quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Saul/Paulo: Figura da conversão. Lido na Igreja de São Nicolau em Fevereiro.


Saul/Paulo: Figura da conversão.
Lido na Igreja de São Nicolau em Fevereiro.

A brutalidade da viragem de 180 graus que lhe aconteceu na sua vida é invocada por Paulo quando diz: “foi preso por Cristo, Jesus”, Phil. 3: 12.   

(12.)   Οὐχ ὅτι ἤδη ἔλαβον ἢ ἤδη τετελείωμαι, διώκω δὲ εἰ καὶ καταλάβω, ἐφ’ ᾧ καὶ κατελήμφθην ὑπὸ Χριστοῦ [Ἰησοῦ].  (13.)  ἀδελφοί, ἐγὼ ἐμαυτὸν οὐ λογίζομαι κατειληφέναι· ἓν δέ, τὰ μὲν ὀπίσω ἐπιλανθανόμενος τοῖς δὲ ἔμπροσθεν ἐπεκτεινόμενος, 

O que quer que se tenha passado foi viragem de 180º na vida de Saul e não na horizontal. Pelas descrições que temos, ficou literalmente com as pernas para o ar.  Ou como se faz aos polvos com a cabeça virada do avesso. Tudo ia ser diferente. 


No capítulo 3, 3-14, da Epístola aos Filipenses, Paulo escreve pelo seu punho algumas notas autobiográficas: “nós somos a circuncisão, os que servimos o espírito de Deus e fomos glorificados em Cristo, Jesus e não por termos acreditado na carne, ainda que eu tenha também o certificado, πεποίθησις” na carne. Se alguém acha que obteve certificado na carne, eu ainda mais. “Fui circuncisado com oito dias, sou de ascendência israelita, da tribo de Benjamin, Hebreu dos quatro costados, fariseu segundo a lei, e foi com zelo que persegui a igreja, segundo a justificação que é dada pela lei vivi irrepreensivelmente. Mas o que quer que tenha sido ganho para mim achei que foi pela condenação de Cristo. Mais: penso que tudo é condenação por causa da excelência obtida com abertura a Cristo Jesus, o meu senhor, pelo qual todas as coisas ficaram a valer uma pechincha: δι’ ὃν τὰ πάντα ἐζημιώθην εἶναι, e considero-as esterco, para que possa vir a fazer Cristo ganhar. Fui, então, encontrado por ele e nele, não com a minha justificação que resultava da lei mas com a justificação que resulta da fé em e de Cristo, a justificação que resulta de Deus e de que depende toda a fé. Por me ter aberto a ele, à potência da possibilidade da sua ressureição e exposto em comunhão a tudo o que lhe aconteceu, fiquei configurado pela morte dele: como se o viesse a encontrar no encaminhamento da ressureição dos mortos. Não que eu já a tenha recebido ou me tenha já cumprido nesse projecto: mas vou na sua perseguição para ver se o apanho tal como uma vez fui e fiquei apanhado por Cristo Jesus: Irmãos eu não acho que fui apanhado. Acho apenas uma única coisa: que me esqueci do que ficou lá atrás e me lanço por aí além estendendo-me e esticando-me até ao que está à minha frente, no futuro por ser: ἓν δέ, τὰ μὲν ὀπίσω ἐπιλανθανόμενος τοῖς δὲ ἔμπροσθεν ἐπεκτεινόμενος. Persigo até com o objectivo final de obter o prémio do chamamento supremo de Deus em Cristo Jesus.”

Exteriormente podemos perceber o ponto de contacto entre Saul fariseu e os membros da seita que ele perseguia e perseguia como uma seita no interior do judaísmo. Os fariseus acreditavam numa vida no alem. Os Saduceus, não. O que era fundamental para a pregação dos primeiros cristãos era a ressurreição de Jesus dos mortos. Era o grande sinal que validava a missão de Jesus e garantia o seu ensinamento.

Uma cronologia:  
Palo nasce entre a última e a primeira década da nossa época: 
  1. I. Conversão em Damasco: Gal. 1:15-17, circa: 34
  2. II. Fica três anos entre a Síria e a Arábia: Gal. 1:17-18. 
  3. III. Primeira visita a Jerusalem partida para a Síria e Cilicia: Gal. 1:18-21.
  4. IV. Passa onze anos em actividade de apostolado: Gal. 2:1.
  5. V. Segunda visita a Jerusalem ("conferência")--Gal. 2:1-10,  

  1. VI. Actividade nas igrejas da Galátia, Ásia, Macedónia e Grécia sobretudo recolhendo subsídios para Jerusalem: Gal. 2:10; I Cor. 16:1-4 (also II Cor. 8-9); Rom. 15:25-32
  2. VII. Última visita a Jerusalem com as ofertas I Cor. 16:4; Rom. 15: 25-32    
 Na vida, há acontecimentos que nos transformaram. Somos a encontrar-nos com os outros, o mundo e os próprios. Somos também a desencontrar-nos dos outros, do mundo e dos próprios. Cada um de nós é capaz de pensar em momentos críticos, impactos sofridos, impressões com que ficou, etc., etc.. Invocamos também dias, sucessos, reencontros, momentos felizes. Do exterior, num relance rápido, não conseguimos saber bem se o que nos marcou foram essas ocasiões com um carácter casual. Não conseguimos dizer bem se nos tornámos no que de bom e de mau nos aconteceu. Se fomos apenas vincados pelo impressionante. Somos também sem dúvida o que conseguimos fazer de janelas de oportunidades. Ocasiões em que se aproveita e agarra o que se oferece ou não. Na pior das hipóteses, perdemo-las e deixamos que escapem. 

Mas seremos exclusivamente, pelo menos nos momentos importantes da nossa vida, dependentes de um agente exterior que tem a sua agenda própria, é de ocasião e o que não consegue impingir  nem vender por tuta e meia obriga-nos a aceitar o que dá? E quando achamos que perdemos uma oportunidade e lamentamos o sucedido, temos bases objectivas para saber que poderia ter sido como pensamos agora retrospectivamente? Acontece o que não deveria ter acontecido, o que não teria podido acontecer ou não era expectável que acontecesse. Inversamente, o que deveria ter acontecido, podia e era para ter acontecido, não veio a ser. 

Se quisermos reconstituir a vida de alguém, pode ser que disponhamos de todos os elementos que nos permitam saber o que fez minuto a minuto durante cada dia da sua vida do primeiro ao último. Onde e quando nasceu, no seio de que família, classe social, nacionalidade, percurso escolar, trabalhos que teve, pessoas que encontrou, músicas que ouviu, livros que lê, gostos, vontades, capacidades, êxitos, derrotas, história médica, registos civis, etc., etc., etc.. Podemos saber de tudo o que lhe aconteceu. E contudo como podemos saber de que maneira o viveu? Como era? Em que circunstâncias se encontrava? Como era? Como era com os outros? Como vivia a sua vida? O que temos nós de alguém com certidões de nascimento, diplomas, data de casamento, empregos e certidões de óbito? 

