quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Telecomunicação e Telepatia em São Paulo. Lido na FCSH para o Núcleo de Estudantes Católicos da Nova

Telecomunicação e Telepatia em São Paulo.
Lido na FCSH para o Núcleo de Estudantes Católicos da Nova

A Epístola aos Gálatas ou, melhor, às comunidades da Galácia,⁠1 uma das primeiras do Apóstolo datada entre 55 e 60 D.C. é redigida bastante tempo depois da data provável do acontecimento fundamental da sua vida na estrada para Damasco cerca de 34. Lemos logo nas primeiras linhas a sua apresentação, como é sempre seu costume: 

Gal. I.: (1.) Παῦλος ἀπόστολος, οὐκ ἀπ’ ἀνθρώπων οὐδὲ δι’ ἀνθρώπου ἀλλὰ διὰ Ἰησοῦ Χριστοῦ καὶ θεοῦ πατρὸς τοῦ ἐγείραντος αὐτὸν ἐκ νεκρῶν, (2.)  καὶ οἱ σὺν ἐμοὶ πάντες ἀδελφοί, ταῖς ἐκκλησίαις τῆς Γαλατίας· (3.)  χάρις ὑμῖν καὶ εἰρήνη ἀπὸ θεοῦ πατρὸς ἡμῶν καὶ κυρίου Ἰησοῦ Χριστοῦ,  (4.)  τοῦ δόντος ἑαυτὸν ὑπὲρ τῶν ἁμαρτιῶν ἡμῶν ὅπως ἐξέληται ἡμᾶς ἐκ τοῦ αἰῶνος τοῦ ἐνεστῶτος πονηροῦ κατὰ τὸ θέλημα τοῦ θεοῦ καὶ πατρὸς ἡμῶν, (5.) ᾧ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας τῶν αἰώνων· ἀμήν.

“Paulo, apóstolo⁠2, isto é, enviado como embaixador e mensageiro, com valor de particípio perfeito, não a partir dos humanos (plural) nem através de nenhum homem (singular)  mas através de Jesus Cristo e de Deus pai que o ressuscitou dos mortos.” Gal. I,1. A seguir transmite a mensagem que foi incumbido de entregar:  “A graça e a paz esteja convosco, a partir de Deus nosso pai e do senhor, Jesus Cristo, que se entregou pelos nossos pecados para que nos livrasse a nós desta vida em vão e precária, determinada inexoravelmente desde sempre à partida pelo fim do seu tempo: de acordo com a vontade de Deus que também é o nosso pai, a quem pertence a glória, para que nos libertasse para a vida que é para sempre e cria continuamente o tempo dos tempos em que é tempo.”

O que São Paulo nos diz é claro: é um embaixador, foi enviado com uma mensagem. Para desfazer equívocos diz de onde não vem: não é embaixador de nenhum ser humano, não foi enviado por (nem com a ajuda de) nenhum ser humano. Nenhum ser humano é seu meio ou instrumento. Contrariamente, diz afirmativamente quem o enviou: Deus Pai, se lermos o genitivo com regência da preposição: ἀπό e que foi enviado através de Jesus Cristo, em genitivo regido pela preposição “διά”: o modo como vem, o caminho que percorreu, o meio ou instrumento, se assim se pode dizer. 

O conteúdo da mensagem é a graça e a paz esteja convosco: χάρις ὑμῖν καὶ εἰρήνη . Parece apenas um bordão. Faz parte das regras de etiqueta epistolar. É o que escrevemos: “espero que esteja tudo bem”. Ou então quando nos despedimos de alguém, dizemos na nossa língua: “vai ou fica em paz”. Os gregos tinham essa uma saudação idêntica quando se encontravam: χαίρε! que exprime a expressão do prazer que temos em ver alguém ainda que o imperativo seja uma exortação: que te possas regozijar, que a graça esteja contigo. Nas cartas, Platão escreve sempre a Dionísio, o seu destinatário: Πλάτων Διονυσίῳ εὖ πράττειν, 309a1: Platão deseja a Dionísio um passar bem. Os latinos dizem: salue: que tenhas estado a salvo e perseverado ou uale: força, saúde.

Porém, a χάρις e a εἰρήνη aqui em causa não expressam a disposição do remetente Paulo aos seus destinatários. E mais: é certo que a carta tem conteúdos concretos e complexos que configuram os temas fundamentais da teologia paulina: a diferença radical entre fé e lei, a discussão da obrigação de circuncisão e a proibição de comer oferendas sacrificiais, a oposição entre o corpo como carne e a vida como espírito, pecado e redenção, dormir e acordar, morte e ressurreição.⁠3 

Se não houvesse mais nenhuma linha escrita por Paulo, nem mais nenhuma epístola de São Paulo, verificaríamos que estas linhas são são enigmáticas. Elas convertem o que dizemos por etiqueta ou só da boca para fora: no próprio conteúdo da carta. Quer dizer, convertem a saudação no próprio conteúdo da mensagem. E só não acharíamos estranho, porque há cartas que escrevemos ou mensagens que enviamos a dizer apenas: “espero que esteja tudo bem contigo”.

Mas estas linhas não podem deixar de nos causar perplexidade. É que não é Paulo que deseja na primeira pessoa, se assim se pode dizer, a Graça e Paz aos Gálatas. Paulo é mero transmissor da mensagem. Esta Graça e esta paz são enviadas exclusivamente por Deus, nosso pai e Jesus Cristo nosso senhor. Mais: elas apenas são configuráveis por Deus e em Deus através de Jesus. 

Paulo não está a transmitir uma mensagem de alguém de outrem. Ninguém no mundo, nenhum ser humano pode dar aquela graça e fazer aquela paz. Deus está absolvido das gerações de gerações de seres humanos e comunica telepaticamente se assim se pode dizer à distância absoluta do humano com Paulo. O conteúdo: a graça e a paz vêm do alto, ou do fundo, do exterior absoluto ou da interioridade total: de cima para baixo ou de baixo para cima de fora para dentro ou de dentro para fora: não importa a localização mas acontecem numa dimensão que esteve indisponível até à paixão de Cristo e até à compreensão do seu conteúdo transmitido directamente em contacto com Jesus a Paulo que o vê ao vivo e a cores em carne e osso. 

Peter Sloterdijk descreve o discurso apostólico precisamente a partir deste passo. A comunicação é uma telecomunicação no sentido etimológico do termo, e é telepática. 

“Diese midiumistische Wendung bedeutet nichts anderes, als Dass der Apostel in einem ontologischen Subjektwechsel austauscht. Dies hat Kierkegaard gesehen, wenn er seinen Paulus sagen läßt, ‘dass Gott selbst… der Sprechende ist.” (20.)  ζῶ δὲ οὐκέτι ἐγώ, ζῇ δὲ ἐν ἐμοὶ Χριστός: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.⁠4 

Paulo é constituído mensageiro de um conteúdo que não é humano. É embaixador de um reino que não está disponível ao humano. O conteúdo é apresentado de diversas modos: aqui graça e paz, aspectos fundamentais do que é designado por evangelho: τὸ εὐαγγέλιον, a boa nova, ou ἐπαγγελία, a promessa. Mas este possibilitante não é um conteúdo do mundo nem da vida humana se assim se pode dizer. Não é de todo em todo um conteúdo: é uma outra forma radicalmente diferente de vida. Implica uma metamorfose e uma transfiguração do horizonte tal que fôssemos metamorfoseados e transfigurados nesse e por esse horizonte. 

Em I, 11: lê-se: “eu dei-vos a conhecer, irmãos, a boa nova que [vos] foi transmitida por mim: é que ela não é segundo o humano. I, (11.)   Γνωρίζω δὲ ὑμῖν, ἀδελφοί, τὸ εὐαγγέλιον τὸ εὐαγγελισθὲν ὑπ’ ἐμοῦ ὅτι οὐκ ἔστιν κατὰ ἄνθρωπον·” E prossegue: “porquanto nem eu a recebi junto de nenhum ser humano, nem me foi ensinada por nenhum humano, mas pela própria revelação de Jesus Cristo.”  (12.) οὐδὲ γὰρ ἐγὼ παρὰ ἀνθρώπου παρέλαβον αὐτό, οὔτε ἐδιδάχθην, ἀλλὰ δι’ ἀποκαλύψεως⁠5 Ἰησοῦ Χριστοῦ.”

ἀπο-κᾰλύπτω, aor. 2 Pass. -καλύφην CPR1.239.5 (iii A.D.): 2. disclose, reveal, τόδε τῆς διανοίας Pl.Prt.352a; τὴν τῆς ῥητορικῆς δύναμιν Id.Grg.455d, cf. 460a:—Med., reveal one's whole mind, Plu.Alex.55,2.880e:—in Pass., LXX1 Ki.2.27, al.; ἀποκαλύπτεσθαι πρός τι let one's designs upon a thing become known, D.S.17.62, 18.23:—Pass., to be made known, Ev.Matt.10.26, etc.; of persons, 2 Ep.Thess.2.3,6,8, etc.; 

Com efeito: “foi decidido por quem me tirou do ventre de minha mãe: chamar-me a si por obra da graça e revelar-me o seu filho: o filho de Deus dentro de mim para que fosse dar a boa nova aos povos: (15.)  ὅτε δὲ εὐδόκησεν ὁ ἀφορίσας με ἐκ κοιλίας μητρός μου καὶ καλέσας διὰ τῆς χάριτος αὐτοῦ (16.) ἀποκαλύψαι τὸν υἱὸν αὐτοῦ ἐν ἐμοὶ ἵνα εὐαγγελίζωμαι αὐτὸν ἐν τοῖς ἔθνεσιν. 

A revelação faz descobrir Jesus Cristo: genitivo objectivo, é operada por Deus. Há um duplo conteúdo na revelação: aquilo por que passou Jesus, a vida de Jesus, e o chamamento, a convocação de Paulo para a missão de o comunicar. Como comunicar o que é impossível para a perspectiva humana? Como aceder ao que é impermeável ao ponto de vista humano? Mesmo acreditando nesse contacto directo telecomunicativo e telepático de Deus com Paulo, como poderá Paulo transmiti-lo? Como pode dizê-lo? Terá de tornar presente o absolutamente ausente, terá de provocar a própria presença do sentido que não tem referente, é exterioridade opaca ou invisível. Como é a comunicação possível entre Paulo se não houver a própria metamorfose de Paulo em Cristo, se não houver esse encosto mediúnico em que a presença viva do espírito pede de empréstimo a vida de outro para nela se incorporar, nela encarnar, e dizer de si? 

Esta revelação qualifica a natureza da libertação da condição precária de vida que é em vão. Paulo relata como vivia o seu judaísmo ao extremo: ἀναστροφή, como fariseu, e perseguia com zelo excessivo a igreja que agora proclama para a destruir. A Epístola aos Gálatas é escrita dezasseis a vinte anos depois da chamada conversão de Paulo. Pelo próprio punho, diz-nos o Apóstolo que, depois de três anos passados em partes da Síria e da Cilicia, em missão de evangelização, foi até Jerusalem, de acordo com a revelação: (2.) ἀνέβην δὲ κατὰ ἀποκάλυψιν. 

Aí, conferenciou com os outros apóstolos no que ficou conhecido para a história como o concílio de Jerusalem. Deu a conhecer o conteúdo da sua missão evangélica para soubessem por ele em conversa privada: e ele próprio não estivesse a correr agora em vão nem tivesse começado um dia a correr em vão: καὶ ἀνεθέμην αὐτοῖς τὸ εὐαγγέλιον ὃ κηρύσσω ἐν τοῖς ἔθνεσιν, κατ’ ἰδίαν δὲ τοῖς δοκοῦσιν, μή πως εἰς κενὸν τρέχω ἢ ἔδραμον.

Paulo tem pressa: corro agora e continuo a correr tal como comecei a correr mas não quero estar a correr nem ter começado a correr em vão: εἰς κενόν. Mas as dobras da sua vida são constituídas por golpes de vista se assim se pode dizer que não apenas lhe dão conteúdos formais do que quer que seja. Esses conteúdos revelados são expressos em acção. 

A revelação é simultaneamente acção. 

É o agente, o operador, que faz dramaticamente mudar absolutamente de vida. Compreender é ser. Se não fosse posto em prática não teria sido compreendido. Pôr em prática, iniciar uma actividade, estar assim no activo é concomitante ao conteúdo revelado. 

Em Phil. 3: 12: pronuncia-se acerca da natureza desta relação que acontece na vertical e o deixa exposto ao horizonte de acontecimento de Deus através de Jesus: 

κατελήμφθην ὑπὸ Χριστοῦ [Ἰησοῦ]. Eu fiquei apanhado por Jesus Cristo. 

O que quer que seja pensado como este ter ficado apanhado constituiu uma alteração radical na sua vida. Na linha seguinte enuncia a consequência formal desse coup de foudre: “Uma única coisa porém digo: esqueci-me de tudo o que tinha sido a minha vida até então e passei a ficar extaticamente estendido para o que está por ser: 13: ἓν δέ, τὰ μὲν ὀπίσω ἐπιλανθανόμενος τοῖς δὲ ἔμπροσθεν ἐπεκτεινόμενος. Esta tensão que se estende na direcção do futuro, que é esticada pelo próprio futuro, que o faz virar totalmente para o que está por vir é o que altera radicalmente o que ficou lá trás: A partir daí tudo ia ser diferente. 

Em 1 Cor 15, 8: lemos: foi visto por mim e apareceu-me a mim como alguém que nasce fora do tempo, o último de todos: ἔσχατον δὲ πάντων ὡσπερεὶ τῷ ἐκτρώματι ὤφθη κἀμοί. A vulgata traduz: 15: 8: nouissime autem omnium, tamquam abortiuo, uisus est et mihi. Independentemente de haver uma diferença fundamental entre “apareceu-me a mim também” e “foi visto por mim também”, o grego não diz “apareceu-me a mim como que a um aborto”. Mesmo que seja conotado com uma ideia de desprezo, o grego diz: que nasce fora do tempo: ou é prematuro ou serôdio.  ἔκ-τρωμα, ατος, τό, = παιδίον νεκρὸν ἄωρον, Hsch.; untimely birth, Arist.GA773b18 (pl.), LXX Jb.3.16, al., 1 Ep.Cor.15.8, Ph.1.59; as a term of contempt, Tz.H.5.515. Aqui é inequívoco não apenas nasceu tarde: foi o último de todos; ἔσχατον δὲ πάντων, o último de todos. 

Há uma segunda característica nesta aparição, para além da intervenção cirúrgica e cinergética de Deus através de Jesus. Provoca a própria fissura abismal entre Saul e Paulo. Há um conteúdo para além do facto da aparição que é propriamente o que é arrancado à opacidade, tornado descoberto: revelado: I.1. Em AA, 9, 3-19, lemos pelo punho de Lucas que à pergunta de Paulo: “‘quem és tu, senhor?’ (Τίς εἶ, κύριε;).”, a “voz respondeu: ‘sou eu, Jesus, quem tu persegues. Vá lá anda, levanta-te e entra na cidade. Lá haverá alguém que dirá o que deves fazer.’” I.2. O conteúdo da revelação é dar a saber  tudo aquilo por que deve passar em nome de Jesus, ὅσα δεῖ αὐτὸν ὑπὲρ τοῦ ὀνόματός μου παθεῖν”. Descreve Lucas cinematograficamente: “E de repente como que lhe caíram escamas dos olhos, e voltou a ver. Levantou-se. 9, 17-19. 

Em 22 Paulo resume o que lhe é dado a ver nesse encontro. Lucas põe-no a falar em discurso directo. Em sua defesa perante Agripa, o Apóstolo diz que Jesus lhe disse: 17: ἐξαιρούμενός σε ἐκ τοῦ λαοῦ καὶ ἐκ τῶν ἐθνῶν, εἰς οὓς ἐγὼ ἀποστέλλω σε (18.)  ἀνοῖξαι ὀφθαλμοὺς αὐτῶν, τοῦ ἐπιστρέψαι ἀπὸ σκότους εἰς φῶς καὶ τῆς ἐξουσίας τοῦ Σατανᾶ ἐπὶ τὸν θεόν, τοῦ λαβεῖν αὐτοὺς ἄφεσιν ἁμαρτιῶν καὶ κλῆρον ἐν τοῖς ἡγιασμένοις πίστει τῇ εἰς ἐμέ.” Em: 20 diz-nos: ἀπήγγελλον μετανοεῖν καὶ ἐπιστρέφειν ἐπὶ τὸν θεόν, ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσοντας. “Libertei-te a ti do teu povo e dos gentios para te enviar de volta até eles, para lhes abrires os olhos, para se virarem da escuridão para a luz, para se virarem do poder de Satanás para o de Deus, para que possam receber remissão pelos seus pecados e a herança que é a daqueles que foram santificados pelo amor que tiveram por mim”. Em 20: resume o conteúdo da revelação forjado na aparição: “fui enviado para dizer aos povos que eles têm de mudar de compreensão e converterem-se em Deus, fazendo obras dignas da mudança da compreensão.”

Façamos zooming nas palavras de Lucas, para vincarmos os elementos decisivos. Lucas põe o Apóstolo a dizer em discurso directo o que Jesus lhe disse, A.A. 26 : O sentido da aparição é para duplo. Primeiro operatório, se assim se pode dizer, dividido em duas partes.

1. Paulo seja ministro e testemunha: do que sabe a respeito de Jesus e do que lhe fará ver a ele: ὧν τε εἶδές με ὧν τε ὀφθήσομαί σοι. 
2. abrir os olhos aos povos, para que se convertam ἀνοῖξαι ὀφθαλμοὺς αὐτῶν está implicado na viragem do olhar τοῦ ἐπιστρέψαι, primeiro ao pé da letra: ἀπὸ σκότους εἰς φῶς. Depois, em sentido teológico: τῆς ἐξουσίας τοῦ Σατανᾶ ἐπὶ τὸν θεόν.

