terça-feira, 27 de setembro de 2011

Filosofia Antiga, 3ª sessão, 27 de Setembro


994a10-20: καὶ ἐπὶ τοῦ τί ἦν εἶναι δ’ ὡσαύτως. τῶν γὰρ μέσων, ὧν ἐστί τι ἔσχατον καὶ πρότερον, ἀναγκαῖον εἶναι τὸ πρότερον αἴτιον τῶν μετ’ αὐτό. εἰ γὰρ εἰπεῖν ἡμᾶς δέοι τί τῶν τριῶν αἴτιον, τὸ πρῶτον ἐροῦμεν· οὐ γὰρ δὴ τό γ’ ἔσχατον, οὐδενὸς γὰρ τὸ τελευταῖον· ἀλλὰ μὴν οὐδὲ τὸ μέσον, ἑνὸς γάρ (οὐθὲν δὲ διαφέρει ἓν ἢ πλείω εἶναι, οὐδ’ ἄπειρα ἢ πεπερασμένα). τῶν δ’ ἀπείρων τοῦτον τὸν τρόπον καὶ ὅλως τοῦ ἀπείρου πάντα τὰ μόρια μέσα ὁμοίως μέχρι τοῦ νῦν· ὥστ’ εἴπερ μηδέν ἐστι πρῶτον, ὅλως αἴτιον οὐδέν ἐστιν.

  A causa formal deixa-se enunciar por Aristóteles de diversas formas. Esta aqui presente é das mais completas. O quê que já era o que era, que antes de qualquer ente chegar à existência ou antes de o vir a ser era compreendido quanto ao que era e ao que era preciso ter para ser o que é.

Podemos perceber que com a excepção da causa final, a material e a eficiente não podem definir a essência de um ente, a não ser de forma derivada. Em que sentido é que podemos reduzir qualquer uma das outras causas ao seu sentido formal? Ao definirmos uma causa não estamos a fazê-lo do ponto de vista formal?

Quando dizemos que carne consiste em terra, esta em ar e este em água. A carne é formada por proteínas, gorduras e água. A carne pode ser animal ou humana, e a animal diferente em cada espécie e anatomia. A determinação da matéria admite graus de precisão. Mas o mesmo se passa com a determinação eficiente. Pode haver afecções acessórias ou acidentais ou casuais. Pode haver afecções essenciais: a possibilidade radical de ser-se afectado pelo próprio potencial que torna uma coisa naquilo que ela é. Ou seja, pode haver uma razão eficiente que actue essencial e estruturalmente sobre cada coisa.

A causa final pode descrever o que uma coisa é, normalmente como meio ou instrumento ou como o fim específico em vista do qual qualquer coisa é determinada antes mesmo de existir.

A pergunta o que é X requer uma resposta quê, o quê específico que define essencialmente uma coisa. O que é X ou qual é o seu quê? Um ente é definido pela forma de ser. Neste sentido é como se houvesse uma redução de um nome a um verbo. A maneira de ser específica de um ente é normalmente definida por um é X ou seja por uma predicação. Mas o que efectivamente se está a operar quando se diz de X que é X? Trata-se de uma simples nomeação? Alguém é de uma determinada maneira. Um animal é de uma determinada maneira. Uma peça de mobiliario é de uma determinada maneira: tem um determinado aspecto, uma dada configuração, reage e actua de determinada maneira é certo e regular ou não.

Excurso Analíticos Posteriores, 93a14.: ὥσπερ γὰρ τὸ διότι ζητοῦμεν ἔχοντες τὸ ὅτι, ἐνίοτε δὲ καὶ ἅμα δῆλα γίνεται, ἀλλ’ οὔτι πρότερόν γε τὸ διότι δυνατὸν γνωρίσαι τοῦ ὅτι, δῆλον ὅτι ὁμοίως καὶ τὸ τί ἦν εἶναι οὐκ ἄνευ τοῦ ὅτι ἔστιν· ἀδύνατον γὰρ εἰδέναι τί ἐστιν, ἀγνοοῦντας εἰ ἔστιν. τὸ δ’ εἰ ἔστιν ὁτὲ μὲν κατὰ συμβεβηκὸς ἔχομεν, ὁτὲ δ’ ἔχοντές τι αὐτοῦ τοῦ πράγματος, οἷον
Tal como procuramos saber qual é o porquê de qualquer coisa, quando sabemos que ela é, ou seja, sabemos que de facto existe— ainda que não saibamos o que é na sua essência ou por causa do quê é essencialmente o que é— por vezes ambas as estruturas tornam-se evidentes, δῆλα γίνεται, embora não se possa conhecer a razão de ser sem pelo menos saber-se que qualquer coisa existe. É evidente que de modo semelhante também não se pode conhecer o ser essencial de algo antes de saber que esse algo existe, mesmo sem se conhecer a sua essência. Acontece por vezes que conhecemos qualquer coisa de forma meramente incidental dadas as circunstâncias em que primeiramente tomamos conhecimento dela, outras vezes, porém, sabemos, ἔχοντες algo de essencial da própria coisa ou do que a coisa é na sua identidade.