Muito pouca coisa.

As agendas, mesmo minuciosas, registam simplesmente conteúdos do mundo: locais determinados e horas marcadas, nomes de pessoas e a natureza das marcações. Mesmo o percurso diário de alguém: ginásios, locais de trabalho, igrejas, hospitais, universidades, casa, rodovias, ferrovias, campo e mar: os outros todos com quem vivemos com laços estreitos e indissolúveis e o mar de gente incógnito por que passamos todos os dias das nossas vidas e o mar de gente maior ainda da esmagadora maioria de humanos que sabemos existir: tudo é apenas superfície, espuma, estranho e alienado. É como ver um álbum de fotografias da infância de alguém que não conhecemos. 

Demora a folhear exactamente o mesmo tempo para o protagonista do álbum e para quem não conhece ninguém lá fotografado. 

E contudo há uma diferença abissal: a história da foto, quando foi tirada, em que momento da vida, o que foi vivido e como foi vivido por alguém que é essa vida, que tem essa vida. É a vida desse alguém que está lá co-presente a ser fotografada. Mesmo que não apareça, como é que a vida enquanto vida, pode aparecer, ela está lá como o plano de fundo constitutivo, o contexto e o nexo fundamental que dá ou retira sentido a foto, ao momento. 

Nesta dimensão modal: a maneira, o como de cada um que é ao seu modo, à sua maneira, com aquele jeito: é radicalmente diferente de cada qual. Mas é esse ser o próprio da vida que apropria todos os conteúdos, fotográficos ou não, todos os momentos como do tempo da vida de alguém: ganham dimensão e são transfigurados essencialmente. 

As fotografias de um baptizado e de um casamento para um fotógrafo profissional ficam bem ou mal, são sempre de noivos, famílias e amigos. Mas para os próprios acredita-se que serão diferentes. Como não será diferente a fotografia do baptizado de uma criança amada pelos seus pais, única única mesmo que multiplicada por irmãos outros únicos para os pais e entre si? 

O que quer que aconteça a alguém, acontece a esse alguém. 

Podemos perceber o conteúdo como idêntico, como tendo estado lá, tendo vivido isso, já o tendo visto e feito. 

Mas a vibração idiossincrática como alguém é a sua própria atmosfera parece um absurdo. 

Não conseguimos escutar a melodia que dá o tom a uma pessoa. Não por que a melodia esteja no interior da sua cabeça ou coração. Pode ser que nunca a escutemos. 

Mas a atmosfera que uma pessoa é, os climas que transporta, as boas ou más ondas que provoca, são à escala universal. O que parece absurdo, porquanto achamos que uma pessoa tem um sexo, uma idadade, uma etnia, etc., etc., está entre o nascimento e a morte. 

E contudo, percebe-se de algum modo que uma pessoa  é uma vida. Isto é, cada um de nós é portador de vida, se não maior nem menor do que o mundo— ainda assim: irredutível ao mundo. 

E se os termini a quo e ad quem do nascimento e da morte parecem estar claramente datados, como temos noção de ter havido vida antes de nós e de que haverá vida depois de nós? Qual é a natureza do limite deste tempo que excede o primeiro momento de todos os momentos da nossa vida e permite antecipar todos os outros em que cá não estaremos atestados pelos testamentos deixados, pela antecipação da Primavera que poderemos não ver, dos outros que provavelmente nos sobreviverão, do sol que por um dia ainda que muito longínquo vier a extinguir-se nos deixa já angustiados? 

Na verdade não há limite para o prospecto que antecipa tempo nem para o olhar retrospectivo que procura mergulhar no passado. O que nos configura é de alguma maneira o ter havido e o haver de ser tempo.

Na primeira epístola aos coríntios Paulo alude ao encontro com Jesus: 9, 1:   Οὐκ εἰμὶ ἐλεύθερος; οὐκ εἰμὶ ἀπόστολος; οὐχὶ Ἰησοῦν τὸν κύριον ἡμῶν ἑώρακα;  não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus o nosso senhor? O verbo utilizado é ὁράω, ὄψομαι, εἶδον, ἑώρᾱκα, o pretérito perfeito do indicativo de ver com o aspecto resultativo. O mesmo verbo é utilizado no Evangelho segundo São João para referir uma experiência semelhante de contacto pós pascal com Maria Madalena, Jo., 20,14:  virou-se para trás e viu Jeus que alí estava de pé, mas não sabia que era Jesus, ἐστράφη εἰς τὰ ὀπίσω, καὶ θεωρεῖ τὸν Ἰησοῦν ἑστῶτα, καὶ οὐκ ᾔδει ὅτι Ἰησοῦς ἐστιν. 

É o verbo que utiliza para contar o sucedido aos discípulos, 18: ἔρχεται Μαρία ἡ Μαγδαληνὴ ἀγγέλλουσα τοῖς μαθηταῖς ὅτι Ἑώρακα τὸν κύριον. Também em 20, 25: é assim que os discípulos relatam que também viram o senhor: ἔλεγον οὖν αὐτῷ οἱ ἄλλοι μαθηταί, Ἑωράκαμεν τὸν κύριον. 

Se voltarmos a ler 1 Cor 15, 8: ἔσχατον δὲ πάντων ὡσπερεὶ τῷ ἐκτρώματι ὤφθη κἀμοί, como a alguém que nasce fora de tempo, τῷ ἐκτρώματι, não necessariamente aborto, foi visto por mim, o último de todos.

Visões de reconhecimento e visões de convocação para missão. 

A ambiguidade 1 Cor 15, 8: ἔσχατον δὲ πάντων ὡσπερεὶ τῷ ἐκτρώματι ὤφθη κἀμοί das diversas traduções mostra a dificuldade de interpretação. Foi Jesus quem apareceu a Saul? Ou foi Saul que viu Jesus? A enunciação na voz passiva seria traduzida: Jesus foi visto por Saul. Trata-se de uma apariação? Ou é um encontro entre os dois? A complexidade do sucedido não pode deixar de invocar uma possibilidade ainda mais radical: Jesus é visto. A construção com dativo não é estranha ao agente da passiva mas não é a habitual. O dativo pode ser um dativo de vantagem e não de agente. Mas se o dativo for agente da passiva, que tipo de acção é a que está pensada no ser visto? Pode ser-se visto sem se saber. Pode ver-se sem que quem é visto o saiba. 