Depois é teleológico também desdobrado por tuas frentes. 
1. e 2. é para que 
 1. recebam remissão dos pecados, τοῦ λαβεῖν αὐτοὺς ἄφεσιν ἁμαρτιῶν 
2. recebam a herança junto dos que foram consagrados pela fé que tiveram em Jesus: τοῦ λαβεῖν κλῆρον. 

O que é que Paulo viu e o que é que Jesus lhe terá feito ver? A que é que corresponde este “abrir de olhos”? E se compreendemos o que é virar-nos de um sítio para outro, de uma direcção para outra? Mas como virar-nos de Satanás para Deus? Mesmo que compreendamos o que é escapar à hora do diabo, que ele as há, como dizemos na nossa língua, graças a Deus, como se dá essa conversão, o duplo movimento de desvio e viragem? Em 26, 20 quando Paulo fala das suas actividades diz que transmitia a mensagem: que se arrependem-se e convertem-se para Deus, e que praticassem acções que merecessem arrependimento: ἀπήγγελλον μετανοεῖν καὶ ἐπιστρέφειν ἐπὶ τὸν θεόν, ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσοντας. 

As palavras decisivas são o substantivo: μετάνοια, ἡ, change of mind or heart, repentance, regret, Batr.70, Th.3.36, Philem.198, Plb.4.66.7, LXXPr.14.15, Aristeas 188, Plu.2.712c (pl.), etc.; ἀνίατος γὰρ τῶν τοιούτων μ. Antipho 2.4.12; γαμεῖν ὁ μέλλων εἰς μ. ἔρχεται Men.Mon.91; ἡ εἰς τὸν θεὸν μ. Act.Ap.20.21; μ. ἀπὸ νεκρῶν ἔργων Ep.Hebr.6.1. II. Rhet., after-thought, correction, Rutil.1.16. E o infinitivo μετανο-έω, perceive afterwards or too late, opp. προνοέω, Epich. [280]; opp. προβουλεύομαι, Democr.66; concur subsequently, τισι BGU747 i 11 (ii A. D.). 2. change one's mind or purpose, Pl. Euthd.279c, Men.Epit.72; μ. μὴ οὔτε . . τῶν χαλεπῶν ἔργων ᾖ τὸ . . ἄρχειν change one's opinion and think that it is not . . , X.Cyr.1.1.3. 3. repent, Antipho 2.4.12; ἐν τοῖς ἀνηκέστοις Id.5.91: freq. in LXX and NT, Si.48.15, al.; ἀπὸ τῆς κακίας Act.Ap.8.22; ἐκ τῶν ἔργων Apoc.9.20; ἐπὶ τῇ ἀκαθαρσίᾳ 2 Ep.Cor.12.21, cf. OGI751.9 (Amblada, ii B. C.); ἐπί τινι Luc.Salt.84, etc.; περί τινων Plu.Galb.6; τοῖς πεπραγμένοις Id.Agis 19: c. part., μ. γενόμενος Ἕλλην Luc.Am. 36. 4. c. acc., repent of, τὴν ἄφιξιν J.BJ4.4.5.

O substantivo ἐπιστροφή que pode ser traduzido por conversão, mas que enuncia as mais diversas formas como um objecto se pode mudar de direcção ou de orientação espacial e temporalmente como qualitativamente: virar do avesso, de pernas para o ar, virar-se para dentro, não estar virado para aí, virar uma página na vida, etc.., do avesso, de dentro para fora, etc., etc.. e o infinitivo Ἐπιστρέφειν que pode ser facilmente traduzido por “conuertere” para latim, o que dá em português a palavra directa: virar-se de um sítio para outro, comutar de direcções, mudar de direcção: da escuridão para a luz, do poder de Satanás para Deus, de uma vida para outra. Mas o que é traduzido por arrependimento? Nem sequer em latim o encontramos. Muito menos em grego. 

Paulo diz: μετανοεῖν e ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσειν. O infinitivo é composto de meta e de noein. Noein em grego refere uma capacidade de percepção, uma compreensão altamente sofisticada das coisas. É um vislumbre que vê não apenas para lá do que está dado a ver, mas também que vê o que de todo em todo não está dado a ver: capta coisas ou acontecimentos que vão para lá da percepção habitual. 

Homero usa-o na Odisseia do cão de Ulisses. Quando este regressa a Ítaca mascarado de velho andrajoso, apenas o cão tem o faro, o noos, para adivinhar o seu dono. A palavra refere o que se sente e se compreende por intuição, o nosso modo de sentirmos como é connosco, com os outros aí ao pé de nós e com o mundo. Mas há um elemento decisivo na palavra: meta. O convite não é para ver o que não está dado a ver apenas, nem para ver o que está dado a ver num sentido completamente diferente. 

O convite ou a intimação é para que se produza uma alteração absolutamente radical no nosso modo de ser, para que nos compreendamos de um modo completamente transtornado. Ou seja para alterarmos a nossa maneira de sentir e compreender as coisas. Apenas assim será possível o epistrephein. Nós não podemos alterar nada, não conseguimos mudar de vida, nem inverter rumos ou direcções se nem sequer soubermos o que há para mudar, que existimos numa maneira de compreender as coisas. Por maioria de razão como podemos mudar completamente a nossa compreensão das coisas? 

E ainda assim poderíamos estar a anos luz de perceber a natureza radical desta transformação. A transformação que esta mudança radical do coração levada a cabo pela tristeza tem um único conteúdo: Cristo na Cruz: o escândalo e a loucura: “até esta hora temos fome e sede estamos nus fomos esbofeteados e ficámos sem segurança e esforçamo-nos por trabalhar com as nossas próprias mãos: amaldiçoados abençoamos, fomos reduzidos à porcaria do mundo a escória de todas as coisas é o que somos até agora”, 1 Cor. 4, 11-13.

As palavras são fortes, mas não trazem nada que nos possam dizer, podem estar afastadas tanto de nós que nada nos dizem. Que metamorfose é esta por que passa a nossa compreensão das coisas? Que compreensão é esta que tudo muda como se pela primeira vez tivéssemos finalmente compreendido o que era ininteligível e não conseguíamos perceber? Ouvimos constantemente no relato: Cristo na Cruz e Cristo renascido. Cristo morre e Cristo ressuscita. 

Não há outro conteúdo na visão de Paulo. É este o conteúdo que ele tem de anunciar. Mas não será anunciar apenas a morte, o opróbrio, a traição, a perda, a tristeza aviltante a que Jesus foi condenado? É Paulo obrigado a pensar no que fez ao perseguir inocentes? Terá Paulo que se arrepender? E lamentar para todo o sempre o que foi até então e daí para a frente apenas terá de lamentar a sua sorte? Isso seria apenas uma consequência de uma tomada de consciência dos nossos actos. 

Sentimos culpa, amargura, impossibilidade e impotência. Mas não é isto que acontece a Saúl. 

Saúl morre na estrada para Damasco. Os seus pecados foram-lhe perdoados, ele não é quem era. Saúl não terá sido o que foi até então. Nasce Paulo. Paulo renasce com Jesus, mas não se trata de uma passar por cima do tempo, um ultrapassar da situação das situações na vida. 

No renascer está a vibração da morte. A morte constitui a possibilidade radical para a sermos. Sermos no encaminhamento da morte e compreender ser esse encaminhamento é o que diz a teologia da Cruz. A glória consiste em fazer esse caminho, não em nascer como se nada fosse, como se tudo fosse possível. “Τί καὶ ἡμεῖς κινδυνεύομεν πᾶσαν ὥραν; 31 καθ΄ἡμέραν ἀποθνῄσκω”. Eu estou a morrer em cada hora, diz o verbo frequentativo em grego: morro-me, diz o latim: morior. 

A linha 4 revela o teor da borla, da graça, que aqui está em causa. Jesus deu a sua vida pelos nossos pecados. 

Não que não tenha havido mártires e que o sacrifício humano seja desconhecido bem como a grandeza da alma humana. Não que não se saiba que houve quem morreu pela pátria, por uma causa, pelo que quer que seja. Mas que alguém se tivesse entregue pelos nossos pecados é completamente absurdo e uma tolice do ponto de vista humano. Para um grego uma loucura. Para um judeu o opróbrio. 

Esta entrega da vida tem um propósito, mesmo que estranho e absurdo ou com um preço incomensurável para o ganho ou com uma perda absurda relativamente ao ganho: para que fôssemos retirados deste tempo presente que está constituído e que é πονηρός. A vulgata traduz: ut eriperet nos de praesenti saeculo nequam. Nequam quer dizer várias coisas: sem dúvida: ruim, mau, depravado, vil, maldoso, mas quer dizer também que não presta, inútil: em vão. O mesmo diz o adjectivo grego.⁠6 Ο primeiro sentido que nos oferece o LSJ é físico: agastado pelo sofrimento, penoso, grave. O segundo sentido é: inútil, bom para nada e pode ser referido a apetrechos, instrumentos, coisas, circunstâncias, situações e pessoas. No terceiro sentido refere-se então à moralidade: sem valor, mau, ou à natureza do carácter: cobarde, vil.

O que o adjectivo qualifica é a natureza do tempo da vida humana.⁠7 Αἰών é traduzido na vulgata por “saeculum”⁠8, que fez história tanto que a história é medida em séculos e milénios, mas que acentua o carácter do mundo como conteúdo do tempo. O latim conhece, contudo, a mesma palavra com a mesma raiz: αἰϝών: aeuum⁠9 que refere a natureza do tempo da vida humana. O mundo é como é porque está configurado por uma cronologia crónica: é sempre transitória. O mundo é o que é porque o seu horizonte de acontecimento é tempo que passa. Ora tal não quer dizer que seja pouco tempo. Pode ser o tempo da eternidade: séculos de séculos, gerações de gerações: desde sempre e para sempre. O que sucede é que desde sempre e para todo o sempre o tempo específico da idade, do ser humano, se assim se pode dizer é precário: desde sempre e para todo o sempre o tempo da vida humana é precário. 

Quer dizer: Jesus entregou-se pelos nossos pecados, mas o mesmo é dizer Jesus entregou-se pela essência do tempo transitório e passageiro da vida humana: que está continuamente a inutilizar-se se assim se pode dizer, porque cada instante que se constitui de novo vindo do por vir representa a morte do instante que esteve vivo e em vigor mesmo agora aí, há pouco, e por maioria de razão traga continuamente todos os outros mais remotos e afastados tanto que até caíram no esquecimento. Esta vida é uma modalidade da vida. Paulo qualifica-a como sendo precária, porque nem todos os momentos têm o mesmo teor, em vigor está apenas o tempo presente: e obliterados estão sempre os momentos passados, o passado todo e o por ser ainda do futuro que ainda não foi. A própria vida humana é assim como diziam os Gregos antigos: um dia. Na nossa língua ainda dizemos que a vida é um só dia. 

O tempo presente converte todas as minhas acções em pecado: O resultado desta tensão especialmente vibrante entre fazer a vontade de Deus ou fazer a vontade que nos dá é o que Paulo tem claramente aqui sob foco. Ela pode ver-se descrita na I Epístola de João 2, 15-17: “Não ameis o mundo nem o que há no mundo (τὰ ἐν κόσμον). Se alguém ama (ἀγαπᾷ) o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo— a concupiscência da carne (ἡ ἐπιθυμία τῆς σαρκός/concupiscentia carnis), a concupiscência dos olhos (ἡ ἐπιθυμία τῶν ὀφθαλμῶν, concupiscentia oculorum) e o estilo de vida orgulhoso (ἡ  ἀλαζονεία τοῦ βίου/iactantia diuitiarum/ambitio saeculi)— não vem do pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa e também as concupiscências, mas quem faz a vontade de Deus permanece para sempre. (οὐκ ἔστιν ἐκ τοῦ πατρός, ἀλλὰ ἐκ τοῦ κόσμου ἐστίν: [17] καὶ ὁ κόσμος παράγεται καὶ ἡ ἐπιθυμία [αὐτοῦ], ὁ δὲ ποιῶν τὸ θέλημα τοῦ θεοῦ μένει εἰς τὸν αἰῶνα.)”
O que me configura é a expressão máxima da condição de escravidão e servidão em que desde sempre já me encontrei: a ἁμαρτία, o que na tradução latina se traduz por pecado, de pecco, as, aui, are, peccatum que tem em sânscrito a raiz pik- ficar furioso. A raiz grega significa falhar o, e atirar além do, alvo, passar das marcas. O que o desejo, a aspiração, o apetite devorador, a vontade irresistível, a ambição, a cobiça e a ganância fazem ao substituírem-se a nós não é o que queremos mas confundem-nos ao ponto de nos fazerem pensar que é isso mesmo que queremos.
Assim a esfera do que peca, do que erra e falha, é vastíssima e não se circunscreve ao que habitualmente pensamos que é. Não se trata apenas dos pecados capitais nem daqueles que se prendem especificamente com a sensualidade ou a irascibilidade. Na verdade o pecado entendido como o que nos obriga a concentrar-nos em nós. Faz-nos esquecer de tudo o que não tenha que ver com o conteúdo em que estamos num dado momento única e exclusivamente interessados. E esse interesse é total. Estende-se, portanto, a todos os momentos da nossa vida. A nossa condição é tal que eu nos servimos a nós desde sempre, já à nascença.
A fome é a minha fome no preciso instante em que se faz sentir e só penso em comer, isto é, quando ela me submerge na ditadura do seu instante e me isola na sua cápsula. A sede é a minha sede no preciso instante em que se faz sentir e só penso em beber, isolando-me consigo no conteúdo preocupante e necessário do que preciso. E até o sono é o meu no momento em que me adormece. O cansaço em geral é o meu cansaço, quando me cansa. O mesmo com a minha sexualidade, a minha auto-afirmação, o meu feitio e temperamento, a minha peculiaridade, a avidez incontrolável da vontade de saber, a minha afectação pelo sublime na arte ou na natureza, a precipitação cega da força da minha vontade, mas também a minha mais profunda necessidade religiosa: todas estas tendências mais ou menos acentuadas e que vincam as dobras do tecido de que a minha vida se encontra revestida encontram-se enraizadas na condição aparentemente não anulável, inexpugnável, irresistível, incontrolável da minha servidão e da minha escravidão de nascimento: A MIM. 
Eu sou esta fúria que me dá, este tiro que erra o alvo, falha objectivos, se excede, passa das marcas, sai para fora dos eixos, transgride, ultrapassa os limites. Sou por outro, ou por outros, e até no momento da submersão e do naufrágio no isolamento absoluto em que sou a fome, a sede, o apetite sexual, a curiosidade científica, a auto-afirmação, o temperamento, humor e feitio, a cegueira da vontade, o toque do sublime, a necessidade religiosa: eu sou isso tudo para que me deu, sem margem de manobra, totalmente absolvido dos outros, só eu e o meu mundo. (Karl Barth, Römerbrief).
E até no simples adormecer de cansaço tão compreensivelmente humano, posso converter-me em traidor:  Lc, 22. 45-46: “Depois de orar, levantou-se e foi ter com os discípulos, encontrando-os a dormir, devido à tristeza. Disse-lhes: ‘Porque dormis? Levantai-vos e orai para que não entreis em tentação’”.
Jesus deu a sua vida, assim, para que nos libertássemos desta presente vida cujo tempo é como se fosse um só dia, não vinga, é de má qualidade, tem os dias contados: é constitutivamente precária e cronicamente transitória. É passageira para sempre. Da mesma forma que cada momento registado na nossa agenda se transforma em momento passado, riscado, que já está e não regressa mais, assim também é a nossa vida no seu todo. 

Pode, contudo, dar-se uma outra possibilidade. O que se apresenta como δόξα, como Glória de Deus, a vida de Jesus, não é o acontecimento exuberante e exultante que se dá quando se sente euforia no transe da alteração de estados mentais. A Glória é construída precisamente pela compreensão do carácter temporal da vida cronicamente finita. Mas no sentido em que cada gesto não acaba no momento em que dura a acção da sua expressão mas fica inscrito não apenas para o futuro da nossa vida como para o futuro total do tempo dos tempos. A vida de Jesus é a possibilidade extrema e radical de vencer a morte através da compreensão do carácter mortal do horizonte vital tal como está constituído. É a força da pressão que exerce a parede maciça, a montanha escarpada da morte com que Cristo arrosta. Cada momento da vida é assim um momento que não é o último e tudo seria possível, mas um momento que tem um conteúdo que está a ser inscrito no para sempre e tem de ser resgatado à possibilidade de não ter sido. A glória de Jesus é a ressurreição: Deus acordou-o dos mortos, e projectou-o e projectou-se para todo o sempre num a haver de ser. Mas a glória da ressurreição está intrinsecamente ligada à compreensão da da entrega de Jesus à morte, ao seu viver por que é tão extremo como morrer por. É este o conteúdo da configuração universal revelada pela vontade de Deus que Jesus fez. 

Em 3, 26-29: lê-se “todos são filhos de Deus por causa da fé em Cristo Jesus, 27 todos quantos mergulharam em Cristo, em Cristo se revestiram. 28 não há Judeus, nem gregos, não há escravos nem homens livres, não há homens nem mulheres: todos são um único acontecimento em Cristo Jeus”. Por que Deus não faz acepção de pessoas: Rom. 2, 11: οὐ γάρ ἐστιν προσωπολημψία παρὰ τῷ θεῷ. 29: se forem de Cristo, são semente de Abraão, herdeiros de acordo com a promessa.   

No capítulo 4, Paulo descreve num símile em que consiste esta alteração do sentido do horizonte da vida. Compreende-se de uma forma clara o sentido da revelação escatológica como testamento e herança ou melhor como habilitação de herdeiros a uma herança deixada em testamento, por alguém que deixa Paulo como executor testamentário e tutor. O conteúdo da herança é: promessa, o evangelho, a graça, a paz, a liberdade e o amor. Os herdeiros são cada um dos seres humanos sem excepção.

4,1: Eu digo-vos que durante o tempo em que o herdeiro é menor, não se distingue em nada de um escravo, mesmo podendo ser o dono de todas as coisas, 2: mas está à guarda de um tutor e a cargo de procuradores. 3: assim também se passa connosco, enquanto éramos menores estávamos escravizados aos elementos deste mundo, 4: quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu filho, nascido de uma mulher, vinculado pela lei, 5: para que resgatasse os que se encontram sob a custódia da lei, para que pudéssemos ser recebidos em adopção. 