O exemplo tem Aristóteles é elucidativo: Sabemos que há trovões. O contacto estabelecido desde sempre entre nós e trovões identifica a circunstância acidental mas estável. Um trovão é um certo barulho nas núvens. Ou seja, identificamos a forma da manifestação acústica e a localização do barulho nas e proveniente das núvens. βροντήν, ὅτι ψόφος τις νεφῶν. Mas não saber qual é a razão de ser desse facto. O que é que está na base, qual é a causa desse barulho. Uma vez mais ser percebe que a causa eficiente é interrogada. O que está na base de produção do barulho nas núvens? Como é que o trovão vem a ter cabimento? Em tempestades ou em tempestades secas escutamos barulho proviendo das nuvens. Isso é um facto, mas que o produz?

Podemos também dizer o que é um eclipse da lua. É a privação da luz da lua. Mas o que provoca. Isso é um facto. Podemos também saber o que é um eclipse solar, uma privação da luz do sol e também um obscurecimento evidente resultante como efeito dessa causa, de desaparecimento da lua e do sol ou do seu tornarem-se invisíveis: ἔκλειψιν, ὅτι στέρησίς τις φωτός.

De forma mais complexa é a interpretação do que é um homem. Sabemos que há homens, e que os seres humanos são uma espécie de seres vivos. Enquanto tais, isto é, enquanto seres vivos, os humanos são algo que é vivo, animado e não se distingue de nenhum dos outros animais, diferentes géneros de seres vivos. ἄνθρωπον, ὅτι ζῷόν τι. Ou quando dizemos que a lucidez, a existência, ou a alma humana, a vida humana, é um acontecimento que se desdobra a partir de si em si: Move-se a si própria: a si a partir de si ou a si por si. A lucidez não é algo estigmático ou inextenso, mas antes um acontecimento multifacetado que se vê a ser movido, alterado, transformado e mudado por si mesmo e um acontecimento que move, altera, transforma e muda o seu próprio acontecimento. Muda-se de si por si. O que quer qeu isolemos como o que age e o que é agido, o que muda e o que é mudado é pensado neste desdobramento da lucidez constituída por si própria neste acontecimento: passivo, activo, médio: reflexivo, no interesse de si, vantagem e desvantagem, pergunta e resposta, transcurso temporal.
ψυχήν, ὅτι αὐτὸ αὑτὸ κινοῦν.

Mas concentremo-nos no exemplo de Aristóteles: quando temos ou sabemos algo do que qualquer coisa é, seja por hipótese deste modo: ὧν οὖν ἔχομέν τι τοῦ τί ἐστιν, ἔστω πρῶτον μὲν ὧδε·
Primeiro liga-se o eclipse a um determinado acontecimento, ἔκλειψις ἐφ’ οὗ τὸ Α. A lua é um ente, σελήνη ἐφ’ οὗ Γ. Há a hipótese de a terra se interpor entre a lua e o sol, ἀντίφραξις γῆς ἐφ’ οὗ Β.

A questão prende-se justamente com a formulação de B. Para se saber o porquê do eclipse da lua tem de se saber se acontece a hipótese da interposição da terra entre a lua e o sol, de tal sorte que tapa a luz solar que tira o brilho à lua e por sua vez a claridade obtida por deflexão na terra. τὸ μὲν οὖν πότερον ἐκλείπει ἢ οὔ, τὸ Β ζητεῖν ἔστιν, ἆρ’ ἔστιν ἢ οὔ. τοῦτο δ’ οὐδὲν διαφέρει ζητεῖν ἢ εἰ ἔστι λόγος αὐτοῦ· καὶ ἐὰν ᾖ τοῦτο, κἀκεῖνό φαμεν εἶναι. ἢ ποτέρας τῆς ἀντιφάσεώς ἐστιν ὁ λόγος, πότερον τοῦ ἔχειν δύο ὀρθὰς ἢ τοῦ μὴ ἔχειν.

