sexta-feira, 6 de abril de 2018

Questões de Ética, quinta-feira, 5 de Abril, 2018: 18h00-21h00. Textos em análise

       21.1 DL 7.84 (SVF 3.1; LS 56A)
       Dividem [sc.: os estoicos] a parte Ética nos seguintes tópicos sobre o impulso (hormê) e sobre o que diz respeito às coisas boas e más (peri agathôn kai kakôn), sobre as paixões (peri pathôn), sobre a excelência (peri aretês) sobre a finalidade (peri telous) e sobre o valor primeiro (peri prôtês axias), sobre as acções (peri tôn praxeôn) sobre os actos devidos (peri tôn kathêkontôn) e sobre as exortações e dissuasões (protropôn te kai apotropôn).
           
            21.2 Epicteto, Diss. 3.2.1-5 (LS 56C)
       São três os tópicos a respeito dos quais deve ser exercitado aquele que está para ser glorioso e nobre (askêthênai dei ton esomenon kalon kai agathon): o que diz respeito aos desejos e aversões (orexeis kai ekkliseis), para que estando de desejos não falhe a obtenção do que deseja (mêt’ oregomenos apotunkhanêi) e sentindo aversão não caia naquilo que procura evitar (mêt’ ekklinôn peripiptêi). O que respeita as impulsões e as repulsões (hormai kai aphormai) e o que diz simplesmente respeito ao acto que é devido (kathêkon), para que aja com ordenação, com razoabilidade e não de modo descuidado. O terceiro é sobre a ausência de erro e a imponderabilidade e em geral o que diz respeito aos assentimentos (sunkatatheseis). O mais importante de todos os tópicos e o que exerce mais pressão diz respeito às paixões (pathê). Porquanto a paixão só nasce quando não se encontra aquilo que se deseja e cai precisamente naquilo que se quer evitar. É isto que provoca perturbações, confusões, azares, infelicidades, é a paixão que faz crescer em nós lamentos, gemidos, invejas, faz de nós invejosos e zelosos, é por causa das paixões que não somos sequer capazes de escutar a voz da razão. O segundo ponto diz respeito ao acto devido (kathêkon). Com efeito eu não devo ser impassível (desprovido de paixão: apathês) como uma estátua, mas devo preservar as relações tanto naturais como adquiridas como homem piedoso, como filho, como irmão, como pai, como cidadão. O terceiro diz respeito àqueles que estão já avançados [no exercício da ética] e relaciona-se com a sua segurança para que nem nos sonhos lhes ocorra despercebidamente uma impressão (phantasia) que fique sem ser examinada (anexestatos), nem na embriaguez nem num surto de melancolia.
       21.4 Séneca, Ep. 89. 14-15 (LS 56B)
       [14] Portanto, já que a filosofia tem três partes, comecemos por dispor, em primeiro lugar, a parte moral. Esta pareceu-lhes bem que fosse dividida também em três partes. Assim, a primeira parte é um exame que visa distribuir por cada um o que é seu e estimar quanto e o que é que cada coisa tem de valor, um exame utilíssimo, pois o que há de mais necessário do que dar o preço a cada coisa? A segunda parte diz respeito à impulsão (de impetu), a terceira diz respeito às acções. A primeira parte é, então, para que julgues quanto vale cada coisa e a sua importância (quidque sit), a segunda para que captes um impulso na direção de cada coisa que seja ordenado e moderado. A terceira parte para que haja concordância (conveniat) entre o teu impulso e a acção, para que em todas estas situações estejas de acordo contigo próprio (tibi ipse consentias). [15] A falta de alguma destas partes perturba o conjunto. Qual é a vantagem de ter todas as coisas estimadas se o teu impulso é excessivo? Qual é a vantagem de reprimir um impulso e ter os desejos em seu poder, se na própria acção ignorares as oportunidades, e não souberes quando ou o quê ou onde ou de que modo se deve agir (tempora ignores ne scias quando quidque et ubi et quemadmodum agi debeat)? Uma coisa é conhecer as dignidades e o preço das coisas, outra conhecer os momentos, outra saber refrear os impulsos e caminhar até ao que deve ser feito, mas não precipitar-se nessa direcção. Nessa altura, então  a vida estará de acordo consigo quando a acção não deixou de lado o impulso e o impulso foi concebido a partir da dignidade de qualquer coisa, do mesmo modo o impulso é mais lasso ou mais tenso consoante a coisa é digna de ser procurada.
       Hierocles, FE
