sábado, 12 de maio de 2012

Contemporânea 15 (TOMAZ FIDALGO)


15ª aula Filosofia Contemporânea

Sessão passada: acabou na primeira forma do tédio.
Antes de introduzir à segunda forma do tédio, importa fazer uma revisão, com especial foque no carácter operacional das disposições. Isolar o operador disposicional como operador de análise.
Procurámos ver a que é que corresponde a possibilidade de nos relacionarmos com uma disposição que nos tenha acontecido de tal forma que a sua lembrança é condição de possibilidade para a sua reactivação, mas não é condição suficiente.
Procurámos ver as formulações em português  para o tédio. É a partir do foco das opiniões (das ἔνδοξα), para focar a experiência concreta da vivência do tédio. Na análise vimos que a estratégia linguística de Heidegger levava a estudo das vozes de enunciação do fenómeno do tédio.
Os fenómenos de 1ªordem são formulados na voz passiva. A formulação permite isolar o estado em que ficámos. O resultado de uma hermenêutica da facticidade -- a facticidade corresponde aquele horizonte em que nós nos encontramos ao testemunhar as coisas que nos acontecem "o estado em que ficámos". A enunciação pressupõe um fenómeno de exposição a um agente que nos deixa naquele estado. A enunciação testemunha apenas o "fiquei neste estado". O agente da passiva não é o causador desse efeito, é apenas o que induz. O tédio se constitui por invasão de perspectiva e impossibilidade de controlo. Deixa-me sem manobra de acção.
O ponto é que de manhã à noite estamos sempre num estado X. Estamos sempre a encontrarmo-nos num tal estado. Independentemente dos agentes, encontramo-nos sempre como se pudéssemos dizer o estado em que nos encontramos, estado em que algo nos deixou. O agente constitutivo das posições é susceptível de uma identificação clara e nítida. A situação de perder o comboio deixou-me num tal estado que eu reconheço como tédio. Neste caso o agente é "perder o comboio". Percebo a situação de facto, estou aborrecido. Mas não há uma relação de causa e efeito entre a perda do comboio e tédio. A perda do comboio dá azo a que eu fique em tédio, mas poderia ser que eu não ficasse numa situação de tédio (eu podia ir passear). Uma causa não é causa de nada se umas vezes provoca o efeito e outras não, se causa efeitos diferentes em pessoas diferentes. Não há uma relação de causa e efeito entre a perda do comboio e o tédio.
Outro ponto que interessa focar é o facto de haver uma modificação dos conteúdos perceptivos por causa do tédio. O que eu vejo é modificado pelo tédio, pela disposição em que eu me encontro. As situações de tédio são vividas de um modo específico que altera a minha relação com os conteúdos apresentados pela percepção.
O custar do tempo a passar é um eufemismo para o curto-circuito do tempo, ou seja, para o tempo que nunca mais é. Eu estou interrompido entre o tempo que parou e o tempo em que eu posso voltar a ser.
O segundo ponto da análise realizada é que no tédio eu estou cheio de tempo, mas de um tempo que nunca mais é. Não se trata de deixar tempo livre e pronto para correr.  Pelo contrário, o tempo do tédio deixa-nos vazios, ou seja, cheios desse tempo que nunca mais é. Na experiência desse tempo nós procuramos encontrar algo que faça passar o tempo -- encontramos passatempos. Mas depois esses passatempos ficam aborrecidos e tornam-se também eles entediantes. Mas isto podia ser algo disposicional que só se identificasse com a minha cabeça -- "tem que ver comigo" -- e não com as pessoas e o ambiente; mas não é assim: o tédio alastra-se e abarca a estação de caminhos de ferro no seu todo. Depois tentamos matar o tempo com as coisas que não fazemos habitualmente, mas mesmo assim não conseguimos habitar esse sítio. Estamos num sítio expulsos da possibilidade de lá estar. Não há nada naquela estação que não me aborreça mortalmente. O tempo em que as estações preenchem o seu sentido é o da sua serventia (apanhar comboio e sair de comboios), não foram feitas estar lá. Por isso eu não posso fazer nada ali. Eu estou nesse ambiente completamente vazio de sentido, mas também não posso sair porque não consigo fazer nada. Estou à espera de entrar pelo mundo a dentro e por enquanto não consigo -- não consigo entrar no mundo (pensar na posição do Tractatus e no sujeito fora do mundo). Não se trata da duração de 4h que me obriga a experimentar tédio, mas sim a ser o tempo do tédio. Não são 4h, são 4h em que eu não consigo fazer nada -- não consigo entrar por lado nenhuma adentro: nem ler, nem estar no café nem na ópera. Esses sítio estão blindados. Eu não consigo ir lá. Não consigo habitá-los. Passo a querer expulsar o tempo que mata. O tempo do tédio é o tempo da morte. É a experiência da impossibilidade total. Não consigo nada, estou fora da minha vida, estou impossibilitado de viver. Mas continuo a olhar para o relógio. Só que quando olho para o relógio não é para ver as horas(eu acabei de ver as horas), mas sim para ver quanto tempo falta para eu conseguir voltar a ser. Eu estou numa realidade absolutamente eficaz que me congela até eu poder voltar a ser. O que eu vejo é o tempo que falta para matar até ser tempo. A experiência do tédio é a experiência do vazio, no qual eu não posso ser.

