terça-feira, 2 de outubro de 2018

Filosofia Antiga. Handout. 6ª aula.

•       ANAMNESE
•       72e3-73a3:
Καὶ μήν, ἔφη ὁ Κέβης ὑπολαβών, καὶ κατ’ ἐκεῖνόν γε
τὸν λόγον, ὦ Σώκρατες, εἰ ἀληθής ἐστιν, ὃν σὺ εἴωθας
θαμὰ λέγειν, ὅτι ἡμῖν ἡ μάθησις οὐκ ἄλλο τι ἢ ἀνάμνησις   (5)
τυγχάνει οὖσα, καὶ κατὰ τοῦτον ἀνάγκη που ἡμᾶς ἐν προτέρῳ
τινὶ χρόνῳ μεμαθηκέναι ἃ νῦν ἀναμιμνῃσκόμεθα
. τοῦτο δὲἀδύνατον, εἰ μὴ ἦν που ἡμῖν ἡ ψυχὴ πρὶν ἐν τῷδε τῷ ἀν-
θρωπίνῳ εἴδει γενέσθαι· ὥστε καὶ ταύτῃ ἀθάνατον ἡ ψυχή
τι ἔοικεν εἶναι.
E certamente, disse Cebes, interrompendo, também, de acordo com aquele argumento, oh Sócrates, no caso de ser verdadeiro, que tu costumas dizer com frequência: que para nós a aprendizagem / a compreensão (mathêsis) não é outra coisa senão recordação (anamnêsis). De acordo com isto, é necessário, talvez, que nós tenhamos aprendido / compreendido num tempo anterior aquelas coisas de que agora nos lembramos. Isto, porém, é impossível, se a nossa alma não tiver existido previamente a vir à forma humana. De tal sorte assim que a alma parece ser algo desprovido de morte.
•       73a7-10: DEMONSTRAÇÕES 
ὅτι ἐρωτώμενοι οἱ ἄνθρωποι, ἐάν τις καλῶς ἐρωτᾷ, αὐτοὶ λέγουσιν πάντα ᾗ
ἔχει—καίτοι εἰ μὴ ἐτύγχανεν αὐτοῖς ἐπιστήμη ἐνοῦσα καὶ @1 ὀρθὸς λόγος, οὐκ ἂν οἷοί τ’ ἦσαν τοῦτο ποιῆσαι
Os humanos, quando são interrogados, se alguém [souber] interrogar bem, são capazes de dizer como são todas as coisas – ainda que se por acaso não suceder que tenham no seu interior uma representação nem um sentido correcto, não são capazes de o fazer.
•       73b6-c2: ACESSO EPISTEMOLÓGICO
Ἀπιστῶ μέν [σοι] ἔγωγε, ἦ δ’ ὃς ὁ Σιμμίας, οὔ, αὐτὸ δὲ  τοῦτο, ἔφη, δέομαι παθεῖν περὶ οὗ ὁ λόγος, ἀναμνησθῆναι. καὶ σχεδόν γε ἐξ ὧν Κέβης ἐπεχείρησε λέγειν ἤδη μέμνημαι καὶ πείθομαι· οὐδὲν μεντἂν ἧττον ἀκούοιμι νῦν πῇ σὺ ἐπεχείρησας λέγειν. Τῇδ’ ἔγωγε, ἦ δ’ ὅς. ὁμολογοῦμεν γὰρ δήπου, εἴ τίς τιἀναμνησθήσεται, δεῖν αὐτὸν τοῦτο πρότερόν ποτε ἐπίστασθαι.
Preciso de passar pela experiência, é necessário fazer-se a experiência, do recordar-se, ser recordado. Se alguém vier a recordar-se de alguma coisa, é necessário que tenha alguma vez anteriormente feito uma ideia, obtido um conhecimento, tido uma representação disso mesmo de qeu faz ideia, tem conhecimento, tem uma representação.
•       LSJ: EPISTÊMÊ
•       ἐπιστήμη, ἡ, (ἐπίσταμαι) acquaintance with a matter, understanding, skill, as in archery, S.Ph.1057; in war, Th.1.121, 6.72, 7.62; ἐ. πρὸςτὸνπόλεμον Lys.33.7 (fort. leg. περί) περὶτὰμαθήματα Pl. Phlb.55d; τοῦνεῖν Id.Grg.511c; ἐπιστήμῃ skilfully, οἱμὴἐ. τοὺςἐπαίνους ποιούμενοι Plot.5.5.13. 2. professional skill: hence, profession, οἱτὴνἰατρικὴνἐ. μεταχειριζόμενοι PFay.106.22 (ii A.D.); ζωγράφος τὴνἐ. painter by profession, POxy.896.5 (iv A.D.). II. generally, knowledge, ἐπιστήμῃσύμουπροὔχοιςἄν S.OT1115; πάντ’ ἐπιστήμηςπλέως full of knowledge in all things, Id.Ant.721, cf. Tr. 338; ἐκτῆςἐ. E.Fr.522.3; ἐ. δοξαστική, opp. ἀλήθεια, Pl.Sph.233c: pl., kinds of knowledge, μυρίαιἀνδρῶνἐπιστᾶμαιπέλονται B.9.38, cf. Pl.Smp.208a. 2. scientific knowledge, science, opp. δόξα, Pl.R.477b sq., Hp.Lex4, Pl.Plt.301b, Arist.APo88b30, EN1139b18: coupled with ἐμπειρία and τέχνη, Pl.R.422c, cf. Ion536c, Arist.Metaph.981a2: pl., the sciences, freq. in Pl. (R.522c, al.), etc.