A acção pode ficar-se exclusivamente em que a põe em prática. Assim, trata-se de uma experiência que acontece a Saul. O aoristo sublinha o carácter intemporal da visão e o aspecto episódico e pontual sem duração do acontecimento. Jeus foi visto por mim. Por outro lado, pode tratar-se de um acontecimento em que Saul não é tido nem achado, se assim se pode dizer: um “coup de foudre” monumental que o deixa transido e fulminado, sem apelo nem agravo. Dá-se de reptente, subitamente, contra todas as expectativas, mesmo até sem querer ou até antes contra a sua própria vontade. 

A vulgata traduz: 15: 8: nouissime autem omnium, tamquam abortiuo, uisus est et mihi. Há uma diferença fundamental entre “apareceu-me a mim também” e “foi visto por mim também”. Num caso temos a interpretação da voz média. No segundo, a construção na passiva. No primeiro caso complemento indirecto. No segundo agente da passiva. 

Mas não menos relevante é a tradução de ἔκτρωμα de acordo com o contexto. Pode ser aborto. Mas pode ser o que nasce antes ou depois do tempo apropriado, fora do tempo, intempestivamente. Por outro lado, trata-se de uma expansão e qualficação da expressão: ἔσχατον δὲ πάντων, o último de todos? Ou qualifica o modo de ver Jesus, visto como que por alguém que é o último de todos e que por isso nasceu intempestivamente? Ou Paulo nasce intempestivamente por esse encontro? Há encontros que nos datam vida. Há um antes se terem dado e um depois de terem ocorrido? Não será Paulo que nasce pelo aparecimento de Jesus, mesmo que num tempo que excede em décadas o da gestação? Mas ele nasce, fora do tempo, mas nasce: um segundo nascimento, o último que nasce por uma presença de espírito encarnada. Deus feito Jesus.  

Paulo chama-se o derradeiro e o mais insignificante de todos os apóstolos, ínfimo. O ponto a sublinhar é este que Jesus lhe aparece e é visto por ele. Tem de haver uma sincronização se assim se pode dizer que faça coincidir ver e visto, que permita o encontro. O encontro tem princípio, meio e fim, tem uma duração determinada. Mas a interpretação retrospectiva do que sucedeu só pode ser vista à luz da experiência radical da vida de Paulo como integrada no Religioso. Quando Paulo narra a sua própria vocação cita 

Isaías 49, 16: Do ventre da minha mãe ele chamou-me pelo meu nome. Ele disse-me a mim: vou dar-te às nações como uma luz” e 

Jeremias, 1, 5: “Antes de te ter formado no teu ventre, eu sabia já quem tu eras e antes de teres saído da barriga da tua mãe já eu te tinha consagrado: Eu designei-te como profeta para as nações.”  

Ainda em São João: “depois de os discípulos terem visto o Senhor, οἱ μαθηταὶ ἰδόντες (particípio aoristo) τὸν κύριον. (21.)  εἶπεν οὖν αὐτοῖς πάλιν, Εἰρήνη ὑμῖν, este disse-lhes a paz esteja convosco: do mesmo modo que o Pai me enviou a mim, eu vos envio a vós: ao falar assim soprou para dentro deles e disse-lhes recebei o espírito Santo: aqueles que vós perdoardes estarão perdoados e aqueles em quem retiverdes os pecados ficaram com eles. καθὼς ἀπέσταλκέν με ὁ πατήρ, κἀγὼ πέμπω ὑμᾶς.  (22.)  καὶ τοῦτο εἰπὼν ἐνεφύσησεν καὶ λέγει αὐτοῖς, Λάβετε πνεῦμα ἅγιον· (23.)  ἄν τινων ἀφῆτε τὰς ἁμαρτίας ἀφέωνται αὐτοῖς, ἄν τινων κρατῆτε κεκράτηνται.”

“É costume falar-se da conversão de Paulo. Mas Paulo nunca teve na sua vida nenhuma altura em que a sua preocupação suprema não tivesse sido a religião. Nem mesmo antes de ter conhecido e começado a servir o Deus único e eterno com toda a violência.” 

Mas houve um momento, no entanto, que divide completamente a sua vida. Um momento em que se dá uma alteração radical compreensão do propósito e vontade de Deus. É essa compreensão que o configura, por assim dizer. Ele é compreendido por Deus, apreendido por Jesus, configurado pela Cruz de Cristo. É irrelevante, por isso, que Saul tenha visto de facto Jesus de Nazaré.  

A sua devoção a Deus, a dedicação total da sua vida à observância da lei, o modo zeloso como executa cada gesto da sua vida, o esforço absoluto pela consagração de si na religião e a certeza absoluta do sacrifício e da abnegação como meios de realização da sua vida não se alteraram. Saul é Paulo. A mesma psicologia. Têm o mesmo feitio. Não havia um Saul que era de uma maneira e que ficou diferente. Não há um antes que não havia e um depois em que passa a haver um outro. 

Paulo não muda o horizonte em que a sua vida é expressa: o religioso, o querer ser configurado por um sentido que se dá ou retira a cada gesto da sua vida, cada palavra pronunciada, cada acção perpetrada, cada pensamento meditado, mas também cada omissão. O esforço incalculável por integrar todos os gestos da vida, palavras e acções, pensamentos e omissões de manhã à noite, desde o princípio dos tempos em que Saul se torna Saul até ao fim dos tempos em que Paulo já espera pelo advento de Jesus e vive a vida orientada e dirigida na preparação desse reencontro que se dará sem anúncio, porque o anúncio já há muito que foi feito: Tudo isso não muda o que Saul já era: o zelo, o esforço, a paixão, a sofreguidão, a paciência, a mobilidade: o sério. 

Nenhum momento na vida de Paulo é fora do sério, do zelo, da emulação, do estudo. Tinha sido preparado para o estudo pelos pais. Paulo não conhece outra vida que não a do estudo das sagradas escrituras e não tem outra missão que não a de ser portador da palavra e que se fizesse cumprir a palavra. Recolher os judeus tresmalhados pela influência helenista, anular ou neutralizar a influência dos saduceus e agora desta nova seita de Cristo, Jesus e dos seus apóstolos. Era cidadão romano por parte do pai, o seu domínio do grego é de alguém que nasce no colo daquela língua, o hebraico era a língua em que foram escritos os textos que lia, o aramaico o seu dialecto. Paulo tem em si sempre resquícios do judeu fariseu e zelota que é. 

A alteração que se dá, o alheamento de Saul e a apropriação de Paulo não é de natureza psicológica, por mais profunda que seja a análise. A conversão de Paulo, se assim se pode dizer, não resulta de nenhum impacto afectivo, de nenhuma crise emocional que tivesse ocorrido na sua vida por reacção ao que tivesse sido e feito, a qualquer acção que o tivesse comprometido. 