Pág 140 (volume 29/30)
"Nós lemos o horário, estudamos as distâncias, (...)olhamos para as horas e percebemos que passou apenas um quarto de hora(...) e não ajuda nada, voltamos a olhar para a paisagem e olhamos para o relógio e só passaram cinco minutos (...)" Forma de passar o tempo que se constitui de uma forma absolutamente espontânea. Constituem-se formas espontâneas de passar o tempo -- nós pensamos situações que nos obviam a possibilidade de estar num tempo que não habitamos. Essas possibilidades são possibilidades de nós que nos surgem de forma espontânea. O passatempo, o que expulsa o tempo que nunca mais é, é na verdade um empurrar para fora o tédio através de um incentivo a que o tempo volte a passar. Passar o tempo corresponde a uma qualificação temporal -- o tempo do tédio obriga a uma reacção que quer obrigar o tempo a passar. Visa actuar contra um tempo que nunca mais passa. É tudo um incentivo a que o tempo passe.
A característica que resulta é que a disposição do tédio permite identificar a situação em que nós nos encontramos como exposta ao tédio (por enquanto fala-se do tédio de 1ª ordem), de tal forma que se não estivéssemos expostos ao ataque do tédio, não teríamos capacidade de perceber a situação do tédio. A situação em que eu me encontro é que me permite identificar essa característica da minha vida -- o ser susceptível de tédio. Esta característica mostra o meu modo de ser -- o ser exposto e vulnerável ao tédio. A vida é susceptível de  nunca mais ser, de ficar embargada. A vida é susceptível de ser uma maçada. A vida pode nunca mais ser. A vida pode nunca mais passar. A vida pode ser um tédio. Neste sentido, como se viu à pouco, a vida pode passar ao lado da vida, pode nunca chegar a ser. E esta forma nunca mais vais abandonar as outras formas de tédio descritas por Heidegger.

Pág 147
"Não há horas que parecem um eternidade?" Nesse caso qual o sentido de olhar para as horas? Temos uma invasão de um forma de acontecimento que é ontológica. Essa é a condição sine qua non da análise filosófica. Sem isso não pode haver filosofia, mas também pode não haver filosofia numa vida toda exposta ao tédio. Porque não há causa e efeito. É isto que está em causa na analítica existencial do Dasein. As características do tempo que custa a passar são características metafísicas. Mesmo a pessoa mais simples do  mundo diria "nunca mais passa", e o que acontece é uma experiência maciça da vida que nos notifica como ela é: uma maçada. Que dizer -- há uma suspeita de que a vida pode ser uma maçada, porque é a própria vida que me avisa disso. O estratagema que eu encontro é o manter-me ocupado. Esta é a minha forma de expulsar o impossibilitante, o que me impede de ser. O tédio constitui uma asfixia que torna tudo impossível. Mas esse momento traz a noticia da eternidade...como é que num momento de tédio eu tenho notícia da eternidade? Como é que num único momento eu tenho uma notícia da eternidade? Porque, de facto, eu tenho num instante a notícia da eternidade, de todo o tempo do mundo que se constitui como vazio, sem mim, embargado, relativamente ao qual eu tenho de fazer alguma coisa. A qualidade da momento de tempo "nunca mais" não vem do mundo: ela notifica-me a partir do próprio . É a vida que nos dá a ver um dos seus rostos -- a possibilidade de ela ser vazia de nós.
A outra possibilidade te que ver com a situação do tédio se dar quando nós nem de perto nem de nós darmos por ela. O que acontece quando tudo o que é divertido e animador surge como entediante. É isto que Heidegger analisa na segunda forma de tédio.