O processo é idêntico ao das agências que procuram herdeiros para se poderem habilitar à herança deixada em testamento por alguém que não conheciam. Um herdeiro cujo paradeiro é desconhecido. O processo passa pela habilitação à herança que alguém nos deixou em testamento. Por outro lado, trata-se da qualificação de um tempo que é vivido sob tutela e a cargo de outrem sem poder habilitar-se à herança ou ter plenos poderes sobre o que lhe foi deixado em testamento justamente por causa da menoridade. 

O conteúdo da herança testamentária é que é completamente diferente. É como se o processo de adopção permitisse um desvinculamento do humano como membro de uma família ou etnia. A configuração da adopção de cada humano por Deus é internacional. A possibilidade é um ganho de maioridade, mais a possibilidade de uma emancipação tal que deixássemos de estar na situação de escravos sem vontade nem querer e passássemos a ser: filhos. 7: É pelo facto de vocês serem, diz-nos Paulo, filhos que o único Deus, ὁ θεός, soprou o espírito do seu filho para dentro vossos corações, quando ele, naquele momento gritou: Abba, pai.

É assim que no tempo em que não tínhamos sabido de Deus, servíamos a deuses que não o eram na sua essência, φύσει μὴ ὄντες. 9: mas agora já reconheceram Deus, ou antes: foram reconhecidos por Deus. O passo marca dois tempos completamente diferentes: τότε e νῦν, que correspondem não apenas a datas diferentes mas a situações de vida completamente diferentes: μέν, δέ. O que define essas situações são a ignorância relativamente a Deus: nunca tinha sido visto: οὐκ εἰδότες e o momento em que se fica a conhecer Deus, se reconhece Deus: γνόντες. Contudo, Paulo rectifica a formulação. Verdadeiramente, não somos os agentes do conhecimento de Deus, o humano não pode ver, nem conhecer muito menos reconhecer Deus seja de que modo for: cognitivamente ou afectivamente. É Deus que se dá a conhecer. Somos γνωσθέντες ὑπὸ θεοῦ. A passiva divina não nos constitui apenas em objecto de saber cognitivo teórico por Deus, o que quer que isso queira dizer. Deus reconhece-nos como seus filhos e esse reconhecimento é a entrega de Jesus, o seu filho, para que compreendêssemos o conteúdo radical da vida, o ser no encaminhamento da morte, a asfixia absoluta e o estrangulamento, a claustrofobia do reconhecimento da vida com um tempo inexoravelmente finito, já feito, e nós já feitos, como se ter nascido fosse ter ficado para morrer. É no reconhecimento efectivo da possibilidade radical da morte e na verdade da morte a que apenas eu me posso habilitar que me é dado a compreender a uia crucis de Cristo. E assim habilitar-me a que ela me trabalha de tal sorte que esse acontecimento da vida desse horizonte irrompa em mim, me configure, me metamorfoseie, não seja em vão, faça valer a pena.

Mas é neste encaminhamento que ganhei tempo. Não quantidade de tempo, pela primeira vez ganhei o poder do tempo. E o poder do tempo só pode ser ganho se escolhermos viver a vida arrostando com a morte. Mesmo que vivamos a eternidade, do ponto de vista humano será sempre a resvalar, sempre a perder, sempre a obliterar possibilidades atrás de possibilidades. 

O conteúdo de Cristo na Cruz em que a vida de Paulo se converteu é de uma outra natureza. É um coup de foudre fulminante. No primeiro olhar, a esperança. Uma esperança que não é vã. Um esperança que nasce no desespero: 2 Cor. 4, 7-12 “temos este tesouro em vasos quebráveis para que aconteça o sublime poder de Deus: o poder e o sublime não vêm de nos. Em todas as coisas passamos por aflições, mas não nos angustiaremos; sentiremos dificuldades mas não desistiremos. Sofreremos perseguições, mas não seremos nunca abandonados, seremos escorraçados mas jamais seremos destruídos: é por todo o lado que levamos Jesus sempre a morrer na nossa vida, para que também Jesus a viver seja manifestado na nossa vida. Com efeito nós que vivemos fomos entregues à morte por causa de Jesus para que a vida de Jesus se manifestasse na nossa carne mortal. É por isso que somos trabalhados pela morte para que a vida vos seja dada.”

O que quer que tenha acontecido a Paulo é esta história incrível e improvável de uma paixão de um amor impossível. Improvável e impossível: mas do ponto de vista humano. Num abrir e fechar de olhos uma deflagração e uma detonação. 1 Cor., 52: “num instante, num golpe de vista, num piscar de olhos, num abrir e fechar de olhos: os mortos hão-de acordar indestrutíveis e nós seremos mudados, allagêsometha. A morte há-de ser tragada pela vitória.” 

4.16-: “Não foi em virtude da Lei, mas da justiça obtida pela fé que a Abraão, ou à sua descendência, foi feita a promessa de que havia de receber o mundo em herança. De facto, se os herdeiros o são em virtude da lei, nesse caso tornou-se inútil a fé e ficou sem efeito a promessa. É que a lei produz a ira; mas onde não há lei também não há transgressão. Por isso, é da fé que depende a herança. Só assim é que esta é gratuita, de tal modo que a promessa se mantém válida para todos os descendentes.”
A ἐπαγγελία, a promessa, é garantida apenas pela justificação da fé, διὰ δικαιοσύνης πίστεως. De outro modo, se a fé for anulada também a promessa é neutralizada: κεκένωται ἡ πίστις καὶ κατήργηται ἡ ἐπαγγελία. A lei produz a fúria e possibilita a transgressão: ὁ γὰρ νόμος ὀργὴν κατεργάζεται· οὗ δὲ οὐκ ἔστιν νόμος οὐδὲ παράβασις. É no próprio reconhecimento da condição em que nos encontramos que encaramos a libertação da lei da morte pela transposição do regime de servidão para o domínio próprio e autêntico do seu Senhor. 
Isto é, a consciência aguda da presença lancinante da fúria de Deus, a aflição e a angústia, a falta de esperança, a derrota, esgotam qualquer espécie de antecipação ao que quer que seja. Mas é precisamente no esgotamento completo de todos os nossos recursos, na perda de toda a possibilidade de resistência, que se testemunha também uma possibilidade radicalmente nova, nascida não se sabe onde, provinda não se sabe para quê, dada não se sabe por quem. 
O anúncio faz-se de graça, é a promessa de que há uma possibilidade impossível. Impossível do ponto de vista mundano, impossível na psicologia da culpa, impossível deste lado de cá da vida. E contudo é esse impossível em que nos encontramos que é reconfigurado e se torna de novo no possível, numa nova aurora, numa outra hipótese, com uma outra oportunidade, pelo menos ainda. A promessa está constituída em anúncio novo da possibilidade de reclamar a herança. A promessa é o convite quase segredado na submersão e sucção do abismo: vem atrás de mim:
Coríntios II, 4. [5] οὐ γὰρ ἑαυτοὺς κηρύσσομεν ἀλλὰ Χριστὸν Ἰησοῦν κύριον, ἑαυτοὺς δὲ δούλους ὑμῶν διὰ Ἰησοῦν. Não somos nós que pregamos a partir de nós próprios, mas Jesus Cristo, senhor, pois nós próprios nos convertemos em escravos pelo fundamento de Jesus. [6] ὅτι ὁ θεὸς ὁ εἰπών Ἐκ σκότους φῶς λάμψει, ὃς ἔλαμψεν ἐν ταῖς καρδίαις ἡμῶν πρὸς φωτισμὸν τῆς  γνώσεως τῆς δόξης τοῦ θεοῦ ἐν προσώπῳ Χριστοῦ. A razão é o facto de que Deus, Quem disse que a luz reluzirá da escuridão, foi quem fez e tem feito reluzir nos nossos corações a luz da nascença da glória e do esplendor de Deus no rosto concreto de Cristo.
[7] Ἔχομεν δὲ τὸν θησαυρὸν τοῦτον ἐν ὀστρακίνοις σκεύεσιν, ἵνα ἡ ὑπερβολὴ τῆς δυνάμεως ᾖ τοῦ θεοῦ καὶ μὴ ἐξ ἡμῶν: É assim, pois, que possuímos este tesouro em vasos de barro para que a superabundância da potência nos aconteça provinda de Deus e não a partir das nossas próprias forças [8] ἐν παντὶ θλιβόμενοι ἀλλ᾽ οὐ στενοχωρούμενοι, ἀπορούμενοι  ἀλλ᾽ οὐκ ἐξαπορούμενοι, É assim que podemos estar na aflição total a respeito de tudo e ainda assim não totalmente asfixiados pelo esmagamento, é assim que podemos estar presos de grandes dificuldades e ainda assim não totalmente desesperados, [9] διωκόμενοι ἀλλ᾽ οὐκ ἐγκαταλειπόμενοι; καταβαλλόμενοι  ἀλλ᾽ οὐκ ἀπολλύμενοι, perseguidos e não abandonados, abatidos e, contudo, não destruídos. [10] πάντοτε τὴν νέκρωσιν τοῦ Ἰησοῦ ἐν τῷ σώματι περιφέροντες, ἵνα καὶ ἡ ζωὴ τοῦ Ἰησοῦ ἐν τῷ σώματι ἡμῶν φανερωθῇ: Por toda a parte e durante o tempo todo das nossas vidas transportamos a morte de Jesus no nosso corpo para que a vida de Jesus se deixe manifestar no nosso próprio corpo. [11]  εὶ γὰρ ἡμεῖς οἱ ζῶντες εἰς θάνατον παραδιδόμεθα διὰ Ἰησοῦν, ἵνα καὶ ἡ ζωὴ τοῦ Ἰησοῦ φανερωθῇ ἐν τῇ θνητῇ σαρκὶ ἡμῶν. Com efeito, ao vivermos entreguemo-nos no encaminhamento da própria morte por Jesus, para que a vida de Jesus possa deixar manifestar-se nesta morte de carne que é a nossa. [12] ὥστε ὁ θάνατος ἐν ἡμῖν ἐνεργεῖται, ἡ δὲ ζωὴ ἐν ὑμῖν. E tudo isto de tal maneira que a morte trabalhar a partir do nosso interior para que a vida vos aconteça.

A fé é trabalhada pelo amor: πίστις δι’ ἀγάπης ἐνεργουμένη. Gal, 5, 6. Vocês foram chamados para a liberdade: ἐπ’ ἐλευθερίᾳ ἐκλήθητε, sirvam-se uns aos outros sob o fundamento do amor, porque a lei será cumprida numa única palavra: amarás o próximo como a ti próprio:  ὁ γὰρ πᾶς νόμος ἐν ἑνὶ λόγῳ πεπλήρωται, ἐν τῷ ἀγαπήσεις τὸν πλησίον σου ὡς σεαυτόν. Que amor é este e como é que o amor é lei. Como se pode converter em lei o que é a liberdade. Parece uma contradição na lógica humana. O amor deve ser gratuito. Mas este amor não é um amor de nenhuma natureza humana. 

Tem a sua expressão radical no reconhecimento de si como adoptável por Deus, como susceptível do amor de Deus. Tem a sua expressão radical no reconhecimento do outro como susceptível do mesmo amor. Este amor a mim e o por mor de mim não é nem nunca poderá ser confundido com amor próprio e querer que o outro tenha amor próprio como se isso não fosse converter a vida humana numa impossibilidade de impermeabilização total entre uns e outros. 

Paulo descreve este amor como sendo obra e graça do espírito santo, obtido por uma paixão assolapada sentida num coup de foudre. A proveniência é de Deus, de nenhum ser humano, nem está no poder de nenhum ser humano amar daquela maneira. Mas é de mim que se trata. Este a mim que me acontece, mas que não vem do mundo, não é ninguém, não é nada. É uma promessa que se rasga e age retroactivamente sobre mim, não me visa particularmente na pessoa que sou. Na verdade, não tem nenhuma consideração por mim, se assim se pode dizer. Elege-me a mim como uma paixão e como as paixões acontecem quer queiramos quer não. Uma paixão que põe já em contacto comigo numa relação de haver de mim, de haver de ser eu, de poder ser ainda eu apesar da configuração precária e ruinosa do tempo cronicamente finito da vida humana. Este a amor por mor do qual eu sou, está ido por aí além até sempre, é o encaminhamento que me permite oferecer a resistência em face da possibilidade simples da impossibilidade. Vira-me e orienta-me para um por ser cuja possibilidade reconheço que não vem de mim, mas que me pode ser oferecida, uma ἀγάπη por mim que vem de Deus: agente da promessa, da boa nova, da graça, da paz e da liberdade. 

Eu livro de mim e liberto-me para mim configurado na possibilidade extrema e radical de um tempo que faz tempo, o meu tempo, em que eu sou quem sou por esse lance e esse projecto que eu compreendo ser eu próprio. É isso que eu reconheço no outro e na verdade em todos os outros. Não converto os estranhos em conhecidos, nem os outros em irmãos, reconheço-os como susceptíveis de amor, configurados por vidas também elas no constante escoar das suas possibilidades e dos seus tempos, e ao compreendê-los como podendo viver na relação radical e extrema do amor de Deus por eles, compreendo também um único acontecimento, uma única configuração, um único horizonte de vida. 

Em Mt 22, 39 é “πλησίος” o próximo, o que está na vizinhança, mas na passagem da ER é “ἕτερος” o outro, o estranho, o estrangeiro. Na passagem de Jo 15, 13: a  ἀγάπη é pôr a sua vida à disposição dos seus amigos. A aproximação vai da estranheza dos outros que são toda a gente que é como ninguém até à zona da vizinhança, que faz deles amigos e radicalmente os torna  δελφοί. O outro, o próximo, o amigo e o irmão são graus que podem encontrar-se em cada um de nós, na relação de nós connosco mesmos, desde quando não nos reconhecemos, ficámos diferentes, nos tornamos outros, ou estamos cada vez mais na mesma iguais aos próprios. A passagem de João indica ainda que a nossa escravidão passa a ser esclarecida. 
“Não vos falo como a escravos, δοῦλοι, porque o escravo não sabe o que faz o seu senhor, κύριος; falo-vos como amigos porque tudo o que escutei junto do meu pai vos fiz conhecer também a vós.” 
É esta possibilidade da configuração de mim pelo próprio de mim e não por quem em mim me obriga a servi-lo, esta possibilidade por obra e graça do espírito Santo que ao derramar me faz uma promessa, na expectativa do que há por vir, nesse golpe de vista, ῥιπὴ ὀφθαλμοῦ, olhar retrospectivo da eternidade, onde há amanhã e a esperança substitui o desespero, a alegria desintegra a angústia e a aflição.
É esta reconfiguração do “a mim” em Deus que equaciona a viragem e me permite abrir ao outro na verdade da sua vida a ser no encaminhamento da morte. Sermos susceptíveis de Deus pela fé, e não pela lei, faz de nós portadores da possibilidade desta vivência concreta. Cada um é, singularmente e não individualmente, cada qual e tanto mais o próprio quanto mais se reconhece radicalmente susceptível de si próprio descoberto no amor de Deus por si. É assim também que o outro é reconhecido enquanto um outro configurando-se a si em Deus pelo amor que Deus tem por outrem. A possibilidade de me tornar em mim próprio e não no que me deu, a possibilidade de que o outro seja aí na possibilidade que é sua de ser como é e não como lhe deu para ser, tudo isto resulta já de um redimensionamento provocado e produzido pela transfiguração e metamorfose que nos permite dizer: 
Cada um de nós existe implicado no horizonte em que somos com outros nesta geração mas também nas dos nossos pais, avós e bisavós ou filhos, netos e bisnetos, na verdade, cada um de nós existe envolvido pelo horizonte humano desde a primeira geração que tiver havido até à derradeira pessoa da última geração que tiver deixado de ser. Cada um de nós é, assim, a priori, à escala mundial, o tempo da vida sempre a ser com todos os outros, mesmo que a “todos os outros”, aos “outros” não corresponda senão o conteúdo confuso de “muita gente”. Mas para além desta metamorfose da nossa vida que a faz explodir para fora dos limites estanques datados pelas certidões de nascimento e de óbito, esticando-se até aos confins dos tempos do que foi e do que será, ela é este lapso de tempo que dura um piscar de olhos durante o qual há outros que continuamente chegam no próprio instante em que outros estão a deixar de ser. 
Cada um e cada qual é susceptível de comungar desta totalidade infinita, de uma forma concreta, em que as alegrias e os sofrimentos dos outros, passados, presentes e futuros, nos tocam e acontecem. 
Cada um de nós pode ser esse horizonte aí que se sente na vida com os outros aos quais nos ligam laços íntimos e estreitos ou uma ligação vaga e até mesmo aparentemente inexistente. Os outros são, contudo, a possibilidade de os encontrarmos, de por eles aguardarmos a vinda ou de os guardarmos já depois da sua partida, mesmo quando deles estamos num contínuo desencontro, numa eterna despedida. 
É a vida que verdadeiramente escancara a possibilidade de reconfigurar o conceito abstracto que resulta do somatório da população mundial. Se fixarmos o tempo de acordo com as coordenadas das nações unidas, o homo sapiens nasceu 52 000 anos. Os cálculos a partir daqui dizem-nos que terão vivido 107, 602, 707, 791 pessoas, que o número de pessoas que vivem em 2011 é 6,5 biliões. O planeta terra tem 4, 578 Biliões de anos. 52 mil anos é uma gota de água. Como o futuro do planeta está intimamente ligado ao do sol, consegue prever-se que devido à acumulação de hélio no núcleo do sol a luminosidade da estrela aumenta lenta mas consistentemente. Dentro fde 1, 1 bilhões de anos crescerá 10% e em 3, 5 bilhões de anos 40%.. Calcula-se assim que o planeta será habitado apenas durante os próximos 500 milhões de anos. Hoje nasceram aproximadamente  358,192 pessoas and 154,889 terão morrido. Em contas aproximadas dá-nos 255 bebés a nascerem a cada minuto e 102 pessoas morrem em cada minuto. 