É Deus quem provoca a própria fissura. É Deus que configura um horizonte que metamorfoseia o sentido da fé. Se há uma crise religiosa não é uma crise que faz passar alguém de ateu, céptico ou agnóstico ou alguém que está distraído da fé ou perdido para a fé, para alguém que passa a ter fé, que a adquiriu ou a teve: ou que simplesmente aceita a borla da graça e ficou configurado pela fé. Não. Não se trata aqui da passagem de uma situação sem fé para outra com fé vista pelo ponto de vista humano. Como se alguém que não era religioso e não tivesse fé passasse a ser religioso e a ter fé. Não há momento nenhum na vida de Saul com dúvidas de fé. Não há momento algum na vida de Saul sem o Deus de Abraão: nenhum!

Paulo não apenas foi treinado toda a sua vida para ser quem é. O seu caminho é absolutamente coerente. É um estudioso fanático. O profeta Isaías e os Salmos os livros mais citados nas epístolas estão sempre na ponta da língua: tempera-lhe a absurda inteligência a aço. 

O seu ponto de vista olha a vida de tal forma que não há um gesto quotidiano, nenhum momento da vida do mais insignificante ao mais importante que não ache a sua integração no projecto de Deus para si. 

Não se pode também pensar que não tivesse havido preparação. Os fariseus como já aludimos acreditavam numa vida post mortem diferentemente dos saduceus. Era assim mais do que natural que houvesse uma rivalidade contra o que era visto como uma seita heterodoxa que promovia dissensão no meio do Judaísmo e era concorrente. De resto, seria ingénuo achar que Saul não sabia bem o que estava a fazer. Os Cristãos não eram condenados à morte por ele, mas certamente que eram presos. A sua acção podia ser vista como a de um comandante de uma polícia política altamente sofisticada e com os meios do Império Romano ao seu dispor. 

Também não se pode dizer que haja a alteração de uma óptica fechada em que só judeus eram filhos de Deus para uma óptica escancarada e universal em que há um alargamento da adopção por Deus à totalidade da humanidade. Essas podem ser consequências mas não é o que constitui o cerne da questão. 

A sua vida foi retirada de um centro de lealdade para outro. A alteração que sucede a Paulo, como qualquer experiência religiosa está sob o signo do tremendo e passa-se no íntimo, no interior, na alma, no espírito, na vida de Paulo. E não é isso que lhe retira realidade. É o que constitui a realidade mais radical que existe. No recôndito da intimidade mais subjectiva que existe projectamo-nos de dentro para fora, exteriorizamo-nos, expressamo-nos, impelimo-nos para constituir um fora de que depende toda a nossa vida, o mundo e as vidas dos outros com os seus mundos todos diferentes. E cada ser um humano é o encaminhamento possível que chega ao longe ou se deixa ficar sem ser encetado. 

O passar-se na sua cabeça apenas designa o sítio onde já para os gregos se dá o ponto nevrálgico e o núcleo duro da relação do humano com a vida: a lucidez é de certo modo todas as coisas.  

A primeira vez que Saul é chamado Paulo e em “acta apostolorum, 13, 9”.  As referências à experiência de conversão quando Saul se torna Paulo são da autoria do seu biógrafo e médico Lucas, nos “Actos dos Apóstolos”, em três passos. 

A primeira, é a descrição do acontecimento como que de fora, cinematograficamente. A segunda, é contada pelas palavras de Barnabás quando leva Paulo ao encontro dos outros Apóstolos. A última, Lucas põe o próprio apóstolo a falar em discurso directo, quando o rei Agripa lhe dá oportunidade de se defender. 

As outras referências a que aludimos a que regressaremos são contadas pelo punho do Apósotolo e permitem uma tentativa de reconstituição do que se “terá passado”. Nelas como veremos, encontramos indicações fundamentais, que explicitam o conteúdo da epístola aos Filipenses de que partimos: são 1 Cor. 9, 1 a que já aludimos, 1. Cor. 15, 8 e Gálatas 1, 12 e 1, 16. 

Nos actos dos Apóstolos, a primeira descrição é dividida em duas partes fundamentais. Na primeira, descreve-se a aparição. Na segunda, dá-se o sentido indissociável da aparição: o chamamento para a missão apostólica e o projecto de Deus, Jesus, para Paulo.
I.1. AA, 9, 3-19. “E quando estava de caminho a aproximar-se de Damasco, de repente uma luz vinda do céu envolveu tudo em redor e quando [Saul] caiu por terra ouviu uma voz que falava com ele: ‘Saul, Saul, porque razão me persegues?’ E ele respondeu: ‘quem és tu, senhor?’ (Τίς εἶ, κύριε;). E a voz respondeu: ‘sou eu, Jesus, quem tu persegues. Vá lá anda, levanta-te e entra na cidade. Lá haverá alguém que dirá o que deves fazer.’ Os outros homens que o acompanhavam ficaram parados estupefactos: escutaram também a voz, mas não viram ninguém. Paulo levantou-se, mas mesmo depois de ter aberto os olhos não viu nada. Levaram-no pela mão e fizeram-no entrar em Damasco. E durante três dias ficou sem ver, não comeu nada nem bebeu”. 

Algumas notas para sublinhar a descrição e vincar o sucedido: 

Nota 1: O que acontece é descrito como sucedendo subitamente: ἐξαίφνης. O súbito descreve um fenómeno que se dá de baixo para cima: algo que não é visto e que emerge, que salta de baixo para cima. O repentino, o subreptício. O que desliza, se arrasta, como um réptil camuflado, sem barulho. Mas o advérbio esconde muito mais em grego do que a tradução deixa perceber. 

Nota 2: O que estava como que desaparecido, como se não tivesse estado lá nem nunca tivesse existido, aparece, não se sabe de onde nem quando. O advérbio diz da latência, do escondimento, da opacidade, do paradeiro desconhecido. Da latência torna-se patente. Do escondimento, é descoberto. Da opacidade, torna-se transparência. Do paradeiro desconhecido, passa a ficar localizado. 

Nota 3: O símbolo que descreve este encontro é a luz. Uma luz desce do céu, ἐκ τοῦ οὐρανοῦ. O prevérbio diz: a toda a volta, em redor, περί. Não apenas de Saul: a toda a volta e por isso também à volta de Saúl. Mas o prevérbio deixa identificar ainda um outro sentido. A luz é como que um foco que está apontado para uma determinada direcção. De repente o foco passa a ser virado. Essa viragem da luz representa a aparição que arranca à escuridão e entrega à transparência.