Parágrafo 24 e seguintes.
primeiro importa Caraterizar.
A formação linguística é formulada pela voz reflexiva o "aborrecer-se" "entendiar-se", etc... Não tem o agente da passiva introduzido por von, mas tem o complemento introduzido por bei etwas. É por o que me acontece a mim a partir de mim que eu transporto o tempo para o sítio onde eu me encontro.
Há caraterísticas que se mantêm: há retenção do tempo e o tédio continua a deixar-me vazio.
Pág. 165.
Somos convidado para ir a um serão. Não precisamos de ir, mas estivemos o dia inteiro a trabalhar, e por isso temos tempo para ir e vamos. Há a habitual comida, a conversa de circunstância. As coisas não têm apenas bom gosto, mas muito bom gosto. Ouve-se música, conversas, contam-se anedotas, etc.. É tudo agradável e divertido. E de repente já é tempo de ir embora. E quando já estamos lá fora dizemos "foi mesmo muito simpático", foi mesmo "terrivelmente estimulante", nós não encontramos nada que tivesse sido maçador no serão: nem as pessoas, nem o local, nem a comida, nada. Ao chegar a casa olhamos de relance para o trabalho que deixámos na secretário e pensamos no dia seguinte. E então surge: " foi então efectivamente uma grande chatice", foi uma noite maçadora, foi um "maçar-se a si nestas circunstâncias"
O próprio descritor aponta para uma linguagem que não abre para o que vem depois ("foi maçador").Como é que na vivência dessas horas ao serão têm em si o tédio a constituir-se?? (O problema tem a mesma base que o de Santo Agostinho nas confissões, quando diz que não há maior infelicidade do que ser infeliz e não saber. Como é que se pode ser infeliz sem saber? Do mesmo modo, como é que se pode estar entediado sem saber?) Qual é a relação entre olhar para o trabalho que ficou suspenso e a invasão do tédio? Como é que nessa altura assoma o "foi uma perda de tempo"? Porque quando acontece eu perceber que tenho de ir embora já essa ordem estava dada horas antes sem eu ter percebido. Não houve notificação da presença do tédio antes de eu chegar a casa... Há uma película de divertimento que não me deixa ver. Mas aquilo é uma terapia ocupacional. A agenda é a agenda do convite e do serão, não é a minha agenda. O que se passa é que eu entro efectivamente em todas as conversas, vou falar com toda a gente, ouço música, entramos pelas coisas adentro e depois vamos embora, porque são conversas de circunstância. O que está aqui a passar-se é eu estar a ser levado nas horas em que o problema é o da situação do serão. O problema é que não há relação de causa efeito entre eu sentir o tédio e o tédio. Foi um serão que não houve tédio algum, mas o sentido do ser do serão revela-se depois de ter acontecido. O ponto não é eu passar a ver como uma maçada, é que eu vejo objectivamente que aquilo foi mesmo uma maçada. Não consigo identificar a disposição daquela situação. Eu não identifico uma causa, mas há uma interpretação do que é que eu sou na relação comigo e na abdicação de mim para ir ao serão. E por isso está em causa o facto de no serão eu ser "eu no serão" e não eu a fazer aquilo que eu faço". Eu não estava a ser porque não estava disponível para "ser eu no serão". E justamente o que me está a reter é o próprio de mim que não me permite entrar -- sou eu que me estou a aborrecer. Claro que me posso divertir, mas só quando estou totalmente disponível para ser naquele momento a divertir-me. Caso contrário sou eu o agente e objecto do tédio.  A natureza desta paragem temporal e deste esvaziamento deixou de ter o ponto de irradiação do exterior (o comboio) mas passa a vir de mim. Fui eu que não consegui expor-me e disponibilizar-me para estar lá.
Heidegger vai tentar fazer é encontrar indício que não foram vividos explicitamente, mas que correspondem a fenómenos que aconteceram e apenas o olhar analítico vai encontrar. Vai tentar encontrar as situações em que o tédio foi reprimido.

pág 167
Ex. As vezes que tivemos de esconder um bocejo. O bocejo como sintoma de tédio. Quais são os indícios do que fizemos para ocupar o tempo. Outro Ex. Trautear os dedos; brincar com o fumo do cigarro, etc.. São sinais que indicam uma presença de espírito que acaba por mostrar sinais somáticos como manifestações de tédio. Há sinais de tempo no seguinte sentido: tempo que nunca mais passa e esvaziamento de tempo. Não é que estivéssemos à espera que aquilo acabasse, pelo contrário...Eu percebo que o serão corresponde a uma impermeabilização da vida -- ficou suspenso algo de mim. Houve um eu que queria ter ficado em causa, mas foi com outro eu que queria ir à festa e por isso embargou o divertimento na festa. Houve também ali uma tentativa de ocupar o tempo.
Não há apenas uma primeira forma e uma segunda forma de tédio, mas várias. mas a caraterística fundamental do tédio de segunda ordem mostra de forma ainda mais evidente a possibilidade de eu estar fora do meu tempo, no tédio, embargado de mim, sem saber. Nesse caso, o agente do tédio sou eu (o eu que queria ficar em casa e por isso impediu o outro eu de se divertir). Não demos tempo para aproveitar o serão, e por isso houve um embarco do próprio que eu sou. Quem cria a censura e neutraliza a possibilidade de viver o serão como tempo meu. Há uma tentativa de encontrar sintomas que estão camuflados por fenómenos que são mais gritantes que os que constituem a nossa própria vida. São esses fenómenos que se quer estudar na analítica existencial do Dasein. Podem não ser formas declaradas, que eu percebo depois de terem acontecido, mas por isso mesmo permitem a pergunta: qual o estatuto de todas as ocupações da minha vida? Ou seja, qual é o sentido da ocupação do tempo? Está-se a permitir o alastramento, mesmo que inconsciente, do tédio à vida toda...Qual o estatuto do que fazemos, se na verdade esse nível ocupação pode ser identificado como forma de ocupação do tempo. Será que isso não está em tensão com um agente que está em suspenso e se esse agente não nos esvazia e por isso a vida não tem o mesmo estatuto de ocupação do tempo. Está posta a possibilidade da pergunta a respeito do sentido da nossa vida. A pergunta depende de uma óptica de alargamento baseada pelas experiências concretas do tédio de primeira e segunda ordem. A pergunta é: Será que o quotidiano não corresponde à expressão de uma tentativa de passar o temo, quando ele é visto essencialmente como vazio e esvaziador, quando ele não custa nada a passar, mas efectivamente custa horrores a passar.
Na análise do tédio de segunda ordem, a característica que permite tudo isto é o anonimato e aparente ausência. Não há nenhuma possibilidade de olhar de frente para ele. Ele bate-nos na cara de vez em quando, mas não demora muito. O que está em causa é uma análise sistemática de todos os acontecimentos da nossa vida vistos pela interrogação de poderem ter em si apenas o carácter superficial que esconde o horizonte temporal de um tempo que nunca mais acaba, ou seja, de uma impossibilidade. O tédio de segunda ordem permite ver que a vida pode ser uma maçada (ou também incrivelmente divertida). A pergunta do sentido das ocupações é: será que aquilo que fazemos preenche o que está vazio e resolve o problema, ou é apenas terapia ocupacional? tem a ver com a ponte entre o tédio absoluto e inabitável de primeira ordem e o tédio de segunda ordem. Não tem a ver com patamares. Há uma transitividade da forma e uma metamorfose dos conteúdos que depende absolutamente do modo como estamos a viver a situação.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