Em 6.2: lê-se suportai o fardo que os outros têm de suportar e assim a lei de Cristo será cumprida. 3: se alguém se julgar ser algo quando não é ninguém, está a enganar-se a si próprio. 5: cada um singularmente terá de suportar o seu fardo.

Já lemos em 4,6: que Deus soprou o espírito do seu filho para dentro dos nossos corações  quando o fez chamar por si: pai. O amor aqui em causa é um acontecimento pneumático, é o amor declarado por Deus, através de Jesus. A história de paixão mais extrema que possamos pensar não pode ser comparável com ele. É uma atmosfera que se constitui e nos toca. Não é um acontecimento psicológico. 

Ensaiemos uma possibilidade de interpretação do que pode estar em causa na metamorfose e radical transfiguração da conformação habitual para o horizonte da vida.

Em 1. Cor, 15, 50-55: lê-se: Afirmo-vos, irmãos que a carne e o sangue não terão serão capazes de se habilitarem à herança testamentária do reino de Deus, βασιλείαν θεοῦ κληρονομῆσαι οὐ δύναται, nem é possível que a destruição herda o indestrutível: οὐδὲ ἡ φθορὰ τὴν ἀφθαρσίαν κληρονομεῖ. (51.) Eis o mistério: nem todos ficaremos adormecidos, mas todos seremos metamorfoseados: πάντες δὲ ἀλλαγησόμεθα, num instante indivisível, 52.) ἐν ἀτόμῳ, no golpe de vista, ἐν ῥιπῇ ὀφθαλμοῦ, no som da última trompeta. Porque quando houver ressoado os mortos ressuscitarão incólumes à destruição e nós estaremos metamorfoseados:, καὶ οἱ νεκροὶ ἐγερθήσονται ἄφθαρτοι, καὶ
ἡμεῖς ἀλλαγησόμεθα.  54: será então nessa altura que a palavra escrita se cumprirá: A morte será engolida pela vitória: Oh morte onde está agora a tua vitória 
τότε γενήσεται ὁ λόγος ὁ γεγραμμένος,
  Κατεπόθη ὁ θάνατος εἰς νῖκος.
(55.)   ποῦ σου, θάνατε, τὸ νῖκος;
   
É a transmutação radical do próprio, do mundo e dos outros. É uma forma de derramamento, um aluvial, que alaga e tudo imerge. Mas para além desta dimensão disposicional, irreal mas efectiva, diz Paulo em 5, 5: nós no espírito encontramo-nos na expectativa da esperança na justificação que resulta da fé: ἡμεῖς γὰρ πνεύματι ἐκ πίστεως ἐλπίδα δικαιοσύνης ἀπεκδεχόμεθα. Mas uma tal expectativa que forja a esperança é constituída numa vida que se expõe em absoluto à Cruz: τί καὶ ἡμεῖς κινδυνεύομεν πᾶσαν ὥραν; καθ’ ἡμέραν ἀποθνῄσκω. 1. Cor, 15, 30-31.

 Ou seja, é porque a vida terá sido toda ela como é no princípio já a hora da nossa morte, é porque desde todo o sempre e continuamente estou à beira da hora da minha morte que também tudo o que na vida se passa, a curto, médio ou longo prazo é sempre e continuamente passageiro: não se sustenta, tem uma qualidade precária. O que marca a essência do tempo da vida e na verdade o que lhe constitui a precariedade é o facto de ser o presente: ἐνεστώς. A categoria gramatical do tempo: 2. esp. Gramm., ὁ ἐνεστὼς (sc. χρόνος) the present tense, Stoic.2.48, D.T.638.22, A.D.Pron.58.7, al.; also ἐνεστῶσα συντέλεια the state of completion expressed by the perfect tense, Id.Synt.205.15: also in aor., τοῦ ποτὲ ἐνστάντος when the moment has arrived, Plot.4.3.13; τὰ ἐνεστηκότα πράγματα present circumstances, X.HG2.1.6; so τὰ ἐνεστῶτα Plb.2.26.3.

É como se todas as categorias gramaticais de tempo: passado, presente e futuro, como se todos os aspectos: imperfeito, perfeito e mais que perfeito estivessem colonizados e presos por este tempo já dado e já feito, mesmo que possa ser dilatado a toda a eternidade. Quer dizer: a vida humana é temporalmente tanto o tempo presente que no seu primeiro instante esse tempo está todo ele dado. É nele que desde sempre nos encontramos desde a mais tenra idade: 

“Omitto commemorare quae mala in hac ipsa transitoria uita pene omnes patiantur infantes, et quomodo explicetur quod dictum est: "Graue iugum super filios Adam a die exitus de uentre matris eorum, usque in diem sepulturae in matrem omnium”⁠10. Ou no adágio alemão: [1306] 38. Alsbald du geboren bist, so bistu alt genug zu sterben. – Wachter.⁠11 2. Alsbald wir werden geboren, so sind wir schon verloren. – Henisch, 1391, 65. »Die grösste Sünd' ist das Geborensein.« (Calderon, Das Leben ein Traum.). Ou em Calderón de la Barca: qué delito cometí/ contra vosotros, naciendo/ aunque si nací, ya entiendo/ qué delito he cometido: pues el delito mayor/del hombre es haber nacido⁠12.

O que quer que aconteça nesta possibilidade de transfiguração da vida constitui uma passagem de um tempo qualificado desta natureza não anulavel a partir da perspectiva humana para um tempo constituído por Deus, cuja expressão é Cristo Jesus. O αἰών deixa de ser determinado pelo ἐνεστὼς (sc. χρόνος) que enquanto tal é πονηρός, precário e passa a ser configurado por Jesus em Glória de Deus num tempo que passa a ser para todo o sempre: εἰς τοὺς αἰῶνας τῶν αἰώνων: saecula saeculorum. 

A passagem, a transfiguração, a alteração ou a metamorfose não é feita por nenhum ser humano. O saber dessa possibilidade, a compreensão dessa possibilidade não é humana. É um projecto de Deus: a vontade de Deus: κατὰ τὸ θέλημα τοῦ θεοῦ. Ou seja, o agente da passiva se assim se pode dizer é Deus, que actua através do seu filho Jesus, ao fazê-lo viver como viveu entregando-se pelos nossos pecados ou pela natureza do tempo da nossa vida presente e como tal sem passado, mas sem passado por que o presente está marcado pela anulação e erradicação total do futuro. Ou seja, o tempo presente está todo ele constituído como se houvesse sempre presente, mesmo passado e o futuro fosse como agora: uma espécie de nunc stans: um agora que está de pé e que se dilata à duração da eternidade. Mas o que sucede é precisamente que o presente, toda a minha vida, as vidas de cada um de nós, das gerações de gerações de humanos que viveram e viverão está determinadas pela ausência maciça de futuro. 

A vulgata traduz o verbo da acção de Jesus sobre nós ao fazer a vontade do Pai: eriperet, imperfeito do conjuntivo em oração final: ut de eripio⁠13, eripui, ereptus e que quer dizer raptar, tirar à força, mas também libertar, resgatar. O grego utiliza ἐξαιρέω: ὅπως ἐξέληται⁠14 ἡμᾶς e que quer dizer especificamente na voz média aqui empregue: libertar, liberar, pôr em liberdade. É utilizado em Acta apostulorum por São Lucas para dizer: libertar das aflições. Aqui: libertar-nos ou livrar-nos: ἐκ τοῦ αἰῶνος τοῦ ἐνεστῶτος. I, 5: permite compreender claramente a direcção do movimento do desvio: εἰς: para uma vida cujo tempo está por ser e constituir, um futuro que promete, e abre a possibilidade da esperança. 

Qualquer que seja a mudança de sentido da vida que deixa de ser precária constitutivamente de passagem e escoamento para passar a ser exponencial de si própria, Paulo descreve-a como um acto de libertação realizado por Jesus cumprindo a vontade do nosso Pai. Ou seja, o projecto vital qualquer que ele seja mas a própria forma da vida passa a ser determinada de acordo com Deus. Quer dizer não apenas seríamos à escala mundial, do tamanho do mundo ou universais, seríamos configurados pelo próprio horizonte de Deus em nós, que irrompe da exterioridade absoluta, de fora da temporalidade da vida e insusceptível de ser acompanhado, provocado, estimulado por um humano. Paulo não é Saul. Paulo não é ἄνθρωπος se assim se pode dizer mas existe ao fazer a vontade de Deus, cumprindo o seu desígnio, tendo a mesma intenção, se assim se pode dizer. 

O conteúdo da revelação é a própria forma de vida que foi obrigado a testemunhar inesperadamente, contra a direcção que a sua vida tomada. A convocação para essa forma de vida é concomitante à sua divulgação. Revelação, convocação e vocação estão intrinsecamente ligados. No segundo capítulo, lemos a descrição do que é Paulo já metamorfoseado ou conformado pelo que Jesus teve de passar, Jesus que existia já nele, como vimos que Deus lhe revela: I, 19: “eu, com efeito, morri para além por causa da lei, para que possa viver para Deus: Estou crucificado com Jesus na Cruz: Χριστῷ συνεσταύρωμαι. 20: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim: ζῇ δὲ ἐν ἐμοὶ Χριστός. 

A despeito do carácter extremo que esta formulação revela: eu não sou eu, há outro que vive em mim, da total exterioridade e heteronomia: Paulo vive ainda no agora através da carne: ὃ δὲ νῦν ζῶ ἐν σαρκί, mas por outro lado diz: ἐν πίστει τῇ τοῦ θεοῦ τοῦ ἀγαπήσαντός με καὶ παραδόντος ἑαυτὸν ὑπὲρ ἐμοῦ. Mas vivo com a fé, a segurança absoluta e a garantia total do Deus que me amou e se entregou à morte por mim. O objecto με e a construção preposicional ὑπὲρ ἐμοῦ e o reflexo: ἑαυτόν acentuam o que tinha sido dito: ζῶ δὲ οὐκέτι ἐγώ, já não vivo mais.

Este é o conteúdo da revelação: Cristo cruxificado. É isto pelo qual ele passou. Cristo não foi crucificado pelos Romanos num determinado dia, sofrendo horrores até soltar o último suspiro. Cristo viveu na configuração da cruz. Toda a vida crucificado. É assim que Paulo entende ou diz que lhe foi dado a entender o encontro com Jesus e o conteúdo da sua conversa. Não se compreende o conteúdo: Cristo crucificado se não se ficar crucificado. É este viver no encaminhamento da morte, de uma uia crucis, que é o próprio conteúdo da revelação, o sentido de um tal viver o conteúdo fundamental da mensagem.

Mas não parece que o que se está a afirmar é então o carácter precário do tempo cronicamente finito da vida humana, desde sempre já como se tivesse decorrido todo ele? Não parece haver um confinamento no tempo tal que se tudo está perdido, tudo é possível? Não parece que será possível um movimento de absoluto retrocesso e queda no mundo, uma entrega ao que efectivamente pode ser tido de qualquer maneira, quando se pode querer ter tudo e já?

O tempo que depende desde derrame no coração é o que está a chegar. Não é o tempo que passa e que nunca mais regressa, mas é o tempo que dizemos na nossa língua no plural: tempos virão. “O princípio não começa no início” começa no por vir. O humano é este transcurso que decorre num percurso excêntrico: num ir por aí além, até lá ao limite da hora da sua morte. É lá que os primeiros dias das nossas vidas se encontram à nossa espera desde sempre havendo-nos ultrapassado, mas é lá também que se encontra o começo dos começos. O começo dos começos veio desde sempre do futuro. É no futuro que se encontra o princípio. É de lá que vem o presente, é o futuro que modifica o presente e o passado. O conteúdo formal do telepático, telecomunicacional e mediúnico que Paulo nos transmite é o A e o Ω. É a forma crónica do antecipar-se desde sempre a si que nos desobriga de qualquer conteúdo mas nos vincula ao que desde sempre desde a primeira vez de todas as vezes. 
A formulação complexa e o modo de perceber o carácter concomitante das estruturas, implica uma vivência maciça e concreta da implantação da estrutura originária no futuro, no que Paulo designa o que orienta, o por ser e o por vir: até onde está ido, na tensa vibração da comoção temporal radical do futuro: de onde vem o tempo. O desdobramento do lance projectado em que desde sempre nos encontramos encontra-se aqui formulado na não coincidência entre princípio e começo. Estamos já desde sempre a ser. Quando acordamos e ficamos despertos já estávamos por assim dizer no mundo. Não começamos quando começamos. Por outro lado, despertamos para o traço excêntrico da temporalidade a desdobrar-se mas toda ela já compreendida e comprimida no primeiro momento. 
Nesse abrir de olhos constitui-se a vida e o mundo a um só tempo com todos os outros possíveis, comigo já compreendido e já a saber de mim e como é consigo na tranquilidade do deslizar para esse despertar, num debate contínuo por vir a si, num desde sempre estar-se exposto à possibilidade necessária que obriga a ser-se quem se é. 
A cada momento estrutural corresponde uma forma de visão: retrospectiva do passado que não tem conteúdos vividos por mim, mas que não deixa de co-apresentar um ter havido tempo, ter sido. Uma perspectiva do presente em que se vê o conteúdo perceptivo. Finalmente, temos uma forma específica de olhar o futuro, um prospecto, que não é um olhar de relance em que se antecipa x, y ou z, mas o encontro com a maciça e incontrolável definição do tempo total.
 Retrospectiva, perspectiva e prospecto são momentos da própria estrutura efectiva do sentido e constituem-se de uma forma complexa: no deslizar suave em que se desperta e acorda ou de uma forma súbita. 
“Wir durchlaufen alle eine excentrische Bahn, und es ist kein anderer Weg möglich von der Kindheit zur Vollendung” Hölderlin, Hyperion, II, 545, citado por Heidegger, p. 189. 
No antecipar-se o que fica presente é o abrir do olhar do seu limite futuro, não quantificável, mas qualificável: da beira do futuro abre-se retrospectivamente o olhar de se que nos olha a nós. Estamos assim já estendidos, esticados, pelo tempo que há-de vir e que mostra já o seu rosto. Por outro lado, ao mesmo tempo, trata-se de um vislumbre prospectivo que antecipa tempo, assim sem mais. 
Ou seja, o olhar retrospectivo de si encontra-se com o vislumbre prospectivo de si. A perspectiva corresponde ao ponto de encontro desses vislumbres retrospectivo e prospectivo. A perspectiva é constituída de tal maneira que não apenas apresenta conteúdos ausentes como ela é constituída por formas de olhar que já se fecharam ou ainda não se abriram, mas que estão sempre a ver o que foi e a ver o que vai ser. Os olhares do futuro e do passado estão copresentes a apresentar concomitantemente conteúdos já idos ou por vir.
O despertar que me traz a mim para ser quem sou apenas me faz coincidir comigo nesse momento, cristalizado no tempo para todo o sempre. Com o meu dealbar acontece o mundo e todos os que lá estão: todos os outros com quem nos vamos encontrar e que vão deixar marcas para sempre mas também todos os outros que se foram e estarão por vir que eu nunca conhecerei e que também são comigo de alguma maneira. 
O rasgar da lucidez no seu primeiro momento de obtenção de transparência é o princípio da mudança. Altera-se-nos tudo simplesmente. Nesse processo de alteração está, porém, sempre pensado um processo de apropriação. A condição constitutiva do ser da vida humana é uma mudança mutante de alteração do si. A alteração é a própria definição do limite excêntrico do percurso já percorrido previamente na sua forma.
Der Aufenthalt in der Fremde und das Lernen des Fremden, nicht um des Fremden, sondern um des Eigenen willen, verlangt jenes Ausharren, das nicht mehr an das Eigene denkt. Solches Ausbleiben des Andenkens ist nicht das Vergessen, das aus der Gleichgültigkeit stammt, sondern aus der Tapferkeit des Herzens, das gleichwohl des kommenden Eigenen gewiß bleibt. pp. 190-191 A estadia no estrangeiro, que é o mundo, e a aprendizagem do estranho [que são todos os outros] não por mor do estranho, mas por mor do próprio exige aquele perseverar que não pensa já no interesse próprio. Uma tal perda da recordação de si não é o esquecimento que provem da indiferença mas provem da coragem do coração, que assim também está segura do que o próprio si está por vir. 
Isto é, apesar do zehren, p. 190, do ‘langsame Zerstören und Verwüsten’, há um Zu-‘sich’-kommen que é um herkommen aus einem Anderen, ibid.: o Beseeler, 191, o Stimmende, o Ermöglichende.  