ὅταν δ’ εὕρωμεν, ἅμα τὸ ὅτι καὶ τὸ διότι ἴσμεν, ἂν δι’ ἀμέσων ᾖ· εἰ δὲ μή, τὸ ὅτι, τὸ διότι δ’ οὔ.

σελήνη Γ,
ἔκλειψις Α,
τὸ πανσελήνου σκιὰν μὴ δύνασθαι ποιεῖν μηδενὸς ἡμῶν μεταξὺ ὄντος φανεροῦ,
ἐφ’ οὗ Β.

εἰ τοίνυν τῷ Γ ὑπάρχει τὸ Β τὸ μὴ δύνασθαι ποιεῖν (93b.) σκιὰν μηδενὸς μεταξὺ ἡμῶν ὄντος, τούτῳ δὲ τὸ Α τὸ ἐκλελοιπέναι, ὅτι μὲν ἐκλείπει δῆλον, διότι δ’ οὔπω, καὶ ὅτι μὲν ἔστιν ἔκλειψις ἴσμεν, τί δ’ ἐστὶν οὐκ ἴσμεν. δήλου δ’ ὄντος ὅτι τὸ Α τῷ Γ ὑπάρχει, ἀλλὰ διὰ τί ὑπάρχει, τὸ ζητεῖν τὸ Β τί ἐστι,

πότερον ἀντίφραξις
ἢ στροφὴ τῆς σελήνης (5)
ἢ ἀπόσβεσις.

τοῦτο δ’ ἐστὶν ὁ λόγος τοῦ ἑτέρου ἄκρου, οἷον ἐν τούτοις τοῦ Α·

ἔστι γὰρ ἡ ἔκλειψις ἀντίφραξις ὑπὸ γῆς.

O mesmo se passa a respeito do trovão. A hipótese interpretativa é que se trata da extinção de água ou de humidade nas núvens. Tal como um ferro em brasa quando mergulhado em água emite som ao extinguir-se assim também há um elemento húmido que extingue o relâmpago e cujo efeito é o lado acústico do barulho que faz ao apagar-se nas núvens. Τί ἐστι βροντή; πυρὸς ἀπόσβεσις ἐν νέφει. διὰ τί βροντᾷ; διὰ τὸ ἀποσβέννυσθαι τὸ πῦρ ἐν τῷ νέφει. νέφος Γ, βροντὴ Α, ἀπόσβεσις πυρὸς τὸ Β. τῷ δὴ Γ τῷ νέφει ὑπάρχει τὸ   B (ἀποσβέννυται γὰρ ἐν αὐτῷ τὸ πῦρ), τούτῳ δὲ τὸ Α, ψόφος· καὶ ἔστι γε λόγος τὸ Β τοῦ Α τοῦ πρώτου ἄκρου. Ἂν δὲ πάλιν τούτου ἄλλο μέσον ᾖ, ἐκ τῶν παραλοίπων ἔσται λόγων.
994a10-20: καὶ ἐπὶ τοῦ τί ἦν εἶναι δ’ ὡσαύτως. τῶν γὰρ μέσων, ὧν ἐστί τι ἔσχατον καὶ πρότερον, ἀναγκαῖον εἶναι τὸ πρότερον αἴτιον τῶν μετ’ αὐτό. εἰ γὰρ εἰπεῖν ἡμᾶς δέοι τί τῶν τριῶν αἴτιον, τὸ πρῶτον ἐροῦμεν· οὐ γὰρ δὴ τό γ’ ἔσχατον, οὐδενὸς γὰρ τὸ τελευταῖον· ἀλλὰ μὴν οὐδὲ τὸ μέσον, ἑνὸς γάρ (οὐθὲν δὲ διαφέρει ἓν ἢ πλείω εἶναι, οὐδ’ ἄπειρα ἢ πεπερασμένα). τῶν δ’ ἀπείρων τοῦτον τὸν τρόπον καὶ ὅλως τοῦ ἀπείρου πάντα τὰ μόρια μέσα ὁμοίως μέχρι τοῦ νῦν· ὥστ’ εἴπερ μηδέν ἐστι πρῶτον, ὅλως αἴτιον οὐδέν ἐστιν.