KANT


Kant
a) O percurso por Kant incide sobre a compreensão do projecto de uma filosofia transcendental. Partimos da compreensão tácita mas não completamente esclarecida ou compreendida da ideia segundo a qual a filosofia de Kant é transcendental. O seu tema e região de questionamento é a razão em geral. A compreensão da ideia da filosofia transcendental como uma filosofia que tem a razão como tema significa, antes de mais e à partida, compreender  possibilidade do isolamento da razão enquanto razão. Este trabalho de isolamento da razão é o terminus ad quem do movimento crítico. São as suas consequências que procurámos seguir, isto é, para já as determinações de plano da razão:- a razão pura teórica ou especulativa; a razão prática e a razão técnica. 
            Em qualquer das manifestações da razão mostra-se uma raiz comum.
Na razão teórica procura ver-se o modo como o objecto nos afecta. E um objecto afecta-nos na medida em que estiver já desde sempre aí. Afecta-nos a partir da própria intuição. "Diese findet aber nur statt, so fern uns der Gegenstand gegeben wird", e tal é possível, apenas na medidda em que um objecto "das Gemüt auf gewisse Weise affiziere", KrV, B 33/A 19. Quer dizer, mesmo no nível transcendental, aparentemente mais ínfimo, o da mera intuição, dá-se já o facto de haver uma primeira transcendência. A intuição transcende o objecto que a afecta, é-lhe sintético, como poderemos ver. Determinar este facto é já uma transcendência da experiência que terá de se legitimar. Mas o Gemüt tem de ser estudado na sua potência não apenas de ser afectado, de ser bombardeado pelos objectos, mas também de se comportar activa e espontaneamente relativamente à experiência.
O mesmo se passa na versão prática da razão: “…in einem pathologisch-affizierten Wille”, KpV., A35. Tudo quanto tem a forma do Gefühl da Lust e da Unlust é desta natureza. O plano analítico que incide sobre o horizonte prático procura “dartun, daß reine Vernunft praktisch (…) den Willen bestimmen können (…) für sich, unabhängig von allem Empirischen, Ibid., A72.
            O mesmo na faculdade de julgar o belo e o fim da natureza. No §5. da UK podemos ler que o agradável (das Angenehme) é "ein pathologisch-bedingtes (Anhreize, Stimulus)". Mas o belo, Das schöne, "ist das, was ohne Begriffe, als objekt eines allgemeinen Wohlgefallens vorgestellt wird". Quando isto acontece, "der Urteilende fühlt sich völlig frei, UK, B17". Para lá das determinações patológicas 'agradável', 'desagradável', os quais são sentimentos e, por isso, afectações patológicas, a determinação 'belo' corresponde a um ponto de vista que excede, de todo em todo, a experiência determinada de um modo meramente passivo.

b) As três críticas correspondem, assim, à ideia segundo a qual a Filosofia é o sistema do conhecimento da razão através de conceitos. Destes três movimentos críticos, privilegiámos os dois primeiros. São eles que operam a distinção entre filosofia da natureza e filosofia dos costumes, tendo, no entanto, em vista que o sistema da filosofia apenas difere. A metafísica enquanto a transcendência do campo da experiência é o ponto de vista cujo fim último está orientado para a resolução das tarefas da razão pura. Uma tal resolução é a decisão da possibilidade de responder às perguntas levantadas pela razão. (“Die Wissenschaft aber, deren Endabsicht mit allen ihren Zurüstungen eigentlich nur auf die Auflösung derselben gerichtet ist, heißt Metaphysik.”, KrV, B7, A3.) O seu dar-se traz consigo a necessidade de se constituir a decisão, krinein, do poder ou não poder da razão para a execução confiante de uma tamanha empresa (“Prüfung des Vermögens oder Unvermögens der Vernunft zueiner so großen Unternehmung,” ibid.). Podemos, portanto, ver que, se há um interesse no ideal da razão, o qual constitui uma expectativa a preencher, a de responder às perguntas que a razão levanta e pelas quais somos afectados, por outro lado, a despeito da heterogeneidade das questões, é esse mesmo interesse que lhes dá uma mesma unidade de sentido. Que nos orienta para elas. Há um mesmo fim último.

