quinta-feira, 26 de abril de 2012

Contemporânea, 12ª sessão, Protocolo de TOMAS FIDALGO


12ª aula -- § 29 SuZ
Introdução: A aula versa sobre aquilo a que Kant chamaria a doutrina transcendental dos elementos -- exposição do modo fundamental como se constitui o nosso acesso. É por isso a continuação da aula passada.

Contraposição da pura perantidade (vorhandenheit) e aquilo que está à mão.
Em causa nncia maciça  a vida toda ao mesmo tempoetc, mas a algo que nos acompanha. A estrututra complexa da forma como nos encontramos ıaão está apenas a oposição entre o categorial e o existencial, como bolhas diferentes e independentes, mas ao mesmo tempo identificar as diferenças e também perceber de que forma é que é no horizonte da existência que as próprias categorias são interpretáveis..
Em causa não estão dois horizontes de sentido que se podem catalogar ao jeito das descobertas científicas, que permitem algo completamente novo num isolamento temático do que é a existência, mas principalmente os modos de acesso que põem à mostra por um lado o conteúdo categorial e por outro o existência.
A ideia o εἰδός, a percepção, a intuição, o que é sintético a priori, a relação imediata com determinado conteúdo VS. o acesso a conteúdos existências.
 Uma ιδέα, uma percepção clara e distinta, uma intuição, não podem ter acesso ao horizonte existencial. Nós não conseguimos ter uma percepção clara e distinta no horizonte existencial...os fenómenos existências não se compreendem nesse modo de acesso.
Heidegger tenta explicitar a natureza específica do acesso no plano categorial e qual a natureza específica do acesso no plano existêncial.

 §29  Das Da-sein als Befindlichkeit
(O ser o aí como situação de encontrar/ como a situação do encontrar-se)
 Há uma espécie de compreensão do que é este "nos acharmos" -- nós sabemos como estamos a partir da vivência das diversas situações em que nos encontramos desde sempre. É o que está implicado na pergunta "como é que vais". Em causa está o facto de estarmos já numa situação de abertura. Não há um facto que nos dirige para esse acesso, como uma forma de intuição existencial. Pelo contrário nós estamos sempre já a medirmo-nos no termómetro existencial -- nós sabemos e experimentamos sempre como nos encontramos (com ou sem consciência disso). E isso não envolve nenhuma análise focada de um sentimento específico ou qualquer coisa do género, mas a algo que nos acompanha. A estrutura complexa da forma como nos encontramos não corresponde a um ponto, não tem uma estrutura pontual -- é, pelo contrário, uma experiência sempre da vida toda ao mesmo tempo, uma experiência maciça de estar a viver aí, naquele estado. Há uma avaliação complexa que não é instantânea, mas também não é numa perspectiva de balanço, é sim um balança cujos critérios não estão explicitados, mas nos permitem perceber se estamos bem ou mal, se estamos bem dispostos ou mal dispostos, etc. Corresponde a uma espécie de Bloomberg que mostra uma ideia de compreensão disposicional da vida, em que estamos a subir na bolsa, ou a descer, ou estáveis lá em baixo, estáveis lá em cima, etc... E nós não sabemos todas as variáveis que determinam aqueles valores. A análise é, neste sentido, fluvial:  do tempo e dos rios, com linguagem meteorológica -- temos sempre em vista a metáfora fluvial para descrever as nossas disposições: esta é uma compreensão clara mas que não acontece devido a uma percepção clara e distinta. Uma percepção clara e distinta não me permitiria entender como é que está o outro . Pelo contrário, nós estamos sempre numa óptica de resolução que permite interpretar -- Ex. quando eu vejo uma amigo e antes de ele dizer alguma coisa eu já sei que se passou alguma coisa.