Nesta passo, percebemos claramente que Aristóteles procura apontar ao núcleo definível de um qualquer ente que corresponda à pergunta fundamental pelo quê que que qualquer coisa é. O sentido nuclear de qualquer coisa exclui o acessório e o acidental. Vai ao essencial. Podemos descrever qualquer coisa apenas apontando, mesmo que pormenorizadamente, às qualidades secundárias, à realidade aprensentada pela notícia sensorial. E, no entanto, não dizer o que uma coisa é. O que uma coisa é, é então definida pela sua αἰτία no sentido em que responde à pergunta pela petição do que é. Dizer a sua causa é responder à razão de ser da demanda.

O mais das vezes e primariamente encontramo-nos na situação de ter as coisas respondidas ou feitas corresponder ao seu quê.

994a10-20: καὶ ἐπὶ τοῦ τί ἦν εἶναι δ’ ὡσαύτως. τῶν γὰρ μέσων, ὧν ἐστί τι ἔσχατον καὶ πρότερον, ἀναγκαῖον εἶναι τὸ πρότερον αἴτιον τῶν μετ’ αὐτό.

Ao dizermos o que uma coisa é, dizemos o que lhe está na base como razão de ser essencial. O que essa coisa primeiramente é: Se considerarmos diversos estados no processo de desenvolvimento de um X, por exemplo, um ser humano singular que existe como indivíduo e que não é plural nem outros seres individuais, dizemos que é uma pessoa. Pode ser homem ou mulher, jovem ou de idade, desta ou daqueloutra etnia, com todas as características identificadas por um documento de identificação. Mas nenhuma delas diz o que é uma pessoa, o que faz, como se comporta, classe, estado, quem é quem. Aristóteles aponta para o encadeamento de diversas fases do processo de desenvolvimento de uma coisa que é, de um determinado ente, e diz que as do meio pressupõem sempre um estado anterior e um estado ulterior. Mas a causa primeira não é um momento primeiro no encadeamento das fases de desenvolvimento do que quer que seja, do mesmo modo que o derradeiro estado de desenvolvimento de alguém ou de algo pressupõe um estado de inexistência desse alguém. O último momento de existência pressupõe o primeiro momento do não ser já de algo ou de alguém, pensado como corrupção ou desintegração do seu ser.

O que primeiramente é causa corresponde à definição formal do aspecto essencial com que qualquer coisa nos surge na sua essência. Assim, ser homem, não é nem apenas esperma e óvulo, não é ovulação, concepção, desenvolivmento do feto, nascimento do recem nascido, criança, adulescente, adulto, etc., etc.. é o que de algum modo é visado nisso tudo como operador que permite antecipar essas fases de desenvolvimento.

Do mesmo modo que ser mesa, ser cadeira, não é ter um aspecto físicio determinado, mas é o que esses entes oferecem, o modo como podem ser intervencionados, o forma multifacetada como podem ser utilizados nas mais diversas circunstâncias, o que activamente oferecem. Tudo isso implica a leitura do núcleo duro da função que oferecem quando activada por quem os usa. Essa leitura atinge o nervo da essência que faz ser desa coisa uma coisa que é essencial.

οὐ γὰρ δὴ τό γ’ ἔσχατον, οὐδενὸς γὰρ τὸ τελευταῖον·
Não é nem a a última: porque a última fase de desenvolvimento ou de existência de um determinado ente não está na base de nada que continue num estado de coisas que é, antes antecipa o fim e o princípio do fim já não é nenhum momento do ser de algo, ou então, é a transformação de um sentido em que uma coisa é no sentido em que essa coisa não é.

ἀλλὰ μὴν οὐδὲ τὸ μέσον, ἑνὸς γάρ
Mas também não é nada que esteja a ser numa das fases de desenvolvimento ou do processo de ser ou subsistência de algo. Aristóteles aponta para um meio qualititativo. Não se trata do momento temporal que existe entre a quantidade de tempo que passou desde que uma coisa começou a ser até à quantidade de tempo igual que há-de passar até que essa coisa dure. O meio pode ser qualquer fase depois de qualquer coisa começar a ser e antes que essa mesma coisa termine. Trata-se de uma definição qualitativa. Qualquer momento ôntico é candidato a ser um momento do meio. A sua definição ou circunscrição abstracta: criança, jovem, adulto, etc., etc., implica que é causa apenas de uma situação que pode ser definida como uma das muitas em que um ser vivo da espécie humana está a ser. Uma fase está na base de outra: ἀλλὰ μὴν οὐδὲ τὸ μέσον, ἑνὸς γάρ

Neste sentido não faz diferença alguma se se trata de uma única fase intermédia ou de uma pluralidade delas e no caso de se tratar de uma pluralidade deleas, é indiferente saber se é limitada ou desprovida de limite: (οὐθὲν δὲ διαφέρει ἓν ἢ πλείω εἶναι, οὐδ’ ἄπειρα ἢ πεπερασμένα).