g) O tema da ideia é a totalidade absoluta das séries de condições, que excedem a situação mais ou menos imediata em que de cada vez nos encontramos. A ideia de totalidade absoluta mais problemática é a que me expõe à possibilidade problemática da esperança (Hoffnung), na medida em que uma tal ideia é não apenas absolutamente sintética relativamente às aparições e séries de aparições do mundo natural, como também é sintética relativamente ao cumprimento do meu dever e à constituição de um mundo moral. Pretendemos, agora, ver mais em detalhe esta pergunta. “A pergunta, a saber, se fizer o que devo, o que é que eu posso depois esperar? é ao mesmo tempo prática e teórica, de tal modo que o prátcio é apenas um fio condutor para a resposta à pergunta teórica, e se esta vai muito alto (a saber excede muito o campo da experiência), conduz à pergunta especulativa” (Die dritte Frage, nämlich: wenn ich nun tue, was ich soll, was darf ich alsenn hoffen? ist praktisch unnd theoretisch zugleich, so, daß das Praktische nur als ein Leitfaden zu Beantwortung der theoretishcen, und, wenn diese hoch geht, spekulativen Frage führet, KrV., B833.).
A direcção do comportamento transcendental do ter esperança (hoffen) é a da bem-aventurança (Glückseligkeit). Importa aqui não nos deixarmos levar pela linguagem teológica kantiana. A pergunta pela felicidade só pode ser entendida a partir da direcção do hoffen. Ter esperança é uma possibilidade humana que se dirige para o futuro, para um futuro possível. A possibilidade deste futuro não é, no entanto, a possibilidade de uma coisa, de uma vivência que se situa no futuro, mas antes é o próprio futuro que enquanto futuro é esperado, sendo assim o que dá abertura, o campo de clareira para todas as coisas possíveis à luz desse futuro ao qual podemos chegar e que chega desde já até nós fundado na esperança. A possibilidade de ter esperança não pode ser confundida com a possibilidade de ter esperença em coisas. Ter esperança, ser bem aventurado, ser abençoado signficar poder esperar simplesmente, estar já aí no abrir e rasgar o futuro.
Mas há uma possibilidade negativade nos relacionarmos com o futuro. Esse tipo de relacionamento com o futuro pode ser o do adiamento. O modo como se está relacionado com o futuro da eternidade no seu bloqueamento, transforma a possibilidade da espera na possibilidade do desespero. Ainda sem saber se há ou não futuro, ainda sem saber se há ou não coisas para serem vividas nesse futuro, há uma interpretação da vida que declara de todo em todo uma proscrição. A proscrição não nos veda o futuro enquanto uma dimensão que há-de ser vivida. O que ela nos declara é que de agora em diante a esperança não existe. O mundo pode muito bem continuar a ser constituído pelas suas séries naturais de aparição, há um passado, um presente e um futuro; eventualmente há um mundo moral que eu constituo em mim na minha relação com os outros,- mas não há nenhum mundo esperado. Eu existirei como coisa ou como ser moral, mas não terei um futuro feliz, um futuro fértil. A pergunta pela esperança é uma pergunta que deflagra quando o desespero é o comportamento possível com o futuro em que não terei sido o cumprimento do que eu quis. Um futuro desta ordem é o meu passado a priori.

d) É neste Entwurf e neste plano que temos que entender os problemas da razão pura. A razão projecta a vida humana na possibilidade ou impossibilidade de esperar, projecta-se assim num mundo e numa vida futuras cuja realidade e sentido podem ser apenas fantasmas vazios. Mas é à luz deste Hang que a razão desenrola, lança e se multiplica por séries de fases, situadas nas diversas formas de acontecer metafísico. É decorrente desta situação fáctica onde nos encontramos, da relação concreta com promessas e ameaças (verheißungen und Drohungen) que temos de pensar também a nossa relação com eine solche zwechmäßige Einheit. É esta zweckmäßige Einheit que torna possível o acontecimento fundamental da razão. Só assim, nesta relação fundamental com o projecto do sentido de um futuro (para o qual estamos abertos ou fechados) faz sentido interrogar a conexão entre o ponto de vista teórico e o ponto de vista prático e os respectivos temas das suas investigações na especialidade.
A situação em que nós nos encontramos, die Sinnenwelt, a partir da natureza das coisas não nos promete uma tal systematische Einheit des Zweckes, porque a sua realidade não pode ser fundada a não ser na pressuposição de um bem supremo originário, auf die Voraussetzung eines höchsten ursprünglichen Guts. A dificuldade de obtenção de um tal propósito resulta da absoluta heterogeneidade e irredutibilidade de um ente desta ordem ao mundo sensível. "A finalidade no seu grau de completude máxima, ainda que esteja para nós oculta no mundo sensível, funda, conserva e realiza a ordenação das coisas" ("vollkommensten Zweckmäßigkeit die allgemeine, obgleich in der Sinnenwelt uns sehr verborgne Ordnung der Dinge gründet behält und vollführt,  KrV, B842).
Um tal projecto tem um focus imaginarius: A função do entendimento é a de “unificar a multiplicidade no objecto através de conceitos, a da razão é a de, por sua vez, unificar o múltiplo de conceitos através de ideias, na qual ela põe como objectivo uma certa unidade colectiva das acções do entendimento." Ibid. Ela dá ao entendimento um uso regulador (“regulativer Gebrauch”), para dirigir o entendimento para certos objectivos (“um den Verstand zu einem gewissen Ziele zu richten”), ela abre “uma perspectiva em vista da qual todas as suas linhas directrizes concorrem para um único ponto. KrV, B673” (in Aussicht auf welches die Richtungslinien aller seiner Regeln in einen Punkt zusammenlaufen). Este ponto é caracterizado como um focus imaginarius (KrV, B673). É uma Idee. Este ponto não pode ser tido em vista pelo entendimento. Excede-o de todo em todo. “Está fora dos limites da experiência possível, mas serve para lhe arranjar [verschaffen] a maior unidade de todas junto à maior extensão de todas”, KrV, B673. Esta ideia é uma ilusão [Tauschung, Illusion] e ao mesmo tempo necessariamente indispensável, caso para lá dos objectos que estão diante dos nossos olhos, também queiramos simultaneamente ver aquela [unidade] que está muito afastada, atrás das nossas costas, i.e., caso também quisermos desviar o entendimento para lá de cada experiência dada, para um maior alargamento até ao que de mais extremo houver [äußerste]”, KrV, B673. O que a razão assim procura é a sistematização do conhecimento, a conexão. “A unidade da razção pressupõe sempre uma ideia, a da forma de um todo do conhecimento, a qual precede todas as partes determinadas de um conhecimento e contem as condições que permitem determinar a priori para cada parte a sua posição e o seu relacionamento com as restantes. KrV, B674.” Esta unidade é uma unidade projectada, projektierte Einheit, b 675.