1 Reis 19: 11-13: DEPOIS (…) OUVIU-SE O MURMÚRIO DE
UMA BRISA SUAVE.”
22



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1 Die Galater waren ein seit 278 v. Chr. bei Ankyra (heute Ankara) in Kleinasien (der heutigen Türkei) ansässiger keltischer Volksstamm; das Wort Galater ist urverwandt mit Kelten. Ihre Eigenbezeichnung war Galatai. Von römischen Autoren wurden sie dagegen als Gallo-Griechen bezeichnet. Die Landschaft Galatien war eine Hochebene nördlich von Ankara. Die römische Provinz Galatien reichte über die Landschaft Galatien hinaus und umfasste auch u.a. die Landstriche Phrygien, Pisidien, und Lykaonien, in denen sich die auf Paulus' erster Missionsreise besuchten Städte Antiochia bei Pisidien, Ikonion, Lystra und Derbe befanden. Möglicherweise gehörten damals auch Attalia und Perge zur Provinz Galatien, die Paulus nach Apg 13,15 EU; 14,25 besucht hat, aber dies lässt sich aus den antiken Quellen nicht eindeutig erkennen.
Es ist nicht eindeutig, ob Paulus den Brief an Christen in der Provinz oder in der Landschaft Galatien gerichtet hat. Aus dem Inhalt geht jedoch klar hervor, dass es sich bei den Adressaten um Heidenchristen handelt, die von Judenchristen zur Annahme der Beschneidung gedrängt wurden. Dass in der Landschaft Galatien Juden erst im 5. Jh. nachzuweisen sind, spricht für die Landeshypothese.
2 ἀπόστολ-ος, ὁ, messenger, ambassador, envoy, ὁ μὲν δὴ ἀ. ἐς τὴν Μίλητον ἦν Hdt.1.21; ἐς Λακεδαίμονα τριήρεϊ ἀ. ἐγίνετο he went off on a mission to Laced., Id.5.38.
b. commander of a naval force, Hsch.
2. messenger from God, LXX 3 Ki.14.6; esp. of the Apostles, Ev.Matt.10.2, al.
II. = στόλος, naval squadron or expedition, Lys.19.21; ἀπόστολον ἀφιέναι, ἀποστέλλειν, ποιεῖσθαι, D.3.5, 18.80,107, IG2.809b190.
2. colony, D.H.9.59.
3. = ἀποστολή, of envoys, J.AJ17.11.1.
4. ἀπόστολον, τό, with or without πλοῖον, packet, Pl.Ep.346a, Ps.-Hdt.Vit.Hom.19.
5. ἀπόστολος, ὁ, order for dispatch, of a vessel, CPHerm.6.11 (iii A.D., pl.), PAmh. 2.138.10 (iv A.D.), cf. Dig.49.6.1.
6. export-licence, PGnom.162 (ii A.D.).
7. gen. dub., cargo dispatched by order, POxy.522.1,al. (ii A.D.), PTeb.486 (ii/iii A.D.).
3 Mas todos esses conteúdos estão contidos de forma comprimida nestas linhas 3-5. A graça e a paz é o conteúdo da própria carta. A graça e a paz são a mensagem.
4 Peter Sloterdjik, Sphäre II, Globen, p. 682.
5 ἀπο-κάλυψις [κᾰ], εως, ἡ, uncovering, of the head, Phld.Vit.p.38J.; disclosing, of hidden springs, Plu.Aem.14: metaph., ἁμαρτίας Id.2.70f; revelation, esp. of divine mysteries, Ep.Rom.16.25, etc.; of persons, manifestation, 2 Ep.Thess.1.7, etc.; title of the Apocalypse.
6 πονηρός, ά, όν, in physical sense, oppressed by toils, πονηρότατος καὶ ἄριστος, of Heracles, Hes.Frr.138, 139.
2. of things, toilsome, painful, grievous, ἔργα Hom.Epigr.14.20; νούσων πονηρότερον Thgn. 274; φορτίον Ar.Pl.352.
II. in bad case, in sorry plight, useless, good-for-nothing, σύμμαχοι ib.220, cf. Nu.102; στράτευμα X.An.3.4.34; ἰατρός Antipho 4.2.4 (v.l. for μοχθηρός); κύων, ἱππάριον, Pl. Euthd.298d, X.Cyr.1.4.19; δίαιτα, τροφή, σιτία, injurious, Pl.R.425e, Lg.735b, Grg.464d, etc.; π. ἕξις σώματος Id.Ti.86e; π. σῶμα, opp. χρηστόν, Id.Prt.313a, cf.R.341e; π. σκώμματα sorry jests, Ar.Nu.542; π. βούλευμα Id.Lys.517 (Comp.); π. πράγματα a bad state of things, Th.8.97, cf. 24; π. ἀρχὴ τῆς παιδείας a bad beginning, Aeschin.1.11; π. τὴν ναυτιλίαν ναυτίλλεσθαι Pl.R.551c; π. πολιτεία Arist.Pol. 1294b38. Adv., πονη-ρῶς ἔχειν to be in bad case, Th.7.83, etc.; ἂ πονηρῶς ἔχει τῶν πραγμάτων Lys.14.35; π. διακεῖσθαι, διατεθῆναι, Isoc. 19.12, D.59.55.
III. in moral sense, worthless, knavish, φήμη, βίος, ζόη, A.Ch.1045, Frr.90, 401, etc.; οὐδεὶς ἑκὼν π. Epich.78; π. ἦθος Democr.192; πονηρὸς . . κἀκ πονηρῶν rogue and son of rogues, Ar.Eq. 336-7; ὦ πόνῳ πονηρέ in a comic jingle, Id.V.466, cf. Lys.350; π. πόρρω τέχνης past master in knavery, Id.V.192; π. τοῖς φίλοις X.Cyr.8.4.33; πρὸς ἀλλήλους Id.An.7.1.39; π. λόγων ἀκρίβεια Antipho 3.3.3; πονηρότεροι σύμβουλοι Id.5.71; π. [ῥῆμα] malicious, Ev.Matt.5.11; τὰ π. wickednesses, X.Cyr.2.2.25; πονηρὰ δρᾶσαι E.Hec.1190; τὸ π. LXX De.17.2; δόλῳ πονηρῷ, Lat. dolo malo, SIG693.6 (Methymna, ii B.C.); ὁ π. the evil one, Ev.Matt.13.19; π. δαίμων PLips.34.8 (iv A.D.), etc.
2. base, cowardly, S.Ph.437, etc.; π. χρώματα, i.e. the coward's hue, X.Cyr.5.2.34 (interpol.).
3. with a political connotation, of the baser sort, E.Supp.424; οἱ λεγόμενοι π. Pl.R.519a; opp. καλοὶ κἀγαθοί, Isoc.15.100, 316, cf. Ar.Eq.186.—On the variation of accent, πονηρός and πόνηρος, v. μοχθηρός fin.
7 αἰών, ῶνος, ὁ, Ion. and Ep. also ἡ, as in Pi.P.4.186, E.Ph.1484: apocop. acc. αἰῶ, like Ποσειδῶ, restored by Ahrens (from AB363) in A.Ch.350: (properly αἰϜών, cf. aevum, v. αἰεί):—period of existence (τὸ τέλος τὸ περιέχον τὸν τῆς ἑκάστου ζωῆς χρόνον . . αἰὼν ἑκάστου κέκληται Arist.Cael.279a25):
I. lifetime, life, ψυχή τε καὶ αἰών Il.16.453; ἐκ δ’ αἰ. πέφαται Il.19.27; μηδέ τοι αἰ. φθινέτω Od.5.160; λείπει τινά Il.5.685; ἀπ’ αἰῶνος νέος ὤλεο (Zenod. νέον) 24.725; τελευτᾶν τὸν αἰῶνα Hdt.1.32, etc.; αἰῶνος στερεῖν τινά A.Pr.862; αἰῶνα διοιχνεῖν Id.Eu.315; συνδιατρίβειν Cratin. 1; αἰ. Αἰακιδᾶν, periphr. for the Aeacidae, S.Aj.645 s.v.l.; ἀπέπνευσεν αἰῶνα E.Fr.801; ἐμὸν κατ’ αἰῶνα A.Th.219.
2. age, generation, αἰ. ἐς τρίτον ib.744; ὁ μέλλων αἰών posterity, D.18.199, cf. Pl.Ax.370c.
3. one's life, destiny, lot, S.Tr.34, E.Andr.1215, Fr.30, etc.
II. long space of time, age, αἰὼν γίγνεται 'tis an age, Men.536.5; esp. with Preps., ἀπ’ αἰῶνος of old, Hes.Th.609, Ev.Luc.1.70; οἱ ἀπὸ τοῦ αἰ. Ῥωμαῖοι D.C. 63.20; δι’ αἰῶνος perpetually, A.Ch.26, Eu.563; all one's life long, S. El.1024; δι’ αἰῶνος μακροῦ, ἀπαύστου, A.Supp.582,574; τὸν δι’ αἰ. χρόνον for ever, Id.Ag.554; εἰς ἅπαντα τὸν αἰ. Lycurg.106, Isoc.10.62; εἰς τὸν αἰ. LXX Ge.3.23, al., D.S.21.17, Ev.Jo.8.35, Ps.-Luc. Philopatr.17; εἰς αἰῶνα αἰῶνος LXX Ps.131(132).14; ἐξ αἰῶνος καὶ ἕως αἰῶνος ib.Je.7.7; ἐπ’ αἰ. ib.Ex.15.18; ἕως αἰῶνος ib.1 Ki.1.22, al.:— without a Prep., τὸν ἅπαντα αἰ. Arist. Cael.279a22; τὸν αἰῶνα Lycurg. 62, Epicur.Ep.1p.8U.; eternity, opp. χρόνος, Pl.Ti.37d, cf. Metrod. Fr.37, Ph.1.496,619, Plot.3.7.5, etc.; τοὺς ὑπὲρ τοῦ αἰῶνος φόβους Epicur.Sent.20.
2. space of time clearly defined and marked out, epoch, age, ὁ αἰὼν οὗτος this present world, opp. ὁ μέλλων, Ev.Matt.13.22, cf. Ep.Rom.12.2; ὁ νῦν αἰ. 1 Ep.Tim.6.17, 2 Ep.Tim.4.10:—hence in pl., the ages, i.e. eternity, Phld.D.3 Fr. 84; εἰς πάντας τοὺς αἰ. LXX To.13.4; εἰς τοὺς αἰ.ib.Si.45.24, al., Ep.Rom.1.25, etc.; εἰς τοὺς αἰ. τῶν αἰώνων LXX 4 Ma.18.24, Ep.Phil.4.20, etc.; ἀπὸ τῶν αἰ., πρὸ τῶν αἰ., Ep.Eph.3.9, 1 Cor.2.7; τὰ τέλη τῶν αἰ. ib.10.11.
3. Αἰών, ὁ, personified, Αἰὼν Χρόνου παῖς E.Heracl.900 (lyr.), cf. Corp.Herm.11, etc.; as title of various divine beings, Dam.Pr.151, al.; esp.Persian Zervan, Suid. s.v. Ἡραΐσκος.
4. Pythag., = 10, Theol.Ar.59.
B. spinal marrow (perh. regarded as seat of life), h.Merc 42, 119, Pi.Fr.111, Hp.Epid.7.122; perh. also Il.19.27.
8 saecul.um            N      2 2 NOM S N                 
saecul.um            N      2 2 VOC S N                 
saecul.um            N      2 2 ACC S N                 
saeculum, saeculi  N (2nd) N   [XXXAO]  
age; generation, people born at a time; breed, race; present time/age; century;
worldliness; the_world; heathenism;
time; past/present/future (Plater); [in ~ => forever];
*
9 aeu.um               N      2 1 ACC S M                 
aevus, aevi  N (2nd) M   [XXXAO]  
aeu.um               N      2 2 NOM S N                 
aeu.um               N      2 2 VOC S N                 
aeu.um               N      2 2 ACC S N                 
aevum, aevi  N (2nd) N   [XXXAO]  
time, time of life, age, old age, generation; passage/lapse of time; all time;
10 p. 200 Eccli. XI, 1. Augustinus: opera omnia, Guillon, vol. 35
11 Wander-DSL Bd. 5 , Spalten 1305-1306
12 Calderon de la Barca, la vida es sueño. Monólogo de Segismundo, 1635.
13 erip.eret            V      3 1 IMPF ACTIVE  SUB 3 S    
eripio, eripere, eripui, ereptus  V (3rd)   [XXXAX]  
snatch away, take by force; rescue;
14 ἐξαιρ-έω, fut. -ησω, later ἐξελῶ D.H.7.56, etc.: aor. 2 ἐξεῖλον, Ep.and Lyr. ἔξελον Il.16.56, Pi.O.1.26; inf. ἐξελεῖν:—Med., fut. ἐξαιρήσομαι A.Supp.924; later ἐξελοῦμαι Alciphr. 1.9: aor. 2 ἐξειλόμην, rarely 1 ἐξῃρησάμην Ar.Th.761 (perh. interpol.):—Pass., pf. -ῄρημαι, Ion. -αραίρημαι Hdt.:—take out, ἔνθεν . . ἔξελε πέπλους Il.24.229; ἐπεί νιν καθαροῦ λέβητος ἔξελε Κλωθώ Pi.l.c.; τὸ δέλτα τοῦ ὀνόματος Pl.Cra.413e; simply, take out, τὴν κοιλίην, τὴν νηδύν, Hdt.2.40 (tm.), 87; πρὶν ἀνταράξας πῖαρ ἐξεῖλεν γάλα Sol.36.21:—Pass., εἰ τὸ ἔαρ ἐκ τοῦ ἐνιαυτοῦ ἐξαραιρημένον εἴη Hdt.7.162, cf. Pericl. ap. Arist.Rh.1365a33.
2. Med., take out for oneself, φαρέτρης ἐξείλετο πικρὸν ὀϊστόν from his quiver, Il.8.323; ἐξελέσθαι τὰ μεγάλα ἱστία their large sails, X.HG1.1.13; ἐ. τὰ φορτία discharge their cargoes, Hdt.4.196; τὰ ἀγώγιμα X.An.5.1.16; τὸν σῖτον ἐς [τὴν στοὰν] ἐξαιρεῖσθαι Th.8.90: abs., Syngr. ap. D.35.13, etc.:—Pass., to be discharged, of a cargo, Hdt.3.6, D.34.8.
II. take from a common stock, reserve, κούρην, ἣν ἄρα μοι γέρας ἔξελον υἷες Ἀχαιῶν Il.16.56; Ἀλκινόῳ δ’ αὐτὴν γέρας ἔξελον Od.7.10, cf. Il.11.627; βασιλέϊ τεμένεα ἐξελὼν καὶ ἱερωσύνας Hdt.4.161; Νίσῳ ἐ. χθόνα S.Fr.24.5; θεοῖσιν ἀκροθίνια E.Rh.470; κλήρους τοῖς θεοῖς Th.3.50:—Med., choose for oneself, carry off as booty, τὴν ἐκ Λυρνησσοῦ ἐξείλετο Il.2.690, cf.9.130; choose, μενοεικέα Od.14.232; μίαν ἕκαστος σιτοποιὸν ἐ. Hdt.3.150, cf. X.An.2.5.20; ταύτας ἐξείλεθ’ αὑτῷ κτῆμα S.Tr.245; δῶρον . . πόλεος ἐξελέσθαι to have accepted as a gift, Id.OC541 (lyr.):—Pass., to be given as a special honour, τινί to one, Th.3.114; ἐξαραιρημένος Ποσειδέωνι dedicated to him, Hdt.1.148; γέρεα . . σφι ἦν τάδε ἐξαραιρημένα Id.2.168; ἐ. αὐτοῖς set apart for them, Pl.Criti.117c; τὰ τεμένη τὰ ἐξῃρημένα IG12.45.10; of funds, to be set apart, ear-marked, SIG577.64 (Milet., iii/ii B. C.); but τοῦ ἀργυρίου τοῦ ἐκ τοῦ λιθοτομείου ἐξαιρουμένου moneys received from . ., IG22.47.
2. take out of a number, except, μητέρας ἐξελόντες Hdt.3.150; Σιμμίαν ἐξαιρῶ λόγου Pl.Phdr.242b, cf. X.Mem.1.4.15.
III. remove people from their country, Hdt.2.30; τοὺς ἐν τῇ λίμνῃ κατοικημένους Id.5.16; στρουθούς (sc. ἐκ τοῦ νηοῦ) Id.1.159: generally, remove, τὸν λίθον Id.2.125; ἐκ τοῦ λυχνούχου τὸν λύχνον Alex.102; πατρὸς φόβον E.Ph.991, cf. Isoc.2.23; ὀδυρμούς, ἄγνοιαν, ἔρωτα, Pl.R.387d, Lg.771e, Smp.186d; ἀλλήλων τὴν ἀπιστίαν X.An.2.5.4:—Med., νεῖκος E.Med.904; ὑμῶν ἐ. τὴν διαβολὴν . . ταύτην remove this prejudice from your minds, Pl.Ap.19a, cf. 24a.
2. get rid of, [ὗν] ἐκ τῆς χώρας Hdt.1.36; θῆρας χθονός E.Hipp.18; make away with, παῖδας, θῆρα, Id.HF39, 154; Ἀθηναίους X.HG2.2.19.
b. destroy, πόλιν Hdt.1.103, al., cf. Th.3.113, 4.69, D.18.30; χωρία Id.23.115; οἰκίδιον Men.Pk.199, cf. 278; φρούριον D.H.8.86.
c. annul, bring to naught, θέσφατα S.OT908 (lyr.), cf. D.23.36.
3. Med., ψυχήν, θυμόν, φρένας ἐξελέσθαι, either c. acc. pers., bereave a person of life, etc., as μιν ἐξείλετο θυμόν Il.15.460, 17.678 (so in Trag., E.Alc. 69, IA972): or c. gen. pers., as μευ φρένας ἐξέλετο Ζεύς Il.19.137, cf. Hes.Sc.89; σεῦ ψυχὴν χαλκῷ Il.24.754; μου τέρψιν ἐξείλου βίου E.Alc. 347, etc.: rarely, c. dat. pers., Γλαύκῳ φρένας ἐξέλετο Ζεύς Il.6.234; [οἰωνοῖς] τέκνα Od.16.218: in tmesi, ἐκ δέος εἵλετο γυίων 6.140; ἐκ θυμὸν ἕλοιο 20.62, cf.Il.11.381:—Med., take away from one, τὰ φίλτατα S.El.1208:—Pass., ἐξαιρεθέντες τὸν Δημοκήδεα having had him taken out of their hands, Hdt.3.137; τὸ ἐπιθυμοῦν τοῦ πλοῦ οὐκ ἐξῃρέθησαν Th.6.24, cf. Pl.Grg.519d, etc.
4. Pass., to be removed from, i.e. transcend, τοῦ τῶν ὄντων πλήθους Procl. in Prm.p.546 S.; ἑνάδες ἐξῃρημέναι transcendent, ib.p.547 S., cf. Dam.Pr.7; τὸ μᾶλλον -μένον μᾶλλον καὶ χωρεῖ διὰ τῶν ἄλλων ib.325. Adv. ἐξῃρημένως transcendently, ib.270; ultimately, opp. προσεχῶς, Phlp.in de An.270.14.
IV. Med., set free, deliver, τινά A.Supp.924, Ar.Pax316; ἐκ τῶν κινδύνων τινά Decr. ap. D.18.90; ἐκ τῆς ἀνάγκης PPetr.3p.74; ἐκ τῶν θλίψεων Act.Ap.7.10; ἐξαιρεῖσθαι εἰς ἐλευθερίαν claim as a freeman, Lys.23.9, D.8.42, 10.14.
2. bring to an end, accomplish, πᾶν γὰρ ἐξαιρεῖ  λόγος E.Ph.516.—Freq. confounded with ἐξαίρω.