•       73c4-d1: EXPRESSÕES DE CAPTAÇÃO
Ἆρ’ οὖν καὶ τόδε ὁμολογοῦμεν, ὅταν ἐπιστήμη παρα- γίγνηται τρόπῳ τοιούτῳ, ἀνάμνησιν εἶναι; λέγω δὲ τίνα    (5)τρόπον; τόνδε. ἐάν τίς τι ἕτερον ἢ ἰδὼν ἢ ἀκούσας ἤ τινα ἄλλην αἴσθησιν λαβὼν μὴ μόνον ἐκεῖνο γνῷ, ἀλλὰ καὶ
ἕτερον ἐννοήσῃ οὗ μὴ ἡ αὐτὴ ἐπιστήμη ἀλλ’ ἄλλη, ἆρα οὐχὶ τοῦτο δικαίως λέγομεν ὅτι ἀνεμνήσθη, οὗ τὴν ἔννοιαν
ἔλαβεν; Ora não é verdade que também chegamos a acordo a respeito disto? Quando se gera um conhecimento deste modo, há uma recordação? Estou a falar deste modo: se alguém vê, ouve ou tem alguma percepção (aisthêsin labôn) de qualquer coisa, não apenas reconhece (gnôi) essa coisa mas também tem em mente (ennoêsêi) uma segunda outra coisa diferente, algo de que o conhecimento não é o mesmo mas outro, não é justamente isto que dizemos ser recordado (anamnêsthê), de que passou a ter uma noção, que passou a ter em mente (ENNOIA)?  
•      ARGUMENTO (C. J. ROWE, 1993, p. 165)
•       It occurs especially (malista) in relation to things which have been forgotten ‘through lapse of time and lack of attention’ (e1-3)
•       What one is reminded of may be either like or unlike the thing which does the reminding (e5-74a3)
•       Where it is like, one necessarily has in mind whether the resemblance is lacking in any respect or not (74a5-7)
•       73d3-10: ASSOCIAÇÃO
ἄλλη που ἐπιστήμη ἀνθρώπου καὶ λύρας.
Οὐκοῦν οἶσθα ὅτι οἱ ἐρασταί, ὅταν ἴδωσιν λύραν ἢ ἱμάτιον   (5)
ἢ ἄλλο τι οἷς τὰ παιδικὰ αὐτῶν εἴωθε χρῆσθαι, πάσχουσι
τοῦτο· ἔγνωσάν τε τὴν λύραν καὶ ἐν τῇ διανοίᾳ ἔλαβον τὸ
εἶδος
 τοῦ παιδὸς οὗ ἦν ἡ λύρα; τοῦτο δέ ἐστιν ἀνάμνησις·
ὥσπερ γε καὶ Σιμμίαν τις ἰδὼν πολλάκις Κέβητος ἀνεμνήσθη,
καὶ ἄλλα που μυρία τοιαῦτ’ ἂν εἴη.    
(10)
O conhecimento de um homem é diferente do conhecimento de uma lira. Por conseguinte, tu sabes que os namorados, qunado vêm uma lira ou uma peça de roupa ou qualquer outra coisa que os seus amados costumem usar, passam por qualquer coisa deste género: no momento em que reconhecem a lira (não apenas como lira mas como a lira de alguém) captam na sua mente a imagem da rapariga / do rapaz a quem pertence a lira. Isto é qualquer coisa do género da recordação. Tal como se alguém vir Símias será muitas vezes lembrado de Cebes, e o mesmo se passa com milhares de exemplos.  
•       73e1-3: ESQUECIMENTO
Οὐκοῦν, ἦ δ’ ὅς, τὸ τοιοῦτον ἀνάμνησίς τίς ἐστι; μάλιστα
μέντοι ὅταν τις τοῦτο πάθῃ περὶ ἐκεῖνα ἃ ὑπὸ χρόνου καὶ τοῦ μὴ ἐπισκοπεῖν ἤδη ἐπελέληστο;
Portanto, disse ele, a recordação é qualquer coisa deste género? Sobretudo, quando a alguém sucede a respeito destas coisas ter-se esquecido já delas ou pela passagem do tempo e por não as revisitar. 
•       73e5-10: IMAGEM, FANTASIA, RECORDAÇÃO
Τί δέ; ἦ δ’ ὅς· ἔστιν ἵππον γεγραμμένον ἰδόντα καὶ   (5)λύραν γεγραμμένην ἀνθρώπου ἀναμνησθῆναι, καὶ Σιμμίαν ἰδόντα γεγραμμένον Κέβητος ἀναμνησθῆναι; Οὐκοῦν καὶ Σιμμίαν ἰδόντα γεγραμμένον αὐτοῦ Σιμμίου ἀναμνησθῆναι;    
Mas como é que então, disse ele: quando alguém vê um cavalo desenhado e uma lira desenhada pode ser lembrado de um homem, e ao ver Símias desenhado pode ser lembrado de Cebes? Portanto, também, quando alguém vê Símias desenhado pode ser lembrado do próprio Símias? 