CONTEMPORÂNEA, 13. (Protocolo de TOMAZ FIDALGO)


13ª aula -- 30 de Abril 2012

O que Heidegger pretende é uma análise das disposições que permite visar o que é fundamental no humano.
Existem Vários textos que só ficaram disponíveis muito depois da sua morte que visam o âmbito disposicional. Neles, reforça-se que o fenómeno da disposição é o núcleo duro da analítica existencial. Assim, surge uma nova possibilidade de fenomenologia que é a fenomenologia das disposições, que seria a verdadeira fenomenologia.
Um dos volumes importantes para compreender isto é o de 29/30 (corresponde ao ano lectivo de 29/30). Lições -- Problemas fundamentais da metafísica: mundo, totalidade e solidão
Num primeiro momento há uma análise de uma disposição fundamental, não numa tentativa de desenvolver uma psicologia dos afectos, mas na tentativa de perceber a possibilidade de sermos uns com os outros.  Ele desloca o problema fundamental do ser para a πρξις. Assim, por um lado procura a identificação de uma disposição, por outro lado a identificação do tema da filosofia. 
No isolamento e na identificação de uma disposição está o seu acordá-la -- as disposições têm de ser acordadas. Na primeira parte há a tentativa de identificação de uma disposição e por isso o acordar dessa disposição; na segunda uma análise da animalidade (da zoologia ao modo de Aristóteles). O humano constrói o sentido do mundo, enquanto o animal é pobre de mundo e a pedra não tem relação com o mundo.  A pedra é fechada no seu próprio acontecimento, mas o animal e o homem estão abertos ao que os rodeia. Mas a forma de abertura não é igual para os homens e para os animais, nem entre animas diferentes -- aquilo que é "objectivamente" uma árvore não pode ser igual para vários animais diferentes.
 O animal não habita o mundo, habita nichos, ecossistemas. Quem habita o undo é o humano. Entra em jogo a consideração do mundo como perspectiva do humano. O ponto fundamental em causa é a análise do que é que significa "constituição de sentido" ou "constituição de sentido da vida" ou "constituição de mundo". Todas estas expressões visam de algum modo o mesmo. É preciso perceber como é que elas visam o mesmo e o que é esse algo que é visado de formas diferentes.
De que forma é que uma stimmung (disposição, vibração, etc) nasce, cresce e morre? O que é que é uma stimmung? Qual é a  natureza do acontecimento das disposições e qual a natureza da nossa relação com elas?
1º ponto a destruição da ideia de tema, de assunto que é constituído por abstração relativamente a outros assuntos. Porque o tema implica sempre a relação entre sujeito e objecto, por mais que se tente ilidir o sujeito. O ponto fundamental para Heidegger ( de 7 a 23 das lições) visa construir por negação a situação hermenêutica do método científico. Pretende-se mostrar a relação entre a exigência de método e o facto de a abertura científica ter exigências ontológicas.  O que se tenta é constituir como objecto o que e estuda. Nós analisamos os acontecimentos como reportando ao interior de uma pessoa. Na tentativa da análise de uma disposição a constituição dela como objecto tem já uma interpretação desse acontecimento mas também da constituição da pessoa que é portadora da disposição. Em causa está o facto de nós sintomaticamente sabemos estar uns com os outros -- sabemos ver o que se passa com uma pessoa, e mesmo o bluff prova disso, porque pressupõe algo que não está a ocorrer. Nós não nos vemos uns aos outros pela raça, sexo, etc., mas as emoções de que esse outro é portador. Por isso mesmo pode ser dificílimo descrever alguém que conhecemos bem: aquilo que vemos neles é um elemento de natureza disposicional. A forma como os outros nos aparecem não é anatómica. Estamos permanentemente numa reação à presença dos outros, numa interpretação da presença dos outros. Mesmo quando já conhecemos as pessoas há tanto tempo que nem notamos quando elas estão na sala, continua a haver uma interpretação. Mas são os exemplos das primeiras impressões que mais mostram o que se pretende dizer -- quando vejo alguém pela primeira vez fico com uma impressão dessa pessoa, que não é uma impressão principalmente anatómica ( e mesmo quando há uma forte impressão anatómica ela fica marcada por uma disposição que a caracteriza e envolve).
O que nós temos das pessoas nunca são as suas determinações afectivas, mas o estado em que  nos deixam, como se houvesse uma relação de causa efeito, em que essa pessoa nos deixa tingidos com o fluxo específico da sua maneira de ser. A nossa relação com os outros só se cinge a uma determinações objectivas por características abstractas (alto, homem, etc).
Nós não conseguimos ter uma intuição do que o outro é só pelo olhar, pois a tal relação entre causa e efeito não se verifica sempre. Muitas vezes não se produz um estado eficaz e atuante da presença do outro em nós (ἐνέργεια), não se acende sempre uma luz dos outros em nós. O acontecimento do outro é sempre disposicional, mesmo quando a disposição está apagado (pode-se, de facto, pensar uma relação disposicional com a não afectação dos outros em nós, como é o caso das pessoas que passam na rua). Cada outro é uma melodia, que pode estar a tocar aos berros, pode ter várias cadências, pode ser música de fundo, como um contra baixo, ou mais ao estilo de um saxofone (a cadência do outro é sempre musical e por isso permite ter uma relação com o tempo). Por mais que eu queira isolar a disposição que o outro é o que os outros provocam em nós é uma disposição térmica (aquecem, arrefecem), que varia, e que aparece e desaparece por vagas.
Isto não é difícil de perceber que é assim -- difícil é isolar um momento metodológico ao modo científico. Porque ao fazê-lo ela fica despida de fenómeno atmosférico, e resta a pura anatomia, sem qualquer contacto com o suposto interior. Aquilo de que eu ando à procura desaparece, o fluxo atmosférico desaparece. Isso impossibilita o que se visa porque nós interpretamos o outro sempre já como portador da vida. Por isso, quando eu o desvitalizo ele surge-me como mera abstração, e é dificílimo não o desvitalizar quando o tento ver por categorias científicas e objectivas.