Saul/Paulo: Figura da conversão. Lido na Igreja de São Nicolau em Fevereiro.


Saul/Paulo: Figura da conversão.
Lido na Igreja de São Nicolau em Fevereiro.

A brutalidade da viragem de 180 graus que lhe aconteceu na sua vida é invocada por Paulo quando diz: “foi preso por Cristo, Jesus”, Phil. 3: 12.   

(12.)   Οὐχ ὅτι ἤδη ἔλαβον ἢ ἤδη τετελείωμαι, διώκω δὲ εἰ καὶ καταλάβω, ἐφ’ ᾧ καὶ κατελήμφθην ὑπὸ Χριστοῦ [Ἰησοῦ].  (13.)  ἀδελφοί, ἐγὼ ἐμαυτὸν οὐ λογίζομαι κατειληφέναι· ἓν δέ, τὰ μὲν ὀπίσω ἐπιλανθανόμενος τοῖς δὲ ἔμπροσθεν ἐπεκτεινόμενος, 

O que quer que se tenha passado foi viragem de 180º na vida de Saul e não na horizontal. Pelas descrições que temos, ficou literalmente com as pernas para o ar.  Ou como se faz aos polvos com a cabeça virada do avesso. Tudo ia ser diferente. 


No capítulo 3, 3-14, da Epístola aos Filipenses, Paulo escreve pelo seu punho algumas notas autobiográficas: “nós somos a circuncisão, os que servimos o espírito de Deus e fomos glorificados em Cristo, Jesus e não por termos acreditado na carne, ainda que eu tenha também o certificado, πεποίθησις” na carne. Se alguém acha que obteve certificado na carne, eu ainda mais. “Fui circuncisado com oito dias, sou de ascendência israelita, da tribo de Benjamin, Hebreu dos quatro costados, fariseu segundo a lei, e foi com zelo que persegui a igreja, segundo a justificação que é dada pela lei vivi irrepreensivelmente. Mas o que quer que tenha sido ganho para mim achei que foi pela condenação de Cristo. Mais: penso que tudo é condenação por causa da excelência obtida com abertura a Cristo Jesus, o meu senhor, pelo qual todas as coisas ficaram a valer uma pechincha: δι’ ὃν τὰ πάντα ἐζημιώθην εἶναι, e considero-as esterco, para que possa vir a fazer Cristo ganhar. Fui, então, encontrado por ele e nele, não com a minha justificação que resultava da lei mas com a justificação que resulta da fé em e de Cristo, a justificação que resulta de Deus e de que depende toda a fé. Por me ter aberto a ele, à potência da possibilidade da sua ressureição e exposto em comunhão a tudo o que lhe aconteceu, fiquei configurado pela morte dele: como se o viesse a encontrar no encaminhamento da ressureição dos mortos. Não que eu já a tenha recebido ou me tenha já cumprido nesse projecto: mas vou na sua perseguição para ver se o apanho tal como uma vez fui e fiquei apanhado por Cristo Jesus: Irmãos eu não acho que fui apanhado. Acho apenas uma única coisa: que me esqueci do que ficou lá atrás e me lanço por aí além estendendo-me e esticando-me até ao que está à minha frente, no futuro por ser: ἓν δέ, τὰ μὲν ὀπίσω ἐπιλανθανόμενος τοῖς δὲ ἔμπροσθεν ἐπεκτεινόμενος. Persigo até com o objectivo final de obter o prémio do chamamento supremo de Deus em Cristo Jesus.”

Exteriormente podemos perceber o ponto de contacto entre Saul fariseu e os membros da seita que ele perseguia e perseguia como uma seita no interior do judaísmo. Os fariseus acreditavam numa vida no alem. Os Saduceus, não. O que era fundamental para a pregação dos primeiros cristãos era a ressurreição de Jesus dos mortos. Era o grande sinal que validava a missão de Jesus e garantia o seu ensinamento.

Uma cronologia:  
Palo nasce entre a última e a primeira década da nossa época: 
  1. I. Conversão em Damasco: Gal. 1:15-17, circa: 34
  2. II. Fica três anos entre a Síria e a Arábia: Gal. 1:17-18. 
  3. III. Primeira visita a Jerusalem partida para a Síria e Cilicia: Gal. 1:18-21.
  4. IV. Passa onze anos em actividade de apostolado: Gal. 2:1.
  5. V. Segunda visita a Jerusalem ("conferência")--Gal. 2:1-10,  

  1. VI. Actividade nas igrejas da Galátia, Ásia, Macedónia e Grécia sobretudo recolhendo subsídios para Jerusalem: Gal. 2:10; I Cor. 16:1-4 (also II Cor. 8-9); Rom. 15:25-32
  2. VII. Última visita a Jerusalem com as ofertas I Cor. 16:4; Rom. 15: 25-32    
 Na vida, há acontecimentos que nos transformaram. Somos a encontrar-nos com os outros, o mundo e os próprios. Somos também a desencontrar-nos dos outros, do mundo e dos próprios. Cada um de nós é capaz de pensar em momentos críticos, impactos sofridos, impressões com que ficou, etc., etc.. Invocamos também dias, sucessos, reencontros, momentos felizes. Do exterior, num relance rápido, não conseguimos saber bem se o que nos marcou foram essas ocasiões com um carácter casual. Não conseguimos dizer bem se nos tornámos no que de bom e de mau nos aconteceu. Se fomos apenas vincados pelo impressionante. Somos também sem dúvida o que conseguimos fazer de janelas de oportunidades. Ocasiões em que se aproveita e agarra o que se oferece ou não. Na pior das hipóteses, perdemo-las e deixamos que escapem. 

Mas seremos exclusivamente, pelo menos nos momentos importantes da nossa vida, dependentes de um agente exterior que tem a sua agenda própria, é de ocasião e o que não consegue impingir  nem vender por tuta e meia obriga-nos a aceitar o que dá? E quando achamos que perdemos uma oportunidade e lamentamos o sucedido, temos bases objectivas para saber que poderia ter sido como pensamos agora retrospectivamente? Acontece o que não deveria ter acontecido, o que não teria podido acontecer ou não era expectável que acontecesse. Inversamente, o que deveria ter acontecido, podia e era para ter acontecido, não veio a ser. 

Se quisermos reconstituir a vida de alguém, pode ser que disponhamos de todos os elementos que nos permitam saber o que fez minuto a minuto durante cada dia da sua vida do primeiro ao último. Onde e quando nasceu, no seio de que família, classe social, nacionalidade, percurso escolar, trabalhos que teve, pessoas que encontrou, músicas que ouviu, livros que lê, gostos, vontades, capacidades, êxitos, derrotas, história médica, registos civis, etc., etc., etc.. Podemos saber de tudo o que lhe aconteceu. E contudo como podemos saber de que maneira o viveu? Como era? Em que circunstâncias se encontrava? Como era? Como era com os outros? Como vivia a sua vida? O que temos nós de alguém com certidões de nascimento, diplomas, data de casamento, empregos e certidões de óbito? 

Muito pouca coisa.

As agendas, mesmo minuciosas, registam simplesmente conteúdos do mundo: locais determinados e horas marcadas, nomes de pessoas e a natureza das marcações. Mesmo o percurso diário de alguém: ginásios, locais de trabalho, igrejas, hospitais, universidades, casa, rodovias, ferrovias, campo e mar: os outros todos com quem vivemos com laços estreitos e indissolúveis e o mar de gente incógnito por que passamos todos os dias das nossas vidas e o mar de gente maior ainda da esmagadora maioria de humanos que sabemos existir: tudo é apenas superfície, espuma, estranho e alienado. É como ver um álbum de fotografias da infância de alguém que não conhecemos. 

Demora a folhear exactamente o mesmo tempo para o protagonista do álbum e para quem não conhece ninguém lá fotografado. 

E contudo há uma diferença abissal: a história da foto, quando foi tirada, em que momento da vida, o que foi vivido e como foi vivido por alguém que é essa vida, que tem essa vida. É a vida desse alguém que está lá co-presente a ser fotografada. Mesmo que não apareça, como é que a vida enquanto vida, pode aparecer, ela está lá como o plano de fundo constitutivo, o contexto e o nexo fundamental que dá ou retira sentido a foto, ao momento. 

Nesta dimensão modal: a maneira, o como de cada um que é ao seu modo, à sua maneira, com aquele jeito: é radicalmente diferente de cada qual. Mas é esse ser o próprio da vida que apropria todos os conteúdos, fotográficos ou não, todos os momentos como do tempo da vida de alguém: ganham dimensão e são transfigurados essencialmente. 

As fotografias de um baptizado e de um casamento para um fotógrafo profissional ficam bem ou mal, são sempre de noivos, famílias e amigos. Mas para os próprios acredita-se que serão diferentes. Como não será diferente a fotografia do baptizado de uma criança amada pelos seus pais, única única mesmo que multiplicada por irmãos outros únicos para os pais e entre si? 

O que quer que aconteça a alguém, acontece a esse alguém. 

Podemos perceber o conteúdo como idêntico, como tendo estado lá, tendo vivido isso, já o tendo visto e feito. 

Mas a vibração idiossincrática como alguém é a sua própria atmosfera parece um absurdo. 

Não conseguimos escutar a melodia que dá o tom a uma pessoa. Não por que a melodia esteja no interior da sua cabeça ou coração. Pode ser que nunca a escutemos. 

Mas a atmosfera que uma pessoa é, os climas que transporta, as boas ou más ondas que provoca, são à escala universal. O que parece absurdo, porquanto achamos que uma pessoa tem um sexo, uma idadade, uma etnia, etc., etc., está entre o nascimento e a morte. 

E contudo, percebe-se de algum modo que uma pessoa  é uma vida. Isto é, cada um de nós é portador de vida, se não maior nem menor do que o mundo— ainda assim: irredutível ao mundo. 

E se os termini a quo e ad quem do nascimento e da morte parecem estar claramente datados, como temos noção de ter havido vida antes de nós e de que haverá vida depois de nós? Qual é a natureza do limite deste tempo que excede o primeiro momento de todos os momentos da nossa vida e permite antecipar todos os outros em que cá não estaremos atestados pelos testamentos deixados, pela antecipação da Primavera que poderemos não ver, dos outros que provavelmente nos sobreviverão, do sol que por um dia ainda que muito longínquo vier a extinguir-se nos deixa já angustiados? 

Na verdade não há limite para o prospecto que antecipa tempo nem para o olhar retrospectivo que procura mergulhar no passado. O que nos configura é de alguma maneira o ter havido e o haver de ser tempo.

Na primeira epístola aos coríntios Paulo alude ao encontro com Jesus: 9, 1:   Οὐκ εἰμὶ ἐλεύθερος; οὐκ εἰμὶ ἀπόστολος; οὐχὶ Ἰησοῦν τὸν κύριον ἡμῶν ἑώρακα;  não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus o nosso senhor? O verbo utilizado é ὁράω, ὄψομαι, εἶδον, ἑώρᾱκα, o pretérito perfeito do indicativo de ver com o aspecto resultativo. O mesmo verbo é utilizado no Evangelho segundo São João para referir uma experiência semelhante de contacto pós pascal com Maria Madalena, Jo., 20,14:  virou-se para trás e viu Jeus que alí estava de pé, mas não sabia que era Jesus, ἐστράφη εἰς τὰ ὀπίσω, καὶ θεωρεῖ τὸν Ἰησοῦν ἑστῶτα, καὶ οὐκ ᾔδει ὅτι Ἰησοῦς ἐστιν. 

É o verbo que utiliza para contar o sucedido aos discípulos, 18: ἔρχεται Μαρία ἡ Μαγδαληνὴ ἀγγέλλουσα τοῖς μαθηταῖς ὅτι Ἑώρακα τὸν κύριον. Também em 20, 25: é assim que os discípulos relatam que também viram o senhor: ἔλεγον οὖν αὐτῷ οἱ ἄλλοι μαθηταί, Ἑωράκαμεν τὸν κύριον. 

Se voltarmos a ler 1 Cor 15, 8: ἔσχατον δὲ πάντων ὡσπερεὶ τῷ ἐκτρώματι ὤφθη κἀμοί, como a alguém que nasce fora de tempo, τῷ ἐκτρώματι, não necessariamente aborto, foi visto por mim, o último de todos.

Visões de reconhecimento e visões de convocação para missão. 

A ambiguidade 1 Cor 15, 8: ἔσχατον δὲ πάντων ὡσπερεὶ τῷ ἐκτρώματι ὤφθη κἀμοί das diversas traduções mostra a dificuldade de interpretação. Foi Jesus quem apareceu a Saul? Ou foi Saul que viu Jesus? A enunciação na voz passiva seria traduzida: Jesus foi visto por Saul. Trata-se de uma apariação? Ou é um encontro entre os dois? A complexidade do sucedido não pode deixar de invocar uma possibilidade ainda mais radical: Jesus é visto. A construção com dativo não é estranha ao agente da passiva mas não é a habitual. O dativo pode ser um dativo de vantagem e não de agente. Mas se o dativo for agente da passiva, que tipo de acção é a que está pensada no ser visto? Pode ser-se visto sem se saber. Pode ver-se sem que quem é visto o saiba. 

A acção pode ficar-se exclusivamente em que a põe em prática. Assim, trata-se de uma experiência que acontece a Saul. O aoristo sublinha o carácter intemporal da visão e o aspecto episódico e pontual sem duração do acontecimento. Jeus foi visto por mim. Por outro lado, pode tratar-se de um acontecimento em que Saul não é tido nem achado, se assim se pode dizer: um “coup de foudre” monumental que o deixa transido e fulminado, sem apelo nem agravo. Dá-se de reptente, subitamente, contra todas as expectativas, mesmo até sem querer ou até antes contra a sua própria vontade. 

A vulgata traduz: 15: 8: nouissime autem omnium, tamquam abortiuo, uisus est et mihi. Há uma diferença fundamental entre “apareceu-me a mim também” e “foi visto por mim também”. Num caso temos a interpretação da voz média. No segundo, a construção na passiva. No primeiro caso complemento indirecto. No segundo agente da passiva. 

Mas não menos relevante é a tradução de ἔκτρωμα de acordo com o contexto. Pode ser aborto. Mas pode ser o que nasce antes ou depois do tempo apropriado, fora do tempo, intempestivamente. Por outro lado, trata-se de uma expansão e qualficação da expressão: ἔσχατον δὲ πάντων, o último de todos? Ou qualifica o modo de ver Jesus, visto como que por alguém que é o último de todos e que por isso nasceu intempestivamente? Ou Paulo nasce intempestivamente por esse encontro? Há encontros que nos datam vida. Há um antes se terem dado e um depois de terem ocorrido? Não será Paulo que nasce pelo aparecimento de Jesus, mesmo que num tempo que excede em décadas o da gestação? Mas ele nasce, fora do tempo, mas nasce: um segundo nascimento, o último que nasce por uma presença de espírito encarnada. Deus feito Jesus.  

Paulo chama-se o derradeiro e o mais insignificante de todos os apóstolos, ínfimo. O ponto a sublinhar é este que Jesus lhe aparece e é visto por ele. Tem de haver uma sincronização se assim se pode dizer que faça coincidir ver e visto, que permita o encontro. O encontro tem princípio, meio e fim, tem uma duração determinada. Mas a interpretação retrospectiva do que sucedeu só pode ser vista à luz da experiência radical da vida de Paulo como integrada no Religioso. Quando Paulo narra a sua própria vocação cita 

Isaías 49, 16: Do ventre da minha mãe ele chamou-me pelo meu nome. Ele disse-me a mim: vou dar-te às nações como uma luz” e 

Jeremias, 1, 5: “Antes de te ter formado no teu ventre, eu sabia já quem tu eras e antes de teres saído da barriga da tua mãe já eu te tinha consagrado: Eu designei-te como profeta para as nações.”  

Ainda em São João: “depois de os discípulos terem visto o Senhor, οἱ μαθηταὶ ἰδόντες (particípio aoristo) τὸν κύριον. (21.)  εἶπεν οὖν αὐτοῖς πάλιν, Εἰρήνη ὑμῖν, este disse-lhes a paz esteja convosco: do mesmo modo que o Pai me enviou a mim, eu vos envio a vós: ao falar assim soprou para dentro deles e disse-lhes recebei o espírito Santo: aqueles que vós perdoardes estarão perdoados e aqueles em quem retiverdes os pecados ficaram com eles. καθὼς ἀπέσταλκέν με ὁ πατήρ, κἀγὼ πέμπω ὑμᾶς.  (22.)  καὶ τοῦτο εἰπὼν ἐνεφύσησεν καὶ λέγει αὐτοῖς, Λάβετε πνεῦμα ἅγιον· (23.)  ἄν τινων ἀφῆτε τὰς ἁμαρτίας ἀφέωνται αὐτοῖς, ἄν τινων κρατῆτε κεκράτηνται.”

“É costume falar-se da conversão de Paulo. Mas Paulo nunca teve na sua vida nenhuma altura em que a sua preocupação suprema não tivesse sido a religião. Nem mesmo antes de ter conhecido e começado a servir o Deus único e eterno com toda a violência.” 

Mas houve um momento, no entanto, que divide completamente a sua vida. Um momento em que se dá uma alteração radical compreensão do propósito e vontade de Deus. É essa compreensão que o configura, por assim dizer. Ele é compreendido por Deus, apreendido por Jesus, configurado pela Cruz de Cristo. É irrelevante, por isso, que Saul tenha visto de facto Jesus de Nazaré.  