Filosofia da Linguagem: Handout. 6ª aula.

•       REPRESENTAÇÃO
•       30: 
•       A representação (VORSTELLUNG) associada a um símbolo deve ser diferenciada da sua referência (BEDEUTUNG) e do seu sentido (SENTIDO). Se a referência de um símbolo é um objeto empírico passível de ser percebido, a representação que tenho dele é uma imagem interna (INNERES BILD) decorrente da memória de impressões sensíveis que tive e de ações, tanto internas quanto externas, executadas por mim. Essa imagem é geralmente embebida em sentimentos; a clareza das suas partes separadas é variada e oscilante. Nem sempre a mesma representação é associada ao mesmo sentido, nem mesmo para a mesma pessoa. A representação é subjetiva: a representação de uma pessoa não é a mesma que a de outra. Apenas isso já deixa claro que há uma multiplicidade de representações associadas ao mesmo sentido. Um pintor, um cavaleiro e um zoólogo irão provavelmente associar ao nome “Bucéfalo” representações bem diferentes. 
•       30:VORSTELLUNG (Continuação)
Assim, enquanto não hesitamos em falar simplesmente do sentido (SINN), para sermos exatos em relação à representação (VORSTELLUNG) é preciso acrescentar a quem ela pertence e em que tempo se gera. Talvez pudéssemos dizer: assim como a uma mesma palavra uma pessoa pode associar uma representação e outra pessoa uma representação diferente, também uma pessoa pode associar a ela um sentido e outra pessoa um sentido diferente. Entretanto, a diferença então reside só no modo dessa conexão. 
•       31: Radicalização da representação
Se duas pessoas representassem o mesmo (dasselbe vorstellen), cada uma teria ainda a sua própria representação (seine eigene Vorstellung). Algumas vezes é possível constatar a diferença entre as representações, e até mesmo a diferença das sensações (Empfindungen), de pessoas diferentes; mas uma comparação mais exata não é possível, porque não podemos ter essas representações juntas em uma mesma consciência. 
•       31: Referência, objecto, representação
A referência de um nome próprio (Eigenname) é o próprio objeto (der Gegenstand selbst) que designamos com ele; a representação que então temos é totalmente subjetiva; entre os dois reside o sentido (Sinn), que não é subjetivo como a representação, mas por certo não é o próprio objeto. 
•       Tode ti vs. logos tês ousias
•       31: A lua
•       Alguém observa a Lua através de um telescópio. Comparo a própria Luacom a referência; ela é o objeto da observação, que é veiculado pela (a) imagem realconstruída no interior do telescópio pela lenteobjetiva e pela (b) imagemna retinado observador. (a) Aquela (sc: imagem real) comparo com o sentido, (b) esta com a representação ou a intuição. (a)A imagem no telescópio é apenas parcial; ela é dependente do lugar; mas ela é por certo objetiva, uma vez que vários observadores podem fazer uso dela. Pode-se mesmo orientar várias pessoas a fazer uso dela ao mesmo tempo. Mas em relação à (b) imagem na retina cada um teria a sua própria. Mesmo uma congruência geométrica quase não pode ser alcançada em função da diferença no formato dos olhos, e um ajuste perfeito seria impossível. Talvez a analogia possa ser levada adiante se supomos que a imagem na retina de A pode tornar-se visível para B; ou que o próprio A possa ver a imagem da sua retina no espelho. Poder-se-ia aqui mostrar como a própria representação pode ser tomada como objeto, mas nesse caso ela não seria para o observador (Betrachter) o que é imediatamente para quem representa  algo para si (Vorstellenden). Porém, seguir esta via seria um desvio muito grande. 