Há uma enorme dificuldade em perceber que o outro é portador da vida, porque o outro pode não ter importância para nós, porque ele nos surge como se nós estivéssemos no trânsito. Nós temos contacto e somos com pessoas que correspondem a uma ínfima parte das pessoas que vemos. Quando uma pessoa é para nós ela deixa de ser uma anatomia e passa a ser uma personagem da nossa vida, passa a ser parte da nossa vida (de tal modo que as pessoas com quem nos relacionámos nunca desaparecem da nossa vida). A população que passeia às X horas são figurantes, são o pano de fundo, e assim as pessoas surgem neutras e impessoais e isso implica já a interpretação de um deficit quanto à sua presença na nossa vida. Eles são vistos como um papel na nossa própria vida, um papel secundário, e isso não corresponde ao uma determinação objectiva, mas à existência de uma vida que é uma peça, mas é uma peça que está fora do holofote que ilumina a minha vida. O que está em causa e o que Heidegger tem de destruir é o facto de tendermos a pensar que quando alguém passa a ser das nossas relações passa a ser um conteúdo subjectivo (no sentido de meramente subjectivo, não objectivo cientificamente-- por exemplo, as mães a falar dos filhos)
A priori o que existe é a natureza da relação que abre de nós para outros, e não uma relação objectiva ou subjectiva. O importante é a natureza da relação entre sujeito e objecto. Nesta perspectiva que contrapõe um sujeito e um objecto duas pessoas nunca se encontram -- nunca nos podemos encontrar com outro numa relação de sujeito objecto. Nesse caso não há janelas que permitam ver o que o outro é. O solipsismo é não anulável porque é o modo irremissível como nós vemos o outro numa relação sujeito objecto . Mesmo que não saibamos o papel de A e B nas nossas vidas, sabemos que a personagem que nunca apareceu e de repente aparece e depois passou, mas essa pessoa que foi uma aparição nunca se torna um conteúdo objectivo nas nossas vidas. Nós aparecemos aos outros como personagens nas suas vidas, tal como eles a nós. E uma percepção nunca poderia dar conta deste acontecimento. O outro surge-nos sempre disposicionalmente, quer ele esteja à nossa frente ou não. Quando não há percepção o outro pode surgir-nos e nesse caso surge-nos com uma "impressão digital" disposicional ( é disso que sentimos falta quando temos saudades). A vitalização do outro pelo papel que tem na nossa vida e a desvitaliação do outro pelo papel que tem na nossa vida. O ponto é que o carácter objectivo do outro só surge com quando não conseguimos ter acesso a disposições. A compreensão do outro como personagem na peça é que a caracteriza como aquela vida, passa a haver uma adesão ao outro pela adesão a essa vida do outro, é isso que nos mobiliza na espectativa de encontro -- é por isso que as pessoas se encontram e desencontram. É por isto que só os humanos se encontram e desencontram, porque se acedem por disposições.  O outro acontece-nos como um sentimento que invade e inunda a nossa vida. É assim que também nós somos para os outros.
O que se passa na análise do ser com o outro é que percebemos que só na anulação da disposição pode haver uma análise objectiva, só nesse caso ele pode ser um objecto; mas esse objecto é morto, é desvitalizado. A subjectivização é a condição de possibilidade de o outro ser uma pessoa, caso contrário é um objecto. Ver o outro por uma percepção pura não é ver um outro, é ver uma quantidade de características puras e objectivas. Assim, compreende-se que olhar o mundo exclusivamente através de um modo de ver categorial torna o mundo inabitável e completamente esvaziado de sujeito (como diz Wittgenstein no Tractatus e nos Tagebücher 1914-16).
Se estivermos numa perspectiva de observação nós já estamos numa disponibilidade de observadores, e por isso temos um olhar condicionado que reduz o outro e faz cair o seu carácter de portador da existência ao mero carácter de percepção. Se as categorias com que operamos pressupõem uma ontologia natural, que tem uma relação de sujeito com objecto, como é que eu posso dar conta do outro como atmosfera? O ponto é procurar expor-se à situação em que a disposição acontece de um modo lancinante, de tal forma que o que acontece nessa relação não pode bipolarizar a relação entre sujeito e objecto. Não passa por analisar o que é uma disposição e a relação de causa efeito, mas perceber que a disposição em que nos encontramos é a natureza da relação entre o que estamos a ver e nós próprios. Não ao modo da reflexão, mas ao modo do "encontrarmo-nos a nós" em tal situação e em tal atmosfera. Por exemplo o papel que tal sítio desempenha nas nossas vidas (ex. a faculdade).Os sítios têm, ou não, importância consoante a susceptibilidade de animação deles nas nossas vidas -- eu organizo cidades pela forma como elas animam a minha vida.
Nunca sucede um conteúdo ser ausente e depois passa a ser presente como conteúdo objectivo que também se encontra numa relação comigo. O sentido do ser dessas coisas é sempre disposicional. Não é uma passagem de um conteúdo neutro e objectivo que depois passou a subjectivo, mas sim uma destruição dessa relação implícita entre sujeito e objecto, relação essa que não permitia dar conta do modo como eu me encontro a mim em relação com coisas e por isso com atmosferas de sentido. As análises das feromonas e do efeito que elas têm entre pessoas só pode ser percebida e interpretadas porque nós já sabemos o estado e as disposições em que nos deixam. Esses mecanismos são simples, no fundo correspondem apenas à transformação da relação entre causa e efeito em relações de estímulo e reação. Mas não deixa de ser uma interpretação que apenas acontece já como interpretação no seio de uma ontologia natural que é a linguagem. Nenhuma análise de geografia poderá dar conta do que é a praia da minha infância, ou sequer do que é uma praia para mim. Porque essa forma de determinação deixou de fora a análise maciça da forma como nós vivemos os acontecimentos. O modo como nós nos encontramos é deixado de parte por esta análise. Nós encontramo-nos a nós próprios não como se estivéssemos a ler um livro de psicologia, mas estamos já a ler esses tratados como quem lê  o Zodíaco aos sábados no jornal -- nós reconhecemo-nos ali porque já sabemos como somos, porque temos uma abertura a priori a nós próprios. Não é a transição de um campo categorial do sujeito objecto para um campo categorial onde tudo é subjectivo, mas perceber que só há objectividade se o outro deixar de ser o outro e passar a ser neutro e eu passar a ser neutro. Não é uma coloração subjectiva que destrói o carácter objectivo, mas perceber que este projecto científico não corresponde à possibilidade de compreensão das coisas, mas que, pelo contrário, esse modo de ver destrói completamente a existência e por isso a compreensão das coisas. Não é uma tentativa de assassinar o objectivo das ciências, e dizer que devia haver uma biologia existêncial, mas mostrar que isso depende já de uma disposição.