A sua devoção a Deus, a dedicação total da sua vida à observância da lei, o modo zeloso como executa cada gesto da sua vida, o esforço absoluto pela consagração de si na religião e a certeza absoluta do sacrifício e da abnegação como meios de realização da sua vida não se alteraram. Saul é Paulo. A mesma psicologia. Têm o mesmo feitio. Não havia um Saul que era de uma maneira e que ficou diferente. Não há um antes que não havia e um depois em que passa a haver um outro. 

Paulo não muda o horizonte em que a sua vida é expressa: o religioso, o querer ser configurado por um sentido que se dá ou retira a cada gesto da sua vida, cada palavra pronunciada, cada acção perpetrada, cada pensamento meditado, mas também cada omissão. O esforço incalculável por integrar todos os gestos da vida, palavras e acções, pensamentos e omissões de manhã à noite, desde o princípio dos tempos em que Saul se torna Saul até ao fim dos tempos em que Paulo já espera pelo advento de Jesus e vive a vida orientada e dirigida na preparação desse reencontro que se dará sem anúncio, porque o anúncio já há muito que foi feito: Tudo isso não muda o que Saul já era: o zelo, o esforço, a paixão, a sofreguidão, a paciência, a mobilidade: o sério. 

Nenhum momento na vida de Paulo é fora do sério, do zelo, da emulação, do estudo. Tinha sido preparado para o estudo pelos pais. Paulo não conhece outra vida que não a do estudo das sagradas escrituras e não tem outra missão que não a de ser portador da palavra e que se fizesse cumprir a palavra. Recolher os judeus tresmalhados pela influência helenista, anular ou neutralizar a influência dos saduceus e agora desta nova seita de Cristo, Jesus e dos seus apóstolos. Era cidadão romano por parte do pai, o seu domínio do grego é de alguém que nasce no colo daquela língua, o hebraico era a língua em que foram escritos os textos que lia, o aramaico o seu dialecto. Paulo tem em si sempre resquícios do judeu fariseu e zelota que é. 

A alteração que se dá, o alheamento de Saul e a apropriação de Paulo não é de natureza psicológica, por mais profunda que seja a análise. A conversão de Paulo, se assim se pode dizer, não resulta de nenhum impacto afectivo, de nenhuma crise emocional que tivesse ocorrido na sua vida por reacção ao que tivesse sido e feito, a qualquer acção que o tivesse comprometido. 

É Deus quem provoca a própria fissura. É Deus que configura um horizonte que metamorfoseia o sentido da fé. Se há uma crise religiosa não é uma crise que faz passar alguém de ateu, céptico ou agnóstico ou alguém que está distraído da fé ou perdido para a fé, para alguém que passa a ter fé, que a adquiriu ou a teve: ou que simplesmente aceita a borla da graça e ficou configurado pela fé. Não. Não se trata aqui da passagem de uma situação sem fé para outra com fé vista pelo ponto de vista humano. Como se alguém que não era religioso e não tivesse fé passasse a ser religioso e a ter fé. Não há momento nenhum na vida de Saul com dúvidas de fé. Não há momento algum na vida de Saul sem o Deus de Abraão: nenhum!

Paulo não apenas foi treinado toda a sua vida para ser quem é. O seu caminho é absolutamente coerente. É um estudioso fanático. O profeta Isaías e os Salmos os livros mais citados nas epístolas estão sempre na ponta da língua: tempera-lhe a absurda inteligência a aço. 

O seu ponto de vista olha a vida de tal forma que não há um gesto quotidiano, nenhum momento da vida do mais insignificante ao mais importante que não ache a sua integração no projecto de Deus para si. 

Não se pode também pensar que não tivesse havido preparação. Os fariseus como já aludimos acreditavam numa vida post mortem diferentemente dos saduceus. Era assim mais do que natural que houvesse uma rivalidade contra o que era visto como uma seita heterodoxa que promovia dissensão no meio do Judaísmo e era concorrente. De resto, seria ingénuo achar que Saul não sabia bem o que estava a fazer. Os Cristãos não eram condenados à morte por ele, mas certamente que eram presos. A sua acção podia ser vista como a de um comandante de uma polícia política altamente sofisticada e com os meios do Império Romano ao seu dispor. 

Também não se pode dizer que haja a alteração de uma óptica fechada em que só judeus eram filhos de Deus para uma óptica escancarada e universal em que há um alargamento da adopção por Deus à totalidade da humanidade. Essas podem ser consequências mas não é o que constitui o cerne da questão. 

A sua vida foi retirada de um centro de lealdade para outro. A alteração que sucede a Paulo, como qualquer experiência religiosa está sob o signo do tremendo e passa-se no íntimo, no interior, na alma, no espírito, na vida de Paulo. E não é isso que lhe retira realidade. É o que constitui a realidade mais radical que existe. No recôndito da intimidade mais subjectiva que existe projectamo-nos de dentro para fora, exteriorizamo-nos, expressamo-nos, impelimo-nos para constituir um fora de que depende toda a nossa vida, o mundo e as vidas dos outros com os seus mundos todos diferentes. E cada ser um humano é o encaminhamento possível que chega ao longe ou se deixa ficar sem ser encetado. 

O passar-se na sua cabeça apenas designa o sítio onde já para os gregos se dá o ponto nevrálgico e o núcleo duro da relação do humano com a vida: a lucidez é de certo modo todas as coisas.  

A primeira vez que Saul é chamado Paulo e em “acta apostolorum, 13, 9”.  As referências à experiência de conversão quando Saul se torna Paulo são da autoria do seu biógrafo e médico Lucas, nos “Actos dos Apóstolos”, em três passos. 

A primeira, é a descrição do acontecimento como que de fora, cinematograficamente. A segunda, é contada pelas palavras de Barnabás quando leva Paulo ao encontro dos outros Apóstolos. A última, Lucas põe o próprio apóstolo a falar em discurso directo, quando o rei Agripa lhe dá oportunidade de se defender. 

As outras referências a que aludimos a que regressaremos são contadas pelo punho do Apósotolo e permitem uma tentativa de reconstituição do que se “terá passado”. Nelas como veremos, encontramos indicações fundamentais, que explicitam o conteúdo da epístola aos Filipenses de que partimos: são 1 Cor. 9, 1 a que já aludimos, 1. Cor. 15, 8 e Gálatas 1, 12 e 1, 16. 

Nos actos dos Apóstolos, a primeira descrição é dividida em duas partes fundamentais. Na primeira, descreve-se a aparição. Na segunda, dá-se o sentido indissociável da aparição: o chamamento para a missão apostólica e o projecto de Deus, Jesus, para Paulo.
I.1. AA, 9, 3-19. “E quando estava de caminho a aproximar-se de Damasco, de repente uma luz vinda do céu envolveu tudo em redor e quando [Saul] caiu por terra ouviu uma voz que falava com ele: ‘Saul, Saul, porque razão me persegues?’ E ele respondeu: ‘quem és tu, senhor?’ (Τίς εἶ, κύριε;). E a voz respondeu: ‘sou eu, Jesus, quem tu persegues. Vá lá anda, levanta-te e entra na cidade. Lá haverá alguém que dirá o que deves fazer.’ Os outros homens que o acompanhavam ficaram parados estupefactos: escutaram também a voz, mas não viram ninguém. Paulo levantou-se, mas mesmo depois de ter aberto os olhos não viu nada. Levaram-no pela mão e fizeram-no entrar em Damasco. E durante três dias ficou sem ver, não comeu nada nem bebeu”. 

Algumas notas para sublinhar a descrição e vincar o sucedido: 

Nota 1: O que acontece é descrito como sucedendo subitamente: ἐξαίφνης. O súbito descreve um fenómeno que se dá de baixo para cima: algo que não é visto e que emerge, que salta de baixo para cima. O repentino, o subreptício. O que desliza, se arrasta, como um réptil camuflado, sem barulho. Mas o advérbio esconde muito mais em grego do que a tradução deixa perceber. 

Nota 2: O que estava como que desaparecido, como se não tivesse estado lá nem nunca tivesse existido, aparece, não se sabe de onde nem quando. O advérbio diz da latência, do escondimento, da opacidade, do paradeiro desconhecido. Da latência torna-se patente. Do escondimento, é descoberto. Da opacidade, torna-se transparência. Do paradeiro desconhecido, passa a ficar localizado. 

Nota 3: O símbolo que descreve este encontro é a luz. Uma luz desce do céu, ἐκ τοῦ οὐρανοῦ. O prevérbio diz: a toda a volta, em redor, περί. Não apenas de Saul: a toda a volta e por isso também à volta de Saúl. Mas o prevérbio deixa identificar ainda um outro sentido. A luz é como que um foco que está apontado para uma determinada direcção. De repente o foco passa a ser virado. Essa viragem da luz representa a aparição que arranca à escuridão e entrega à transparência.

Nota 4: O que ouvimos de Saul? Uma única pergunta em discurso directo: “τίς εἶ, κύριε;” Quem és, senhor? A pergunta não completamente indeterminada. O vocativo, senhor: indica alguma possibilidade de que Saul reconhece o que lhe está acontecer. 
A segunda parte conta como o senhor responde às reservas de Ananias: 

I.2. “Vai que ele é o vaso da minha eleição para que possas semear, plantar e fomentar, βαστάσαι,  o meu nome junto das gentes, dos reis e dos filhos de Israel: eu vou mostrar-lhe tudo aquilo por que deve passar em meu nome, ὅσα δεῖ αὐτὸν ὑπὲρ τοῦ ὀνόματός μου παθεῖν”, 15-16. Ananias diz: “Saul, irmão, o senhor, Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me, para que tu possas voltar a ver e ficar cheio de espírito santo”. E de repente como que lhe caíram escamas dos olhos, e voltou a ver. Levantou-se. Foi baptizado, tomou uma refeição e reconfortou-se”, 9, 17-19. 

Nota 1: Aqui, nem uma palavra do Apóstolo. As dramatis personae são o Senhor e Ananias. Mas a mensagem é clara: o sentido da aparição é o de alterar o núcleo duro e central ao projecto de vida de Saul: “ele é o vaso da minha eleição para que possas semear, plantar e fomentar, βαστάσαι,  o meu nome junto das gentes, dos reis e dos filhos de Israel: eu vou mostrar-lhe tudo aquilo por que deve passar em meu nome, ὅσα δεῖ αὐτὸν ὑπὲρ τοῦ ὀνόματός μου παθεῖν”, 15-16.” 

Nota 2: A aparição não é apenas para o reconhecimento da possibilidade impossível da ressurreição, para angariar testemunhos se assim se pode dizer. A aparição tem um conteúdo de segunda ordem. Na voz, não já na luz. O conteúdo não pode ser visto. Apenas escutado. O aparecer é uma convocação, uma chamada. Ele encerra um apelo. Toda a voz que chama não fala apenas. Não dá apenas a entender um conteúdo. A voz tem um conteúdo mas o sentido para esse conteúdo é inequívoco. É um chamamento: uma convocação. 

Nota 3: Numa convocação com esta configuração e esta proveniência não há prorrogação, não há adiamento possíveis: todo o passado é absolutamente revogável. A urgência do chamamento funda de forma concomitante a sua irrevogabilidade. A voz faz apelo a quem pode escutá-la. Ela chama. Enquanto chama, visa quem é chamado. Procura chamar a atenção, virar para si, aproximar a si. Em toda a convocação está também um sentido de vinda à presença. Que vinda à presença é esta para que Saul está a ser citado? O chamamento apela à revogação de todo o conteúdo, não da forma da vida. Mas o chamamento apela para o sítio de onde se chama, para o local para que se convoca, para um tempo que está por vir. A chamada provoca. É uma provocação: um apelo prévio para o que está por vir.

Nota 4: Mas o horizonte que dá resposta a esta chamada não está no mesmo plano em que se encontra o horizonte de onde somos chamados e onde nos encontramos. O chamamento não nos retira de um sítio para nos pôr noutro sítio, não inverte a direcção apenas. Saul não é chamado de lado nenhum. Saul não é chamado para lado nenhum. A bem dizer, Saul não é chamado da Terra para o Céu, nem é inibido de ir para Damasco ou proibido de fazer o que ia fazer. A missão não é inteiramente abortada. Mas também não se trata de um apagamento sem mais do que se foi no passado e de repente passa a ter uma outra oportunidade como as pessoas têm outras oportunidades.

Nota 5: Este chamamento é inteiramente vertical, vem de cima para baixo. O plano era a escuridão e de repente há luz a toda a volta. Calado no zelo da missão, escuta uma voz, que pronuncia um nome, o seu nome. A voz visa Saul sem apelo nem agravo, sem qualquer consideração por quem é, se assim se pode dizer: visa-o naquilo que ele mesmo é. 

Nota 6: A possibilidade improvável, inconsistente, inesperada do ponto de vista humano, advinda contra toda a expectativa e até contra a vontade constitui-se como o possibilitante. Mas o seu horizonte terá de ser construído numa dimensão que não está em lado nenhum no mundo. O chamamento vem do futuro, puxa Saul para o porvir, põe-no em tensão com o advento do porvir. O porvir que vem do céu, numa dimensão temporal que o passa a configurar: o ser no encaminhamento da morte e simultaneamente a possibilidade de uma configuração sem derrota. Não apenas apesar da asfixia e do estrangulamento do tempo, mas por causa do encaminhamento em direcção à morte ser a obliteração das possibilidades de tempo de vida e a obliteração maciça da vida enquanto possibilidade: é por isso que o porvir vem de uma dimensão divina: escancara o tempo possível fora do estrangulamento da morte.

Nota 7: É retroactivamente, mas do futuro que vem do Céu, doado exclusivamente por Deus, que o tempo escatológico é doado. Não apenas o momento presente, mas todos os momentos vividos, todo o tempo havido passa a ser retrospectivado pela possibilidade iminente do por vir: a possibilidade vem não do mundo, nem de ninguém, nem da nossa cabeça: vem do Senhor do tempo: aquele que cria tempo e o cria dimensões de tempo: aquele que simplesmente é e tem sido: faz a hora das horas em todo o lado do mundo e faz tudo através do tempo.

Nota 8: um tal chamamento é acolhido do ponto de vista humano com um prospecto, uma reacção que terá de depender de uma actividade constante, proactiva, se assim se pode dizer: em que cada momento por breve que seja, por mais actual que se encontre: está já inscrito no para todo o sempre do tempo da eternidade que olha dinamicamente de forma retrospectiva para tudo no seu todo: para uma realização de uma possibilidade. A única possibilidade do possível.

II. A segunda menção ocorre em 9, 27 “Barnabás leva-o pela mão até junto dos apóstolos e conta-lhes de que modo viu o senhor e falou com ele”. É também referida indirectamente por Lucas que por sua vez põe apenas Barnabás como sujeito da enunciação.

III. A terceira menção é já no ante penúltimo capítulo dos Actos dos Apóstolos. Agripa permite a Paulo que fale em sua defesa: de 26, 1-11, Lucas põe Paulo a falar. Ouçamo-lo: 

“Todos os judeus conhecem o meu modo de vida desde a juventude que foi no princípio em Jerusalem no meio da minha gente. E se quiserem prestar testemunho podem declarar que desde sempre vivi como fariseu de acordo com a mais rigorosa seita da nossa religião. Mas agora é por causa da esperança e em vista da esperança que foi dada aoas nossos pais por Deus que me encontro sujeito a julgamento.” Conta em 9-11 como combateu a fé que agora o adoptou.

É em 26, 12-18 para desespero e estupefacção do rei Agripa, que Paulo conta o que lhe sucedeu na estrada para Damasco. Para além da repetição do mesmo fenómeno luminoso e da voz escutada, repete as palavras já citadas: 26, 14: “Saul, Saul por que me persegues. Olha que te é difícil recalcitrar contra o esporão”. Paulo diz que disse as palavras que disse: 15 “Quem és, senhor”. As palavras de 9 são repetidas mas de uma forma mais focada. A missão é-lhe dada directamente: “eu apareci-te por causa disto: para te fazer meu ministro e testemunho de que viste e de que me terás visto: ao extrair-te a ti do teu povo e ao enviar-te para os povos que eu escolhi para que tu lhes abras os olhos, para se converterem da escuridão para a luz e do poder de Satanás para o poder de deus, para que eles aceitem a remissão dos pecados e a herança que lhes coube em sorte de serem santificados pela fé que têm em mim”. 


Mas a nossa pergunta não poderá deixar de ser feita. Como podemos saber o que terá acontecido a Saúl para se ter metamorfoseado em Paulo ou antes para se ter feito configurar pelo pendurado na Cruz? Que acontecimento foi esse? Podemos mergulhar para dentro dele? É que de outro modo não podemos saber se não de fora, mesmo acompanhando as descrições psicológicas, o drama existencial de alguém que muda 180 graus a vida. 

Ou talvez seja mesmo por causa do reconhecimento da nossa exterioridade relativamente ao acontecer dos outros que aqui sabemos que não sabemos o que terá acontecido se não nos acontecer a nós. Isto é, a aproximação ao que terá acontecido a Saúl apenas será feita se nos acontecer um vislumbre que espreite para o sentido: Jesus na Cruz. Ao mesmo tempo que ser esse acontecer é dizer esse acontecimento. O que temos nós? Regressemos ao fim da vida de Paulo. É preso e apresentado ao rei Agripa. Assim, diz Lucas nos Acta Apostolorum, pondo Paulo a falar em sua defesa. Uma vez mais, é referido o estranho episódio no caminho para Damasco. Escutemo-lo em discurso directo:

26, 13: a meio do dia ia a caminho de Damasco e vi, rei Agripa, descer do céu uma luz que refulgiu para mim mais brilhante do que a do sol e também aos que comigo se encontravam. 14, todos ficamos prostrados por terra e eu escutei uma voz que me falava em Hebraico: ‘Saúl, Saúl, por que me persegues? Não percebes que é duro dar pontapés num aguilhão?’ 15, E eu então perguntei: “Quem és tu, senhor?”. O senhor respondeu-me: “Eu sou Jesus, quem tu persegues. 16: mas levanta-te e põe-te sobre os teus próprios pés. Foi para isto que eu te apareci, para te fazer meu servidor e testemunha do que tu próprio viste e daquelas coisas em que te hei-de aparecer, 17 ao arrancar-te do teu povo e das tuas gentes, para te enviar até elas para que lhes abras os olhos e se convertam das travas para a luz, do poder De Satanás para o de Deus e possam aceitar a remissão dos pecados e lhes caba em sorte serem santificados pela fé que depositam em mim.” 19, Foi por isso, rei Agripa, que não duvidei da visão descida do céu, 20 mas fui logo anunciar em primeiro lugar aos que estavam em Damasco e em Jerusalém e a toda a região da Judeia e aos seus povos: para que se arrependem-se e convertessem para Deus fazendo obras que merecessem arrependimento.” 