       Afirmam que o animal dirige o primeiro impulso em direcção da própria conservação, porque a natureza o familiariza consigo mesmo desde o princípio, como diz Crísipo no livro I sobre os fins, quando sustente que a sua própria constituição e a sua consciência dela é o primeiro familiar a todo o animal. Não é verosímil, com efeito, que a natureza fizesse o animal estranho a si mesmo nem que, tendo-o produzido, não o tenha feito estranho nem familiar a si mesmo. […] Deste modo, afasta-se das coisas que lhe trazem dano e são desvantajosas e aproxima-se das que lhe são familiares. […] Como foi acrescentado aos animais o impulso, de que fazem uso para se dirigirem para o que lhes é familiar, para eles o que é conforme à natureza é ser administrado de acordo com o impulso. E uma vez que a razão foi dada aos seres racionais como o governante mais perfeito, viver segundo a razão correctamente é para eles o que é viver segundo a natureza, pois a razão sobrevém como artesã do impulso.
        (85)   Τὴν δὲ πρώτην ὁρμήν φασι τὸ ζῷον ἴσχειν ἐπὶ τὸ τηρεῖν
ἑαυτό, οἰκειούσης αὐτὸ τῆς φύσεως ἀπ’ ἀρχῆς, πρῶτον οἰκεῖον λέγων
εἶναι παντὶ ζῴῳ τὴν αὑτοῦ σύστασιν καὶ τὴν ταύτης συνείδησιν·
οὔτε γὰρ ἀλλοτριῶσαι εἰκὸς ἦν αὐτὸ <αὑτῷ> τὸ ζῷον, οὔτε ποιή-   (5)
σασαν αὐτό, μήτ’ ἀλλοτριῶσαι μήτ’ [οὐκ] οἰκειῶσαι. ἀπολείπεται
τοίνυν λέγειν συστησαμένην αὐτὸ οἰκειῶσαι πρὸς ἑαυτό· οὕτω γὰρ
τά τε βλάπτοντα διωθεῖται καὶ τὰ οἰκεῖα προσίεται. […] ἐκ
περιττοῦ δὲ τῆς ὁρμῆς τοῖς ζῴοις ἐπιγενομένης, ᾗ συγχρώμενα
πορεύεται πρὸς τὰ οἰκεῖα, τούτοις μὲν τὸ κατὰ φύσιν τῷ κατὰ τὴν
ὁρμὴν διοικεῖσθαι· τοῦ δὲ λόγου τοῖς λογικοῖς κατὰ τελειοτέραν
προστασίαν δεδομένου, τὸ κατὰ λόγον ζῆν ὀρθῶς γίνεσθαι   (10)
<τού>τοις κατὰ φύσιν· τεχνίτης γὰρ οὗτος ἐπιγίνεται τῆς ὁρμῆς.
       22.2 Cícero, De fin 3.16-19
       quando nasce o animal sente apego por si mesmo e uma inclinação não apenas para a sua própria conservação mas também para a sua própria condição e para aquelas coisas que conservam a sua própria condição. E, pelo contrário, sente estranheza por tudo o que do destrói ou por tudo aquilo que parece trazer destruição.  […] Sentimos estima por aquelas coisas que foram adoptadas  como prioritárias por natureza o facto de que não há ninguém que, tendo a possibilidade de escolher, não prefira ter todas as partes do seu corpo bem formadas e íntegras em vez de as ter diminuídas ou deformadas ainda que possa utilizá-las.
       simulatque natum sit animal ipsum sibi conciliari et commendari ad se conservandum et ad suum statum eaque, quae conservantia sint eius status, diligenda, alienari autem ab interitu iisque rebus, quae interitum videantur adferre. […] fieri autem non posset ut appeterent aliquid, nisi sensum haberent sui eoque se diligerent. ex quo intellegi debet principium ductum esse a se diligendo.
       22.4 Séneca, Ep. 121.5-21; 23-24
       Pois o homem sente estima por si mesmo a respeito daquela parte pela qual é homem. Então, como é possível que um bebé sinta apego à sua constituição racional se não é racional? Cada idade tem a sua própria constituição: uma coisa é o caso do bebé outra a da criança, outra a do adolescente, outra a do velho: todos eles sentem apego pela própria constituição em que se encontram. […] Os períodos da primeira infância, da infância, a adolescência e a velhice são muito diferentes. Eu fui um bebê, um menino e um adolescente sou o mesmo. Assim, ainda que cada um de mim tem a sua constituição diferente, em momentos diferentes, o apego à sua própria constituição que é a sua no momento em que é bebé não a terá quando for jovem. […] Eu ocupo-me do meu próprio cuidado. Evito a dor por respeito a quem? A mim mesmo. Ocupo-me, portanto, do meu próprio cuidado. Se levo a cabo todos os meus actos pelo meu próprio cuidado, estou a ocupar-me de mim antes de tudo o mais. […] E uma vez que todo o cuidado é pelo que está mais próximo, qualquer pessoa está confiada a si mesma. [...] Portanto, mesmo os animais jovens, quando saem do útero da mãe ou do ovo, familiarizam-se de imediato com o que lhes é hostil e evitam o que é letal. […] Não depende da experiência e não é pela prática que alcançaram o estado em que se encontram, mas devido a um desejo natural de auto-conservação.


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