Nota 4: O que ouvimos de Saul? Uma única pergunta em discurso directo: “τίς εἶ, κύριε;” Quem és, senhor? A pergunta não completamente indeterminada. O vocativo, senhor: indica alguma possibilidade de que Saul reconhece o que lhe está acontecer. 
A segunda parte conta como o senhor responde às reservas de Ananias: 

I.2. “Vai que ele é o vaso da minha eleição para que possas semear, plantar e fomentar, βαστάσαι,  o meu nome junto das gentes, dos reis e dos filhos de Israel: eu vou mostrar-lhe tudo aquilo por que deve passar em meu nome, ὅσα δεῖ αὐτὸν ὑπὲρ τοῦ ὀνόματός μου παθεῖν”, 15-16. Ananias diz: “Saul, irmão, o senhor, Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me, para que tu possas voltar a ver e ficar cheio de espírito santo”. E de repente como que lhe caíram escamas dos olhos, e voltou a ver. Levantou-se. Foi baptizado, tomou uma refeição e reconfortou-se”, 9, 17-19. 

Nota 1: Aqui, nem uma palavra do Apóstolo. As dramatis personae são o Senhor e Ananias. Mas a mensagem é clara: o sentido da aparição é o de alterar o núcleo duro e central ao projecto de vida de Saul: “ele é o vaso da minha eleição para que possas semear, plantar e fomentar, βαστάσαι,  o meu nome junto das gentes, dos reis e dos filhos de Israel: eu vou mostrar-lhe tudo aquilo por que deve passar em meu nome, ὅσα δεῖ αὐτὸν ὑπὲρ τοῦ ὀνόματός μου παθεῖν”, 15-16.” 

Nota 2: A aparição não é apenas para o reconhecimento da possibilidade impossível da ressurreição, para angariar testemunhos se assim se pode dizer. A aparição tem um conteúdo de segunda ordem. Na voz, não já na luz. O conteúdo não pode ser visto. Apenas escutado. O aparecer é uma convocação, uma chamada. Ele encerra um apelo. Toda a voz que chama não fala apenas. Não dá apenas a entender um conteúdo. A voz tem um conteúdo mas o sentido para esse conteúdo é inequívoco. É um chamamento: uma convocação. 

Nota 3: Numa convocação com esta configuração e esta proveniência não há prorrogação, não há adiamento possíveis: todo o passado é absolutamente revogável. A urgência do chamamento funda de forma concomitante a sua irrevogabilidade. A voz faz apelo a quem pode escutá-la. Ela chama. Enquanto chama, visa quem é chamado. Procura chamar a atenção, virar para si, aproximar a si. Em toda a convocação está também um sentido de vinda à presença. Que vinda à presença é esta para que Saul está a ser citado? O chamamento apela à revogação de todo o conteúdo, não da forma da vida. Mas o chamamento apela para o sítio de onde se chama, para o local para que se convoca, para um tempo que está por vir. A chamada provoca. É uma provocação: um apelo prévio para o que está por vir.

Nota 4: Mas o horizonte que dá resposta a esta chamada não está no mesmo plano em que se encontra o horizonte de onde somos chamados e onde nos encontramos. O chamamento não nos retira de um sítio para nos pôr noutro sítio, não inverte a direcção apenas. Saul não é chamado de lado nenhum. Saul não é chamado para lado nenhum. A bem dizer, Saul não é chamado da Terra para o Céu, nem é inibido de ir para Damasco ou proibido de fazer o que ia fazer. A missão não é inteiramente abortada. Mas também não se trata de um apagamento sem mais do que se foi no passado e de repente passa a ter uma outra oportunidade como as pessoas têm outras oportunidades.

Nota 5: Este chamamento é inteiramente vertical, vem de cima para baixo. O plano era a escuridão e de repente há luz a toda a volta. Calado no zelo da missão, escuta uma voz, que pronuncia um nome, o seu nome. A voz visa Saul sem apelo nem agravo, sem qualquer consideração por quem é, se assim se pode dizer: visa-o naquilo que ele mesmo é. 

Nota 6: A possibilidade improvável, inconsistente, inesperada do ponto de vista humano, advinda contra toda a expectativa e até contra a vontade constitui-se como o possibilitante. Mas o seu horizonte terá de ser construído numa dimensão que não está em lado nenhum no mundo. O chamamento vem do futuro, puxa Saul para o porvir, põe-no em tensão com o advento do porvir. O porvir que vem do céu, numa dimensão temporal que o passa a configurar: o ser no encaminhamento da morte e simultaneamente a possibilidade de uma configuração sem derrota. Não apenas apesar da asfixia e do estrangulamento do tempo, mas por causa do encaminhamento em direcção à morte ser a obliteração das possibilidades de tempo de vida e a obliteração maciça da vida enquanto possibilidade: é por isso que o porvir vem de uma dimensão divina: escancara o tempo possível fora do estrangulamento da morte.

Nota 7: É retroactivamente, mas do futuro que vem do Céu, doado exclusivamente por Deus, que o tempo escatológico é doado. Não apenas o momento presente, mas todos os momentos vividos, todo o tempo havido passa a ser retrospectivado pela possibilidade iminente do por vir: a possibilidade vem não do mundo, nem de ninguém, nem da nossa cabeça: vem do Senhor do tempo: aquele que cria tempo e o cria dimensões de tempo: aquele que simplesmente é e tem sido: faz a hora das horas em todo o lado do mundo e faz tudo através do tempo.

Nota 8: um tal chamamento é acolhido do ponto de vista humano com um prospecto, uma reacção que terá de depender de uma actividade constante, proactiva, se assim se pode dizer: em que cada momento por breve que seja, por mais actual que se encontre: está já inscrito no para todo o sempre do tempo da eternidade que olha dinamicamente de forma retrospectiva para tudo no seu todo: para uma realização de uma possibilidade. A única possibilidade do possível.

II. A segunda menção ocorre em 9, 27 “Barnabás leva-o pela mão até junto dos apóstolos e conta-lhes de que modo viu o senhor e falou com ele”. É também referida indirectamente por Lucas que por sua vez põe apenas Barnabás como sujeito da enunciação.

III. A terceira menção é já no ante penúltimo capítulo dos Actos dos Apóstolos. Agripa permite a Paulo que fale em sua defesa: de 26, 1-11, Lucas põe Paulo a falar. Ouçamo-lo: 

“Todos os judeus conhecem o meu modo de vida desde a juventude que foi no princípio em Jerusalem no meio da minha gente. E se quiserem prestar testemunho podem declarar que desde sempre vivi como fariseu de acordo com a mais rigorosa seita da nossa religião. Mas agora é por causa da esperança e em vista da esperança que foi dada aoas nossos pais por Deus que me encontro sujeito a julgamento.” Conta em 9-11 como combateu a fé que agora o adoptou.