Equipas de investigação


  • Actualização de Equipas 2012:
  • Informamos que o(a) Investigador(a) Responsável pelo(a) Linguagem, Interpretação e Filosofia - LIF o(a) indicou como membro integrado da sua equipa de investigação. Pedimos apenas que confirme essa associação.
  • Data de Referência da Atualização: 31 de Dezembro de 2011
  • Nome do Investigador: António Jorge de Castro Caeiro | Grau Académico: Agregação | Categoria Profissional: Professor Auxiliar
    Validado a: 05-02-2012 19:26:18 | Tempo Dedicação: 30% | Fraccção elegível: 1
  • Confirmado a: 09-02-2012
  • Actualização de Equipas 2012:
  • Informamos que o(a) Investigador(a) Responsável pelo(a) Centro de Estudos Clássicos o(a) indicou como membro colaborador da sua equipa de investigação.
  • Data de Referência da Atualização: 31 de Dezembro de 2011
  • Nome do Investigador: António Jorge de Castro Caeiro | Grau Académico: Agregação | Categoria Profissional: Professor Auxiliar
    Validado a: 09-02-2012 15:46:03 | Tempo Dedicação: 20% | Fraccção elegível: 0

TEMAS DE FILOSOFIA ANTIGA. 3ª SESSÃO. HANDOUT

3ª sessão. Handout. 19 de Feveiro, 2019 Sen. Ep. 58. 6.  Quomodo dicetur ο ὐ σία res necessaria , natura continens fundamentum o...