A consideração de uma mulitplicidade de partes que compõem uma coisa podem ser pensadas como auto-inclusão das partes das partes, e destas integrando partes de partes de partes até ao infinito. Ao mesmo tempo há um processo de exclusão de elementos que não fazem parte de determinadas partes. Se isolarmos numa mesa o tampo e as pernas, podemos perceber que as partes do tampo, a madeira e a sua estrutura molecular, uma mulécula e a sua estrutura atómica e subatómica não fazem parte das partes das pernas da mesa, que podem ser como as da sala de aula de metal e com uma estrutura molecular e atómica diferente. Mas quando penso o tampo da mesa como tampo da mesa não penso como um rectângulo de madeira e quando penso na estrutura molecular da base da mesa não penso nas “pernas da mesa” como prismas rectangulares de metal cinzento.

Por outro lado, podemos pensar nas fases do processo de fabricação de uma mesa: abate de uma árvore, fabricação de uma tábua com uma determinada dimensão, fusão dos metais numa determinada estrutura, ligação entre uma estrutura metálica e uma outra de madeira, transporte da mesa para uma grande superfície, a sua compra, deslocação do local de compra para a faculdade, para a sala de aula, a sua subsistência ao longo de todos esses momentos, a uma determinada distância, com determinadas funções nas vidas das pessoas que se encontraram com esta mesa, etc., etc.. As fases ilimitadas estão já integradas e incluídas no que uma coisa é. Uma coisa é justamente o que é mesmo na sua multiplicidade aparente tal como é até aqui. A história de uma mesa é a história da sua manutenção e preservação até ao momento em que não está degradada e não se desintegrou, continua a poder ser utilizada.  τῶν δ’ ἀπείρων τοῦτον τὸν τρόπον καὶ ὅλως τοῦ ἀπείρου πάντα τὰ μόρια μέσα ὁμοίως μέχρι τοῦ νῦν·

A conclusão é: ὥστ’ εἴπερ μηδέν ἐστι πρῶτον, ὅλως αἴτιον οὐδέν ἐστιν. Quer dizer do ponto de vista estático podemos perceber que o processo de fabricação e os estados num processo de fabricação de algo têm já um quê formal que define todos os materiais intervenientes, os escolhe, todos os instrumentos que os trabalham e fases de envolvimento de uns com outros na fábrica de mesas ou na carpintaria, etc., etc.. O mesmo se passa quando pensamos num ser vivo. Quando ouvimos notícias de recem nascidos serem abandonados, pensamos logo no seu serem humanos, terem tido pais, que se encontraram biológicamente de forma directa ou indirecta, que foram concebidos, gerados. Antecipamos-lhe uma vida em geral, hipóteses e oportunidades ou então vidas difíceis, etc., etc.. Esta antecipação baseia-se no substrato vital que faz de um recem nascido anónimo um ser humano na sua essência. Descobrimo-lo já a ser posto numa relação com outros num ser com outros que o abandonaram, que o descobriram, que o acolheram: numa relação com o meio ambiente: se estava bem vestido e tratado, onde foi encontrado, se para ser visto ou para ser escondido, se foi deixado para viver ou para morrer, na sua relação consigo: nas hipóteses que tem contra todas as circunstâncias e condições, etc., etc..
τῶν δ’ ἀπείρων τοῦτον τὸν τρόπον καὶ ὅλως τοῦ ἀπείρου πάντα τὰ μόρια μέσα ὁμοίως μέχρι τοῦ νῦν· Tal como até aqui no princípio e no fim, independentemente da “make up” necessária para que algo seja a unidade da multiplicidade que a compõe e independentemente da metamorfose que admite consoante o ser que é. Ou seja, a transformação que vemos operada na degradação, preservação e manutênção de uma qualquer coisa, o esgotamento e a deterioração de bens alimentares, é diferente do modo como o estado de saúde de um ser humano se altera. Em todos os casos Aristóteles pensa formalmente na possibilidade de uma multiplicidade indefinida ser provida de limite e que a causa primária responsável pelo ser de todos os momentos durante os quais algo existe é um núcleo duro, um substrato que subsiste e que existe durante o tempo em que integrar cada novo instante com o anterior com a consistência idêntica que tinha no princípio antes mesmo de começar a ser.

Ross ad loc.: Aristotle is assuming throughout this section a present effect whose cause is being sought for. 

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