É em 26, 12-18 para desespero e estupefacção do rei Agripa, que Paulo conta o que lhe sucedeu na estrada para Damasco. Para além da repetição do mesmo fenómeno luminoso e da voz escutada, repete as palavras já citadas: 26, 14: “Saul, Saul por que me persegues. Olha que te é difícil recalcitrar contra o esporão”. Paulo diz que disse as palavras que disse: 15 “Quem és, senhor”. As palavras de 9 são repetidas mas de uma forma mais focada. A missão é-lhe dada directamente: “eu apareci-te por causa disto: para te fazer meu ministro e testemunho de que viste e de que me terás visto: ao extrair-te a ti do teu povo e ao enviar-te para os povos que eu escolhi para que tu lhes abras os olhos, para se converterem da escuridão para a luz e do poder de Satanás para o poder de deus, para que eles aceitem a remissão dos pecados e a herança que lhes coube em sorte de serem santificados pela fé que têm em mim”. 


Mas a nossa pergunta não poderá deixar de ser feita. Como podemos saber o que terá acontecido a Saúl para se ter metamorfoseado em Paulo ou antes para se ter feito configurar pelo pendurado na Cruz? Que acontecimento foi esse? Podemos mergulhar para dentro dele? É que de outro modo não podemos saber se não de fora, mesmo acompanhando as descrições psicológicas, o drama existencial de alguém que muda 180 graus a vida. 

Ou talvez seja mesmo por causa do reconhecimento da nossa exterioridade relativamente ao acontecer dos outros que aqui sabemos que não sabemos o que terá acontecido se não nos acontecer a nós. Isto é, a aproximação ao que terá acontecido a Saúl apenas será feita se nos acontecer um vislumbre que espreite para o sentido: Jesus na Cruz. Ao mesmo tempo que ser esse acontecer é dizer esse acontecimento. O que temos nós? Regressemos ao fim da vida de Paulo. É preso e apresentado ao rei Agripa. Assim, diz Lucas nos Acta Apostolorum, pondo Paulo a falar em sua defesa. Uma vez mais, é referido o estranho episódio no caminho para Damasco. Escutemo-lo em discurso directo:

26, 13: a meio do dia ia a caminho de Damasco e vi, rei Agripa, descer do céu uma luz que refulgiu para mim mais brilhante do que a do sol e também aos que comigo se encontravam. 14, todos ficamos prostrados por terra e eu escutei uma voz que me falava em Hebraico: ‘Saúl, Saúl, por que me persegues? Não percebes que é duro dar pontapés num aguilhão?’ 15, E eu então perguntei: “Quem és tu, senhor?”. O senhor respondeu-me: “Eu sou Jesus, quem tu persegues. 16: mas levanta-te e põe-te sobre os teus próprios pés. Foi para isto que eu te apareci, para te fazer meu servidor e testemunha do que tu próprio viste e daquelas coisas em que te hei-de aparecer, 17 ao arrancar-te do teu povo e das tuas gentes, para te enviar até elas para que lhes abras os olhos e se convertam das travas para a luz, do poder De Satanás para o de Deus e possam aceitar a remissão dos pecados e lhes caba em sorte serem santificados pela fé que depositam em mim.” 19, Foi por isso, rei Agripa, que não duvidei da visão descida do céu, 20 mas fui logo anunciar em primeiro lugar aos que estavam em Damasco e em Jerusalém e a toda a região da Judeia e aos seus povos: para que se arrependem-se e convertessem para Deus fazendo obras que merecessem arrependimento.” 

“Em 22 Paulo resume o que lhe é dado a ver nesse encontro e que é o próprio conteúdo do anúncio: a paixão de Cristo e luz resultante da ressurreição.” 

Escutemos o que o Apóstolo diz que Jesus lhe disse: (16.)  ἀλλὰ ἀνάστηθι καὶ στῆθι ἐπὶ τοὺς πόδας σου· εἰς τοῦτο γὰρ ὤφθην σοι, προχειρίσασθαί σε ὑπηρέτην καὶ μάρτυρα ὧν τε εἶδές με ὧν τε ὀφθήσομαί σοι,  (17.)  ἐξαιρούμενός σε ἐκ τοῦ λαοῦ καὶ ἐκ τῶν ἐθνῶν, εἰς οὓς ἐγὼ ἀποστέλλω σε (18.)  ἀνοῖξαι ὀφθαλμοὺς αὐτῶν, τοῦ ἐπιστρέψαι ἀπὸ σκότους εἰς φῶς καὶ τῆς ἐξουσίας τοῦ Σατανᾶ ἐπὶ τὸν θεόν, τοῦ λαβεῖν αὐτοὺς ἄφεσιν ἁμαρτιῶν καὶ κλῆρον ἐν τοῖς ἡγιασμένοις πίστει τῇ εἰς ἐμέ. (5)

(19.)   Ὅθεν, βασιλεῦ Ἀγρίππα, οὐκ ἐγενόμην ἀπειθὴς τῇ οὐρανίῳ ὀπτασίᾳ.

(20.) ἀπήγγελλον μετανοεῖν καὶ ἐπιστρέφειν ἐπὶ τὸν θεόν, ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσοντας. 

Concentremo-nos: nas palavras decisivas de 17: foste escolhido, envio-te a ti para abrires olhos, para fazeres virar as pessoas da escuridão para a luz, para receberem remissão dos pecados, obterem em sorte a santificação pela fé em mim. 

Em 19, Paulo descreve o que lhe aconteceu relativamente a este conteúdo. Uma coisa é escutar uma ordem outra é cumpri-la. Há ordens e ordens: esta é dada pelo senhor da vida mas parece absolutamente impraticável. 

O que quer dizer o que é dito por estas palavras? Paulo diz ao rei Agripa que não desobedeceu à visão do céu ou que não deixou de acreditar na visão do céu:  οὐκ ἐγενόμην ἀπειθής. E logo a seguir diz o que tem sido a sua vide desde esse dia: tenho anunciado às pessoas para  μετανοεῖν e ἐπιστρέφειν ἐπὶ τὸν θεόν, ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσοντας. 

Ἐπιστρέφειν pode ser facilmente por “convertere” para latim, o que dá em português a palavra directa: virar-se de um sítio para outro, comutar de direcções, mudar de direcção: da escuridão para a luz, do poder de Satanás para Deus, de uma vida para outra. Mas o que é traduzido por arrependimento? Nem sequer em latim o encontramos. Muito menos em grego. 

Paulo diz: μετανοεῖν e ἄξια τῆς μετανοίας ἔργα πράσσειν. O infinitivo é composto de meta e de noein. Noein em grego refere uma capacidade de percepção, uma compreensão das coisas altamente sofisticada. É um vislumbre que vê não apenas o que não está dado a ver, mas vê para lá do que está dado a ver: capta coisas ou acontecimentos que vão para lá da percepção habitual. 