•       32: Nome próprio, sentido, referência
Um nome próprio (palavra, símbolo, combinação de símbolos, expressão) exprime o seu sentido, refere-se a ou designa a sua referência. Exprimimos com um símbolo o seu sentido e designamos com ele a sua referência. 
Ein Eigenname (Wort, Zeichen, Zeichenverbindung, Ausdruck) drückt aus seinen Sinn, bedeutet oder bezeichnet seine Bedeutung. Wir drücken mit einem Zeichen dessen Sinn aus und bezeichnen mit ihm dessen Bedeutung. 
•       32: Referência e valor de verdade
não é a nossa intenção falar da nossa representação da Lua, e que também não nos contentamos com o sentido quando dizemos “a Lua”; pressupomos, antes, uma referência (wir setzen eine Bedeutung voraus). Se quiséssemos tomar a frase “a Lua é menor do que a Terra” como dizendo algo a respeito da representação da Lua, estaríamos realmente a distorcer o seu sentido. Caso o falante queira dizer tal coisa, ele usaria como recurso a expressão “a minha representação da Lua”. 
•       33-44: Pensamento, sentido e referência
Perguntamos agora sobre o sentido e a referência de uma frase declarativa completa. Tal frase contém um pensamento (Gedanken). Devemo sencarar esse pensamento como o seu sentido ou como a sua referência? […] O pensamento não pode ser então a referência da frase e deveremos antes concebê-lo como o seu sentido. A frase “Ulisses desembarcou em Ítaca dormindo profundamente” tem claramente um sentido. Porém, visto que é duvidoso se o nome que nela ocorre, “Ulisses”, tem uma referência, é também duvidoso se a frase completa tem uma referência. Em todo caso, é certo que uma pessoa, ao tomar seriamente a frase por verdadeira ou por falsa, também atribuirá uma referência ao nome “Ulisses”, e não apenas um sentido; pois é à referência desse nome que o predicado será atribuído ou negado. Quem não reconhece uma referência, não pode atribuir ou negar a ela um predicado. (Wer eine Bedeutung nicht anerkennt, der kann ihr ein Prädikat weder zu- noch absprechen.)

•       35: Valor de verdade
Somosassim impelidos a aceitar o valor de verdade(Wahrheitswert) deumafrase como a suareferência.Por“valor de verdade de umafrase” entendoa circunstânciadeuma frase ser verdadeira ou serfalsa. […] Cadafrasedeclarativa,emrelaçãoà qual areferênciadas palavras érelevante, deveassim ser compreendida como um nomepróprio, easuareferência, casoelaexista, éoVerdadeiro ou oFalso.[…]Masgostaria de deixar aqui esclarecidopelo menos que em cadajuízo– não importa quão óbvio eleseja – o passo do nível do pensamento para o nível dareferência  (do objetivo)-foidado.

TEMAS DE FILOSOFIA ANTIGA. 3ª SESSÃO. HANDOUT

3ª sessão. Handout. 19 de Feveiro, 2019 Sen. Ep. 58. 6.  Quomodo dicetur ο ὐ σία res necessaria , natura continens fundamentum o...