“Em 22 Paulo resume o que lhe é dado a ver nesse encontro e que é o próprio conteúdo do anúncio: a paixão de Cristo e luz resultante da ressurreição.” 

Escutemos o que o Apóstolo diz que Jesus lhe disse: (16.)  ἀλλὰ ἀνάστηθι καὶ στῆθι ἐπὶ τοὺς πόδας σου· εἰς τοῦτο γὰρ ὤφθην σοι, προχειρίσασθαί σε ὑπηρέτην καὶ μάρτυρα ὧν τε εἶδές με ὧν τε ὀφθήσομαί σοι,  (17.)  ἐξαιρούμενός σε ἐκ τοῦ λαοῦ καὶ ἐκ τῶν ἐθνῶν, εἰς οὓς ἐγὼ ἀποστέλλω σε (18.)  ἀνοῖξαι ὀφθαλμοὺς αὐτῶν, τοῦ ἐπιστρέψαι ἀπὸ σκότους εἰς φῶς καὶ τῆς ἐξουσίας τοῦ Σατανᾶ ἐπὶ τὸν θεόν, τοῦ λαβεῖν αὐτοὺς ἄφεσιν ἁμαρτιῶν καὶ κλῆρον ἐν τοῖς ἡγιασμένοις πίστει τῇ εἰς ἐμέ. (5)

(19.)   Ὅθεν, βασιλεῦ Ἀγρίππα, οὐκ ἐγενόμην ἀπειθὴς τῇ οὐρανίῳ ὀπτασίᾳ.

(20.) ἀπήγγελλον μετανοεῖν καὶ ἐπιστρέφειν ἐπὶ τὸν θεόν, ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσοντας. 

Concentremo-nos: nas palavras decisivas de 17: foste escolhido, envio-te a ti para abrires olhos, para fazeres virar as pessoas da escuridão para a luz, para receberem remissão dos pecados, obterem em sorte a santificação pela fé em mim. 

Em 19, Paulo descreve o que lhe aconteceu relativamente a este conteúdo. Uma coisa é escutar uma ordem outra é cumpri-la. Há ordens e ordens: esta é dada pelo senhor da vida mas parece absolutamente impraticável. 

O que quer dizer o que é dito por estas palavras? Paulo diz ao rei Agripa que não desobedeceu à visão do céu ou que não deixou de acreditar na visão do céu:  οὐκ ἐγενόμην ἀπειθής. E logo a seguir diz o que tem sido a sua vide desde esse dia: tenho anunciado às pessoas para  μετανοεῖν e ἐπιστρέφειν ἐπὶ τὸν θεόν, ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσοντας. 

Ἐπιστρέφειν pode ser facilmente por “convertere” para latim, o que dá em português a palavra directa: virar-se de um sítio para outro, comutar de direcções, mudar de direcção: da escuridão para a luz, do poder de Satanás para Deus, de uma vida para outra. Mas o que é traduzido por arrependimento? Nem sequer em latim o encontramos. Muito menos em grego. 

Paulo diz: μετανοεῖν e ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσειν. O infinitivo é composto de meta e de noein. Noein em grego refere uma capacidade de percepção, uma compreensão das coisas altamente sofisticada. É um vislumbre que vê não apenas o que não está dado a ver, mas vê para lá do que está dado a ver: capta coisas ou acontecimentos que vão para lá da percepção habitual. 

Homero usa-o na Odisseia do cão de Ulisses. Quando este regressa a Ítaca mascarado de velho andrajoso, apenas o cão tem o faro, o noos, para adivinhar o seu dono. A palavra refere o que se sente e se compreende por intuição, o nosso modo de sentirmos como é connosco, com os outros aí ao pé de nós e com o mundo. Mas há um elemento decisivo na palavra: meta. O convite não é para ver o que não está dado a ver apenas, nem para ver o que está dado a ver num sentido completamente diferente. 

O convite ou a intimação é para que se produza uma alteração absolutamente radical no nosso modo de ser, para que nos compreendamos de um modo completamente transtornado. Ou seja para alterarmos a nossa maneira de sentir e compreender as coisas. Apenas assim será possível o epistrephein. Nós não podemos alterar nada, não conseguimos mudar de vida, nem inverter rumos ou direcções se nem sequer soubermos o que há para mudar, que existimos numa maneira de compreender as coisas. Por maioria de razão como podemos mudar completamente a nossa compreensão das coisas? 

O que nos diz o latim? A tradução da Vulgata diz: “annuntiabam ut paenitentiam agerent et conuerterentur ad Deum digna paenitentiae opera facientes”. A “conversio” está dependente de um agere paenitentiam. Uma expressão que dificilmente verte o grego. Ou talvez não. 

O latim não diz sofrer a pena, pagar a multa ou o preço, diz algo como expor-se ao trabalho da tristeza, da pena, do lamento. Ou seja: diz para activamente, da forma mais enérgica possível, que nos disponhamos à tristeza, que nos exponhamos ao trabalho intrínseco que a tristeza, a dor, o sofrimento, nos dá. 

A alteração da disposição não é uma alteração da nossa inteligência cognitiva, por assim dizer, é uma transmutação do núcleo da nossa vida. E ele só pode ser trabalhado pela compreensão que a tristeza nos dá. Mas que pena é esta? Que misericórdia é esta? Que tristeza é esta de que aqui se fala? Sem dúvida que não será difícil invocar actos e palavras, pensamentos e omissões. Podemos sentir a culpa do arrependimento e podemos arrepender-nos amargamente. Podermos arrepender-nos de tudo. E tudo foi o que poderia ter sido e não foi. E tudo foi o que não deveríamos ter feito acontecer: actos perpetrados, palavras ditas, pensamentos ditos ou recusas, escusas e omissões. 

E ainda assim poderíamos estar a anos luz de perceber a natureza radical desta transformação. A transformação que esta mudança radical do coração levada a cabo pela tristeza tem um único conteúdo: Cristo na Cruz: o escândalo e a loucura: “até esta hora temos fome e sede estamos nus fomos esbofeteados e ficámos sem segurança e esforçamo-nos por trabalhar com as nossas próprias mãos: amaldiçoados abençoamos, fomos reduzidos à porcaria do mundo a escória de todas as coisas é o que somos até agora”, 1 Cor. 4, 11-13.

As palavras são fortes, mas não trazem nada que nos possam dizer, podem estar afastadas tanto de nós que nada nos dizem. Que metamorfose é esta por que passa a nossa compreensão das coisas? Que compreensão é esta que tudo muda como se pela primeira vez tivéssemos finalmente compreendido o que era ininteligível e não conseguíamos perceber? Ouvimos constantemente no relato: Cristo na Cruz e Cristo renascido. Cristo morre e Cristo ressuscita. 

Não há outro conteúdo na visão de Paulo. É este o conteúdo que ele tem de anunciar. Mas não será anunciar apenas a morte, o opróbrio, a traição, a perda, a tristeza aviltante a que Jesus foi condenado? É Paulo obrigado a pensar no que fez ao perseguir inocentes? Terá Paulo que se arrepender? E lamentar para todo o sempre o que foi até então e daí para a frente apenas terá de lamentar a sua sorte? Isso seria apenas uma consequência de uma tomada de consciência dos nossos actos. 

Sentimos culpa, amargura, impossibilidade e impotência. Mas não é isto que acontece a Saúl. 

Saúl morre na estrada para Damasco. Os seus pecados foram-lhe perdoados, ele não é quem era. Saúl não terá sido o que foi até então. Nasce Paulo. Paulo renasce com Jesus, mas não se trata de uma passar por cima do tempo, um ultrapassar da situação das situações na vida. 

No renascer está a vibração da morte. A morte constitui a possibilidade radical para a sermos. Sermos no encaminhamento da morte e compreender ser esse encaminhamento é o que diz a teologia da Cruz. A glória consiste em fazer esse caminho, não em nascer como se nada fosse, como se tudo fosse possível. “Τί καὶ ἡμεῖς κινδυνεύομεν πᾶσαν ὥραν; 31 καθ΄ἡμέραν ἀποθνῄσκω”. Eu estou a morrer em cada hora, diz o verbo frequentativo em grego: morro-me, diz o latim: morior. 

Mas é neste encaminhamento que ganhei tempo. Não quantidade de tempo, pela primeira vez ganhei o poder do tempo. E o poder do tempo só pode ser ganho se escolhermos viver a vida arrostando com a morte. Mesmo que vivamos a eternidade, do ponto de vista humano será sempre a resvalar, sempre a perder, sempre a obliterar possibilidades atrás de possibilidades. 

O conteúdo de Cristo na Cruz em que a vida de Paulo se converteu é de uma outra natureza. É um coup de foudre fulminante. No primeiro olhar, a esperança. Uma esperança que não é vã. Um esperança que nasce no desespero: 2 Cor. 4, 7-12 “temos este tesouro em vasos quebráveis para que aconteça o sublime poder de Deus: o poder e o sublime não vêm de nos. Em todas as coisas passamos por aflições, mas não nos angustiaremos; sentiremos dificuldades mas não desistiremos. Sofreremos perseguições, mas não seremos nunca abandonados, seremos escorraçados mas jamais seremos destruídos: é por todo o lado que levamos Jesus sempre a morrer na nossa vida, para que também Jesus a viver seja manifestado na nossa vida. Com efeito nós que vivemos fomos entregues à morte por causa de Jesus para que a vida de Jesus se manifestasse na nossa carne mortal. É por isso que somos trabalhados pela morte para que a vida vos seja dada.”

O que quer que tenha acontecido a Paulo é esta história incrível e improvável de uma paixão de um amor impossível. Improvável e impossível: mas do ponto de vista humano. Num abrir e fechar de olhos uma deflagração e uma detonação. 1 Cor., 52: “num instante, num golpe de vista, num piscar de olhos, num abrir e fechar de olhos: os mortos hão-de acordar indestrutíveis e nós seremos mudados, allagêsometha. A morte há-de ser tragada pela vitória.” 

  • Na epístola aos Gálatas, Paulo descreve-se pelo próprio punho:  1,1.   Παῦλος ἀπόστολος, οὐκ ἀπ’ ἀνθρώπων οὐδὲ δι’ ἀνθρώπου ἀλλὰ διὰ Ἰησοῦ Χριστοῦ καὶ θεοῦ πατρὸς τοῦ ἐγείραντος αὐτὸν ἐκ νεκρῶν.

E em 11-12: Γνωρίζω δὲ ὑμῖν, ἀδελφοί, τὸ εὐαγγέλιον τὸ εὐαγγελισθὲν ὑπ’ ἐμοῦ ὅτι οὐκ ἔστιν κατὰ ἄνθρωπον·οὐδὲ γὰρ ἐγὼ παρὰ ἀνθρώπου παρέλαβον αὐτό, οὔτε ἐδιδάχθην, ἀλλὰ δι’ ἀποκαλύψεως Ἰησοῦ Χριστοῦ.

(16.) ἀποκαλύψαι τὸν υἱὸν αὐτοῦ ἐν ἐμοὶ ἵνα εὐαγγελίζωμαι
αὐτὸν ἐν τοῖς ἔθνεσιν

A aparição não está desligada da missão. O que lhe acontece põe-no a ser no tempo, no esgotamento, na amortização da dívida por saldar, na obliteração de possibilidades atrás de possibilidades num afluxo sempre de cada vez mais débil e num escoamento com um caudal temporal sempre a engrossar mais e mais. Mas a agenda de Paulo não é constituída por nada deste mundo, por assim dizer: por prazos que vingam dos mais curtos aos médios e aos mais longos. Por essência toda a petição para revogar o prazo ou o prolongar é sempre indeferida. Mas é também este carácter indeferido da resposta ao pedido para revogação do prazo que pode trazer a possibilidade da compreensão do possível. Na situação aparentemente asfixiante do nada que se aproxima, do tempo sempre menor que temos, da transição de cada instante para o instante há pouco e do que daqui a nada virá para o instante de agora e de este agora aqui para um outro agora há pouco que se afasta sempre de cada vez mais e mais até cair na latência do esquecimento nasce o possível. O tempo passa, diz-se. Mas também dizemos na nossa língua: “tempos virão”: futuro imperfeito, aberto à possibilidade. No espectro de tempo mínimo do instante da angústia, Jesus no arrostamento com a morte: “Jesus sabia que a sua hora tinha chegado para que transitasse deste mundo para o do seu Pai, e aqueles que tinha amado durante toda a sua vida também os amou no fim, amou-os até ao fim”, Jo. 13, 1. Em face da possibilidade derradeira mantém-se a transformação do coração operada pela possibilidade. Quem são aqueles que Jesus amou? Quem são aqueles que descobriu susceptíveis de amor: os apóstolos, a família, os cobradores de impostos, as prostitutas, as ovelhas negras, as crianças, os puros de coração. Judeus, Gregos, Romanos. Na verdade, toda a gente. Deixa de haver gentes para haver toda a gente, as gerações de gerações de pessoas que habitaram e habitarão as costas da Terra são vagas desta vida. São os outros afastados de nós, e os outros que se foram, são todos os outros mas também os nossos que passam a ser transformados por este outro olhar. São eles que se encontram aí connosco no encaminhamento da morte, que passam a ser vistos como rios no seu escoamento. São esses que assim são metamorfoseados nesta constante perda que passam a ser descobertos na possibilidade de ser amados. Os estranhos e os estrangeiros são todos os nossos amigos e família e irmãos. Porque podem nunca ter sido descobertos na susceptibilidade de amor que o seu serem as suas mortes no-los revela. Não se trata da contaminação de um amor humano que transforma o estranho em amigo, adopta todos os outros, os converte em amigos e em irmãos. A doação é feita por uma estranha revelação que os dá a ver na execução das suas vidas. É isso que os põe a ser connosco num destino comum, numa possibilidade radical de descobrir Jesus na Cruz a poder trabalhá-los, na forma mais original como podemos ser a única possibilidade que temos face à possibilidade simples da impossibilidade. É esta metamorfose do tempo, um  mundo às avessas que Paulo vê. Neste mundo votado com todos os que cá se encontram e nós também ao fracasso e à perda seria possível tudo. Mas também esse tudo era nada. O possível é dado antes com a sua força  mais radical na obliteração maciça das possibilidades. É de Deus e da sua vontade que vem Jesus. É a descoberta deste ser no sentido que transforma todos os gestos do quotidiano em gestos agradecidos. É esta revelação: é esta a vida, está a acontecer agora, é este o tempo, é este quem tu és que altera radicalmente todos os instantes da nossa vida com os conteúdos correspondentes. Cada dia passa e não regressa. O tempo é irreversível e irrecuperável. Mas o nosso passado é tão nosso que está sempre à espera de nós na hora da nossa morte. O tempo do humano é este a haver do fim no fim como no princípio. Tudo seria possível, mas o amor de Deus revela-nos que tudo mas mesmo tudo está a ser situado por Ele. E a dimensão que um gesto que se faz mecanicamente na rotina do dia a dia e no seu ramerame passa a ter a dimensão do divino. Cada instante é resgatado à possibilidade do seu não ser e não ter sido. É por isso que há um deferimento sempre e contínuo da possibilidade e uma revogação constante do prazo. Mas o que por isso acontece é um olhar que se exterioriza através de nós e vira do avesso. Paulo é à escala universal, é do tamanho do mundo e transporta no seu ser o senhor da Vida. O que o senhor da vida dá é tempo: um tempo em que o possível é construído e resgatado a partir do impossível. Neste debruar do tempo reside o por vir. O tempo é este advento em que o porvir se faz tempo. É nesta promessa, por este ir por aí além até sempre que Paulo está configurado. Todos os outros são susceptíveis deste amor de vida. Não do passado que passa e se foi sem se saber como mas deste tempo vivido na sua crista, num surf em que as águas da eternidade se convertem para nós em ondas de vida e se propagam.

O que aconteceu a Paulo no fim da sua vida? Numa altura em que tochas humanas ardiam em agonia no Vaticano e Roma estava exposta aos desígnios de um imperador sádico, podemos imaginar Paulo já morto nessa altura, sabe-se lá de que modo. Mas não temos a certeza disso. Por isso eu prefiro imaginar que Paulo finalmente veio até à Península e que numa praia qualquer de Portugal ele terá ido ver sempre o nascer e o pôr do sol que são sempre diferentes e cada dia é menos um dia em que os vemos. E terá sido assim na mais ocidental praia do Ocidente que ironicamente ele terá esperado a vinda iminente de Jesus. E terá sido assim que um dia Jesus o veio buscar.  

terça-feira, 29 de novembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

ANTIGA: Leituras obrigatórias: in-evitáveis.


Filosofia Antiga.
Leituras obrigatórias:
Aristotle. Aristotle in 23 Volumes, Vols.17, 18, translated by Hugh Tredennick. Cambridge, MA, Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd. 1933, 1989.
Livro II, Alfa minúsculo.
Livro VII, Zeta.
Aristotle, Physics, Provided by The Internet Classics Archive.
See bottom for copyright. Available online at
Livros: IV (Delta), V (Épsilon) e VI (Zeta).

TEMAS DE FILOSOFIA ANTIGA. 3ª SESSÃO. HANDOUT

3ª sessão. Handout. 19 de Feveiro, 2019 Sen. Ep. 58. 6.  Quomodo dicetur ο ὐ σία res necessaria , natura continens fundamentum o...