Homero usa-o na Odisseia do cão de Ulisses. Quando este regressa a Ítaca mascarado de velho andrajoso, apenas o cão tem o faro, o noos, para adivinhar o seu dono. A palavra refere o que se sente e se compreende por intuição, o nosso modo de sentirmos como é connosco, com os outros aí ao pé de nós e com o mundo. Mas há um elemento decisivo na palavra: meta. O convite não é para ver o que não está dado a ver apenas, nem para ver o que está dado a ver num sentido completamente diferente. 

O convite ou a intimação é para que se produza uma alteração absolutamente radical no nosso modo de ser, para que nos compreendamos de um modo completamente transtornado. Ou seja para alterarmos a nossa maneira de sentir e compreender as coisas. Apenas assim será possível o epistrephein. Nós não podemos alterar nada, não conseguimos mudar de vida, nem inverter rumos ou direcções se nem sequer soubermos o que há para mudar, que existimos numa maneira de compreender as coisas. Por maioria de razão como podemos mudar completamente a nossa compreensão das coisas? 

O que nos diz o latim? A tradução da Vulgata diz: “annuntiabam ut paenitentiam agerent et conuerterentur ad Deum digna paenitentiae opera facientes”. A “conversio” está dependente de um agere paenitentiam. Uma expressão que dificilmente verte o grego. Ou talvez não. 

O latim não diz sofrer a pena, pagar a multa ou o preço, diz algo como expor-se ao trabalho da tristeza, da pena, do lamento. Ou seja: diz para activamente, da forma mais enérgica possível, que nos disponhamos à tristeza, que nos exponhamos ao trabalho intrínseco que a tristeza, a dor, o sofrimento, nos dá. 

A alteração da disposição não é uma alteração da nossa inteligência cognitiva, por assim dizer, é uma transmutação do núcleo da nossa vida. E ele só pode ser trabalhado pela compreensão que a tristeza nos dá. Mas que pena é esta? Que misericórdia é esta? Que tristeza é esta de que aqui se fala? Sem dúvida que não será difícil invocar actos e palavras, pensamentos e omissões. Podemos sentir a culpa do arrependimento e podemos arrepender-nos amargamente. Podermos arrepender-nos de tudo. E tudo foi o que poderia ter sido e não foi. E tudo foi o que não deveríamos ter feito acontecer: actos perpetrados, palavras ditas, pensamentos ditos ou recusas, escusas e omissões. 

E ainda assim poderíamos estar a anos luz de perceber a natureza radical desta transformação. A transformação que esta mudança radical do coração levada a cabo pela tristeza tem um único conteúdo: Cristo na Cruz: o escândalo e a loucura: “até esta hora temos fome e sede estamos nus fomos esbofeteados e ficámos sem segurança e esforçamo-nos por trabalhar com as nossas próprias mãos: amaldiçoados abençoamos, fomos reduzidos à porcaria do mundo a escória de todas as coisas é o que somos até agora”, 1 Cor. 4, 11-13.

As palavras são fortes, mas não trazem nada que nos possam dizer, podem estar afastadas tanto de nós que nada nos dizem. Que metamorfose é esta por que passa a nossa compreensão das coisas? Que compreensão é esta que tudo muda como se pela primeira vez tivéssemos finalmente compreendido o que era ininteligível e não conseguíamos perceber? Ouvimos constantemente no relato: Cristo na Cruz e Cristo renascido. Cristo morre e Cristo ressuscita. 

Não há outro conteúdo na visão de Paulo. É este o conteúdo que ele tem de anunciar. Mas não será anunciar apenas a morte, o opróbrio, a traição, a perda, a tristeza aviltante a que Jesus foi condenado? É Paulo obrigado a pensar no que fez ao perseguir inocentes? Terá Paulo que se arrepender? E lamentar para todo o sempre o que foi até então e daí para a frente apenas terá de lamentar a sua sorte? Isso seria apenas uma consequência de uma tomada de consciência dos nossos actos. 

Sentimos culpa, amargura, impossibilidade e impotência. Mas não é isto que acontece a Saúl. 

Saúl morre na estrada para Damasco. Os seus pecados foram-lhe perdoados, ele não é quem era. Saúl não terá sido o que foi até então. Nasce Paulo. Paulo renasce com Jesus, mas não se trata de uma passar por cima do tempo, um ultrapassar da situação das situações na vida. 

No renascer está a vibração da morte. A morte constitui a possibilidade radical para a sermos. Sermos no encaminhamento da morte e compreender ser esse encaminhamento é o que diz a teologia da Cruz. A glória consiste em fazer esse caminho, não em nascer como se nada fosse, como se tudo fosse possível. “Τί καὶ ἡμεῖς κινδυνεύομεν πᾶσαν ὥραν; 31 καθ΄ἡμέραν ἀποθνῄσκω”. Eu estou a morrer em cada hora, diz o verbo frequentativo em grego: morro-me, diz o latim: morior. 

Mas é neste encaminhamento que ganhei tempo. Não quantidade de tempo, pela primeira vez ganhei o poder do tempo. E o poder do tempo só pode ser ganho se escolhermos viver a vida arrostando com a morte. Mesmo que vivamos a eternidade, do ponto de vista humano será sempre a resvalar, sempre a perder, sempre a obliterar possibilidades atrás de possibilidades. 

O conteúdo de Cristo na Cruz em que a vida de Paulo se converteu é de uma outra natureza. É um coup de foudre fulminante. No primeiro olhar, a esperança. Uma esperança que não é vã. Um esperança que nasce no desespero: 2 Cor. 4, 7-12 “temos este tesouro em vasos quebráveis para que aconteça o sublime poder de Deus: o poder e o sublime não vêm de nos. Em todas as coisas passamos por aflições, mas não nos angustiaremos; sentiremos dificuldades mas não desistiremos. Sofreremos perseguições, mas não seremos nunca abandonados, seremos escorraçados mas jamais seremos destruídos: é por todo o lado que levamos Jesus sempre a morrer na nossa vida, para que também Jesus a viver seja manifestado na nossa vida. Com efeito nós que vivemos fomos entregues à morte por causa de Jesus para que a vida de Jesus se manifestasse na nossa carne mortal. É por isso que somos trabalhados pela morte para que a vida vos seja dada.”

O que quer que tenha acontecido a Paulo é esta história incrível e improvável de uma paixão de um amor impossível. Improvável e impossível: mas do ponto de vista humano. Num abrir e fechar de olhos uma deflagração e uma detonação. 1 Cor., 52: “num instante, num golpe de vista, num piscar de olhos, num abrir e fechar de olhos: os mortos hão-de acordar indestrutíveis e nós seremos mudados, allagêsometha. A morte há-de ser tragada pela vitória.” 

