte, para ficar sabendo como atua semelhante causa, de muito bom grado me faria discípulo de quem quer que fosse. Mas, uma vez que não a conheço nem me acho em condições de a descobrir por mim próprio nem de aprender com outros o que ela seja: queres que te faça uma descrição completa, Cebes, de como empreendi o segundo roteiro de navegação para a investigação da causa? Não há o que eu mais deseje, respondeu.




O BELO
Então, já não compreendo, continuou, as outras causas, de pura erudição,
nem consigo explicá-las. E se, para justificar a beleza de alguma coisa, alguém
me falar de sua cor brilhante, ou da forma, ou do que quer que seja, deixo tudo o
mais de lado, que só contribui para atrapalhar-me, e me atenho única e
simplesmente, talvez mesmo com uma boa dose de ingenuidade, ao meu ponto
de vista, a saber, que nada mais a deixa bela senão tão só a presença ou
comunicação daquela beleza em sim, qualquer que seja o meio ou caminho de
se lhe acrescentar. De tudo o mais não faço grande cabedal; o que digo é que é
pela beleza em si que as coisas belas são belas. Na minha opinião, essa é a
maneira mais certa de responder, tanto a mim mesmo como aos outros.
Firmando-me nessa posição, tenho certeza de não vir a cair e de que tanto eu
como qualquer pessoa em idênticas circunstâncias poderá responder com
segurança que é pela beleza que as coisas belas são belas. Não te parece?


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