Então qual é a diferença entre o (sich) befinden e hinsehen?
Identificação de conteúdos de acesso categorial:
Uma percepção abre para conteúdos susceptíveis de serem percepcionados. O meu quarto não está a ser percepcionado, mas pode ser se eu for lá ver. Este é o campo da percepção clara e distinta -- eu identifico conteúdos de serem percepcionados e que me permitem identificar estruturas reais.
O segundo ponto tem a ver com a natureza formal do contacto, eu interpreto as percepções já segundo a natureza do contacto. Nós ouvimos um conteúdo de repente, mesmo que ele esteja a tocar a tarde inteira -- ele é destacado do campo de fundo em que se encontra e passa a estar saliente (Ex. o barulho das obras quando paro de estudar). A percepção anula a diferença dos acontecimento na φύσις, mas depois pega nuns e mantém-nos à tona. Nós conseguimos mergulhar nuns e noutros por esforço, ignorando outros.
Mas pode existir também uma tentativa de anulação do acesso perceptivo (ex das pessoas a sussurar na biblioteca).
A que é que corresponde o hinsehen? -- os conteúdos impõem-se, mas existem outros conteúdos que podem ser destacados de tal maneira que esse destaque depende de um esforço de disponibilidade de acesso.
Tanto na percepção como na fantasia(φαντασία), o que nós percebemos é que eles são conteúdos reais, porque ambos existem no mundo e são conteúdos reais. O conteúdo de uma coisa pode ser o conteúdo de uma coisa que existe e pode ser o conteúdo de uma coisa que não existe (Ex. pessoas que já morreram) -- eu posso descrever uma inexistência de conteúdos reais. Posso ressuscitar mundos, por exemplo, trazê-los à presença pela fantasia (φαντασία) -- e eles são reais, são conteúdos de coisa (têm cheiro, têm cores, etc...), categorialmente eles são reais. As descrições da Alice no País das maravilhas são descrições de  conteúdos reais -- ou seja, eu posso descrever de tal forma que outros podem perceber; mesmo que não existam no mundo, são variações anómalas da natureza.
(Mas existencialmente não se pode dizer que são reais, porque se trata de uma modalidade -- o conteúdo existencial não é um quid. a forma do conteúdo é existêncial, mas a forma não é real. A perspectiva existencial pode estar a colorir o real, mas ela não é um conteúdo, é a forma dos conteúdos. )
No plano categorial a praia da infância é a praia da infância geográfica, transferível e traduzível de uns para outros, e não a praia da minha infância, é um conteúdo real que não corresponde à praia da minha infância do poto de vista da minha biografia e da minha existência

Heidegger fala depois da befindlichkeit, e refere as Stimmungen  (Stimme tem a ver com voz, com a vibração, até com a afinação de instrumentos).
 Sentimentos, afecções, impressões (que as pessoas deixam)-- não é só o conteúdo, mas o conteúdo e a forma como esse conteúdo nos afecta.
Quando perguntamos  "como tem passado?" estamos a perguntar pela natureza específica do modo como se tem passado. Tem a ver com estados de alma, com explosões maciças de estados de alma. Nós podemos isolar o âmbito existencial através de determinados vectores, podemos falar de emoções, etc...mas o decisivo é que esses acontecimentos são como que organismos vivos ("um sentimento nasce, cresce e morre.."). Um sentimento, um estado de espírito, tem um impacto que pode ser fulminante, aparecer do nada: podemos ser fulminados por um sentimento, por um estado de espírito (ex. desilusão amorosa fulminante, etc).  O ponto é que nós podemos ser apanhados por nós numa situação que não esperávamos. Existem formas de acontecimentos que têm a ver com uma forma de despertar para o estado em que nos encontramos. É uma forma de acontecimento que não é real, mas é tão eficaz que nos afecta realmente. Não passa a estar na realidade, mas tem um impacto em nós, nós damos por nós nessa situação, de tal forma que eu posso estar numa festa e de repente haver algo que me tira da festa, e a partir daí eu já não estou lá...(ex. Posso receber uma mensagem que me deixa preocupado e nada na festa se alterou, não alterou a realidade, mas ainda assim tudo está diferente -- é completamente irreal, mas é eficaz, surte efeito. Quem está de fora desta disposição não percebe nada do que se está a passar para mim, não pode perceber).

Há conteúdos reais, irreais, eficazes e ineficazes
O que surte efeito, o eficaz, é de natureza formal -- pode ser real ou irreal, mas altera e metamorfoseia a realidade no seu todo.