  • Na epístola aos Gálatas, Paulo descreve-se pelo próprio punho:  1,1.   Παῦλος ἀπόστολος, οὐκ ἀπ’ ἀνθρώπων οὐδὲ δι’ ἀνθρώπου ἀλλὰ διὰ Ἰησοῦ Χριστοῦ καὶ θεοῦ πατρὸς τοῦ ἐγείραντος αὐτὸν ἐκ νεκρῶν.

E em 11-12: Γνωρίζω δὲ ὑμῖν, ἀδελφοί, τὸ εὐαγγέλιον τὸ εὐαγγελισθὲν ὑπ’ ἐμοῦ ὅτι οὐκ ἔστιν κατὰ ἄνθρωπον·οὐδὲ γὰρ ἐγὼ παρὰ ἀνθρώπου παρέλαβον αὐτό, οὔτε ἐδιδάχθην, ἀλλὰ δι’ ἀποκαλύψεως Ἰησοῦ Χριστοῦ.

(16.) ἀποκαλύψαι τὸν υἱὸν αὐτοῦ ἐν ἐμοὶ ἵνα εὐαγγελίζωμαι
αὐτὸν ἐν τοῖς ἔθνεσιν

A aparição não está desligada da missão. O que lhe acontece põe-no a ser no tempo, no esgotamento, na amortização da dívida por saldar, na obliteração de possibilidades atrás de possibilidades num afluxo sempre de cada vez mais débil e num escoamento com um caudal temporal sempre a engrossar mais e mais. Mas a agenda de Paulo não é constituída por nada deste mundo, por assim dizer: por prazos que vingam dos mais curtos aos médios e aos mais longos. Por essência toda a petição para revogar o prazo ou o prolongar é sempre indeferida. Mas é também este carácter indeferido da resposta ao pedido para revogação do prazo que pode trazer a possibilidade da compreensão do possível. Na situação aparentemente asfixiante do nada que se aproxima, do tempo sempre menor que temos, da transição de cada instante para o instante há pouco e do que daqui a nada virá para o instante de agora e de este agora aqui para um outro agora há pouco que se afasta sempre de cada vez mais e mais até cair na latência do esquecimento nasce o possível. O tempo passa, diz-se. Mas também dizemos na nossa língua: “tempos virão”: futuro imperfeito, aberto à possibilidade. No espectro de tempo mínimo do instante da angústia, Jesus no arrostamento com a morte: “Jesus sabia que a sua hora tinha chegado para que transitasse deste mundo para o do seu Pai, e aqueles que tinha amado durante toda a sua vida também os amou no fim, amou-os até ao fim”, Jo. 13, 1. Em face da possibilidade derradeira mantém-se a transformação do coração operada pela possibilidade. Quem são aqueles que Jesus amou? Quem são aqueles que descobriu susceptíveis de amor: os apóstolos, a família, os cobradores de impostos, as prostitutas, as ovelhas negras, as crianças, os puros de coração. Judeus, Gregos, Romanos. Na verdade, toda a gente. Deixa de haver gentes para haver toda a gente, as gerações de gerações de pessoas que habitaram e habitarão as costas da Terra são vagas desta vida. São os outros afastados de nós, e os outros que se foram, são todos os outros mas também os nossos que passam a ser transformados por este outro olhar. São eles que se encontram aí connosco no encaminhamento da morte, que passam a ser vistos como rios no seu escoamento. São esses que assim são metamorfoseados nesta constante perda que passam a ser descobertos na possibilidade de ser amados. Os estranhos e os estrangeiros são todos os nossos amigos e família e irmãos. Porque podem nunca ter sido descobertos na susceptibilidade de amor que o seu serem as suas mortes no-los revela. Não se trata da contaminação de um amor humano que transforma o estranho em amigo, adopta todos os outros, os converte em amigos e em irmãos. A doação é feita por uma estranha revelação que os dá a ver na execução das suas vidas. É isso que os põe a ser connosco num destino comum, numa possibilidade radical de descobrir Jesus na Cruz a poder trabalhá-los, na forma mais original como podemos ser a única possibilidade que temos face à possibilidade simples da impossibilidade. É esta metamorfose do tempo, um  mundo às avessas que Paulo vê. Neste mundo votado com todos os que cá se encontram e nós também ao fracasso e à perda seria possível tudo. Mas também esse tudo era nada. O possível é dado antes com a sua força  mais radical na obliteração maciça das possibilidades. É de Deus e da sua vontade que vem Jesus. É a descoberta deste ser no sentido que transforma todos os gestos do quotidiano em gestos agradecidos. É esta revelação: é esta a vida, está a acontecer agora, é este o tempo, é este quem tu és que altera radicalmente todos os instantes da nossa vida com os conteúdos correspondentes. Cada dia passa e não regressa. O tempo é irreversível e irrecuperável. Mas o nosso passado é tão nosso que está sempre à espera de nós na hora da nossa morte. O tempo do humano é este a haver do fim no fim como no princípio. Tudo seria possível, mas o amor de Deus revela-nos que tudo mas mesmo tudo está a ser situado por Ele. E a dimensão que um gesto que se faz mecanicamente na rotina do dia a dia e no seu ramerame passa a ter a dimensão do divino. Cada instante é resgatado à possibilidade do seu não ser e não ter sido. É por isso que há um deferimento sempre e contínuo da possibilidade e uma revogação constante do prazo. Mas o que por isso acontece é um olhar que se exterioriza através de nós e vira do avesso. Paulo é à escala universal, é do tamanho do mundo e transporta no seu ser o senhor da Vida. O que o senhor da vida dá é tempo: um tempo em que o possível é construído e resgatado a partir do impossível. Neste debruar do tempo reside o por vir. O tempo é este advento em que o porvir se faz tempo. É nesta promessa, por este ir por aí além até sempre que Paulo está configurado. Todos os outros são susceptíveis deste amor de vida. Não do passado que passa e se foi sem se saber como mas deste tempo vivido na sua crista, num surf em que as águas da eternidade se convertem para nós em ondas de vida e se propagam.

O que aconteceu a Paulo no fim da sua vida? Numa altura em que tochas humanas ardiam em agonia no Vaticano e Roma estava exposta aos desígnios de um imperador sádico, podemos imaginar Paulo já morto nessa altura, sabe-se lá de que modo. Mas não temos a certeza disso. Por isso eu prefiro imaginar que Paulo finalmente veio até à Península e que numa praia qualquer de Portugal ele terá ido ver sempre o nascer e o pôr do sol que são sempre diferentes e cada dia é menos um dia em que os vemos. E terá sido assim na mais ocidental praia do Ocidente que ironicamente ele terá esperado a vinda iminente de Jesus. E terá sido assim que um dia Jesus o veio buscar.  

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