Neste sentido, percebe-s que os πάθη correspondem a formas de afectação. A forma de acontecimento que corresponde ao nosso trânsito na vida, a forma como passamos, o que se passa. Nós estamos num acontecimento que está a passar-se. Ex, quando estamos na presença avassaladora de uma paixão, ou a presença igualmente avassaladora da ausência repentina de uma paixão. Eu posso perceber o que é saltar de paraquedas, mas eu não estou lá, não passeio por isso, tal como uma pessoa pode descrever a vida toda e eu não estou "nos sapatos dela" (Ou posso estar, Ex, posso estar na vida de um persoagem de um livro que leio, sofrer o que ele sofre, sentir o que ele sente; em suma, estar a viver a vida dele).
O que é relevante numa biografia não são as datas e as coordenadas geográficas, mas as fases da sua vida, o que se passou na vida dele, e é por perceber esses pontos de acesso disposicionais, pelos quais ele passou, que percebemos quem ele foi -- é isso que está na ideia de gefühl, ou na ideia de emoção (ex movere, mover para fora de si).
Assim, podemos também compreender o outro como uma forma de abertura disposicional. O humano como cata-vento sensorial. E isso não é real, não tem categorias reais, mas torna-nos completamente expostos. A existência tem de lidar com os outros e com as agressões dos outros e das nossas agressões a elas, de os outros nos ajudarem e de nós os ajudarmos, etc. O humano lida consigo e por isso com a sua sensibilidade, e depois pode-se constituir um adormecimento dessa sensibilidade, ou o contrário. 
É pela possibilidade de sentirmos sentimentos que podemos ficar esmagados por uma paisagem -- nós não nos estamos a expor à determinação categorial da paisagem, mas a uma sensação, a uma impressão -- a nossa relação a tudo é de natureza sentimental (mesmo à ciência), e por isso não é real, mas é eficaz. Essa disposição é agente de conteúdos. É por isso que vamos ver o por do sol, porque o por do sol não é o por do sol.
O sentimento é a exteriorização absoluta de um interior. Tão forte que me pode mesmo fazer mudar de casa (Ex. eu posso sair da casa onde vivi com a ex namorada porque a casa está cheia dela e eu já não suporto ver essa presença exterior de algo interior, e isso faz-me mesmo mudar de casa, apesar de a estrutura real da casa estar exactamente igual).
Se compararmos um sentimento com uma percepção -- nós não temos percepções de sensações. Nós não temos percepções claras e distintas do que está a acontecer. O problema é pensar a relação inversa: será que o sentimento já está a marinar na percepção? Será que há percepções a-sentimentais? Para ter uma percepção eu tenho de estar aberto a uma percepção clara e distinta, e essa abertura constitui já o âmbito sentimental.
Ex.. A análise da teoria (θεορία) por parte de Aristóteles, análise que Heidegger cita, refere  que a teoria só se abre quando se está no sossego. Os homens começaram a filosofar quando tiveram tempo livre (no Egipto). Os momentos da teoria pura, de tensão cognitiva contemplativa, do estar a ver (θεορία) só podem acontecer se tivermos disposição para ver -- se não tivermos disponibilidade para a perspectiva teórica ela não se constitui (ex. se tiver fome não faço metafísica). Tem de haver uma disponibilidade disposicional para a teoria pura.
Pelo contrários, nenhuma percepção pode dar para o acontecimentos sentimental porque ela torna objecto o que não pode ser objecto -- a situação e a disposição deixa de ser disposição, deixa de ser sentimento se eu a tornar objectiva -- eu estar a estudar o medo não tem nada a ver com o sentimento do medo; aliás eu só consigo estudar o medo se não estiver com medo. Quando há medo há uma perturbação que não permite uma análise perceptiva clara. E a percepção não pode nunca mostrar de forma pura o que aconteceu quando tive medo e fugi.
O que acontece no medo e na paixão é que eu me torno exposto e passivo relativamente a um agente exógeno que me comanda e passa a ser eu. Do mesmo modo, para fazer teoria eu tenho de estar numa determina situação (aquilo que Wittgenstein descrevia como o ser levado -- quando estou a estudar estou a ser levado porque há uma abertura disposicional para estudar esse conteúdo teórico). Mas o olhar teórico não consegue captar o conteúdo sentimental porque põe aquilo que só pode ser vivido por um "eu" num "isso". Quando eu me estudo, não me estudo como "eu", mas como "isso" que eu estou a ver, que está perante mim (θεωρία). E do mesmo modo, se não houver abertura para o modo de ver teórico eu não começo nunca a estudar um assunto (Ex. das manhãs em que não consigo por nada começar a estudar, "não estou para lá virado"). Eu não consigo estudar o tédio se estiver entediado, se estiver entediado não vou começar a estudar, mas se eu estiver só na perspectiva perceptiva e teórica eu não estou a sentir tédio, mas tenho o tédio como  um objecto distante de mim. E como resolver isto? Como ter uma margem de manobra no meio disto? Como conseguir estudar isto sem perder sempre algo?
Não se trata da acentuação que Descartes faz da racionalidade nem da inversão que Nietzsche faz para acentuar a sentimentalidade; mas perceber que o tem formas de abertura que podem abrir mais para o categorial e mais para o existencial, mais para a racionalidade e mais para as disposições.
A forma como estamos lançados no mundo é determinada por disposições. Há conteúdos percepcionáveis e conteúdos que não estão no campo perceptivo, mas quando se trata de disposições elas invadem o mundo inteiro -- o tédio é um clima que cai sobre o mundo inteiro ao mesmo tempo, de tal forma que os conteúdos percepcionáveis estão tingidos pela minha disposição.
A disposição quando deflagra não tem a natureza da espacialidade, mas da temporalidade, e espalha isso pelo mundo a priori.


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